Chick Flick


Arte: Bianca Albino

“Isso não pode ser normal”. Ana pensa olhando o celular e confirmando que chegara duas horas mais cedo para o primeiro dia de trabalho, nunca tinha lido um livro ou visto um filme que mostrava uma funcionária de editora chegando ao trabalho sem obstáculos. Era perturbador que ela não tenha perdido o metrô, que o salto não tenha quebrado, que o vento não tenha soprado seu cabelo castanho bem na direção do brilho labial, fazendo uma trilha melequenta pelas bochechas.

Ela olhava a recepção vazia e escura e sentia nos ombros o peso da bolsa. Duas mudas limpas de roupa e um secador estocados com proeza para compensar o café que com certeza mancharia a primeira blusa e depois para substituir a roupa molhada de uma chuva repentina ou de um carro apressado atravessando uma poça no meio do caminho. Clássicos.

Ana desceu dois andares e ficou fazendo quizzes da internet até perto das oito, não queria chegar sem uma entrada desastrosa de última hora ou talvez achassem que não era capaz de trabalhar naquele lugar. Ela sabia que seria atrapalhada pois seu cabelo não conseguia ficar na retidão do chanel assimétrico que é a estética da menina que se dá bem na empresa, ela era a encaracolada que sofreria para aprender e ainda teria que lidar com os antagonismos dessa mesma menina, que teria um nome curto e muito legal, como Sophie ou Tarah.

E a chefe? Seria uma mulher muito poderosa, talvez uma Samantha ou uma Veronica, nomes longos, terminados em AH para serem ditos com a boca bem aberta, ótimos pra momentos cômicos como o dia em que Ana compraria todos aqueles cafés latte e tropeçaria bem na entrada da sala dela, no meio de uma reunião muito importante com grandes e sérios clientes que ficarão completamente desconcertados com a situação e com sua presença. Esse dia será uma dureza.

Ana saiu do banheiro e voltou ao trabalho dando uma corridinha nervosa para o efeito da chegada de última hora, indo ao encontro da recepcionista, que não estava com um microfone de telemarketing, apertando vários botões e se apressando em dar uma resposta seca aos que pedissem alguma informação. Indicou um cubículo com um sorriso e desejou muito bom dia e boa sorte nesse começo. Realmente precisaria de muita sorte, seriam meses no ostracismo e na humilhação até que alguém importante percebesse nela um grande talento e a promovesse, progressivamente destruindo sua vida pessoal como troca justa pela ascensão profissional.

Olhou por cima do cubículo e viu a figura de um homem perfeito, de relance, porque não rolou uma câmera lenta para que seu coração disparasse e ela ficasse sem jeito. Pensou no namorado que não tinha e veio a certeza de que ele não gostaria desse novo homem em sua vida.

Ana se afastou do computador e foi até a sala de refeições, estava inquieta para conhecer sua nova melhor amiga e não tinha recebido nenhuma mensagem malandra do cara que viu passar mais cedo. Comeu uma comida estranha da geladeira que estava numa sacola com o nome “Luíza” , quis adiantar logo a primeira confusão no escritório e saber quem estava do seu lado quando dissesse que não fez por mal, que foi tudo um pequeno equívoco.

Entra uma mulher de cabelos curtos e ondulados, “essa é do bem” Ana pensa já imaginando o futuro em que o sucesso vai lhe subir à cabeça e será papel dessa mulher lembrá-la de suas origens e dificuldades de início de carreira. Decidiu falar com ela e engatar essa amizade sincera e duradoura:

– Oi, prazer! Meu nome é Ana.

– Oi Ana! Você sabe quem comeu dessa sacola?

– Não, não vi. Era sua?

Que amadorismo, toda uma amizade destruída por conta de uma vontade de causar um rebuliço comendo o lanche de uma Luíza mas sem saber que essa seria a Luíza, a grande companheira nessa jornada para o topo da cadeia editorial. Teria que encontrar uma nova melhor amiga rápido.

– Não, mas essa Luíza não trabalha mais aqui faz quase duas semanas, a gente até tava pensando em fazer um sorteio pra ver quem jogava fora, enfim. Bem vinda! Meu nome é Bruna, você vai gostar daqui, o pessoal se dá muito bem e é receptivo com quem começa, eu entrei há dois anos e já tenho umas responsabilidades bem legais.

Ana parou o olhar em Bruna e ficou sem saber o que dizer, a memória da comida recém ingerida ficava passando como um filme pelos seus olhos. Juntou as últimas forças para uma conversa encurtada e uma ida apressada ao banheiro, precisava vomitar tudo antes que aquilo fosse processado dentro dela, como não percebeu que estava ruim? Achava que era uma comida típica de marte com aquela cor esverdeada? Talvez só um purê de abacate, de uma dieta restrita de alguém? Meu deus, como era burra.

Recusou-se a aceitar aquela situação em que se encontrava, lavou as mãos obstinada e decidiu que um distúrbio alimentar não combinava com a imagem de mocinha do escritório, e não queria que a vida fosse um romance experimental underground com aqueles personagens que usam roupas de grife mas que fumam crack escondido ou que chutam crianças no parquinho. Ela queria fazer as coisas direito.

Voltou a seu cubículo, respondeu vários emails, conheceu a chefe – uma senhora muito simpática chamada Eulália – fez os telefonemas que precisava, leu um monte de páginas que vieram de uma correção, deu uma piscadinha para o homem perfeito cujo vulto teve o prazer de conhecer mais cedo, pegou a bolsa estufada de roupas e foi embora ao final do expediente.

Ana finalmente entendeu o que a confundiu o dia inteiro, o porquê de não encontrar em seu acervo filmográfico e literário explicações para as situações inesperadas foi o desequilíbrio que pairava naquele escritório: faltava a antagonista.

Parou num salão e pediu um corte chanel assimétrico liso, amanhã veria como puxar o tapete de Bruna e conseguir a vaga dela.

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