Celebrando o Natal com Friends


Não me lembro exatamente quando começou nem quanto tempo durou, mas durante alguns anos ligar o televisão na Warner Channel durante os dias de Natal significava me deparar imediatamente com todos os nove episódios natalinos de Friends em sequência.

Desde que eu era muito nova para realmente lembrar, o Natal é minha data comemorativa favorita. Não eram os presentes, porque presentes vinham no dia 12 de outubro ou no meu aniversário, e nenhuma dessas datas era particularmente significativa para mim, nem mesmo quando eu era criança. Também não eram as reuniões familiares, porque eu era nova demais para apreciar o sentido delas. Talvez fosse a mitologia envolvida: as árvores cobertas de neve — que não faziam sentido algum no dezembro de quarenta graus brasileiro –, as renas e os trenós, os enfeites… As luzes. Quando penso em Natal, penso num Natal que quase já não vejo, de jardins e janelas muito iluminados, irradiando uma energia inexplicável e feliz.

Friends se manteve fiel à tradição do especial natalino praticamente até o fim, durante nove temporadas. Nenhum desses episódios é realmente dos melhores, mais engraçados, mais tocantes ou mais qualquer coisa da série. Mas todos eles são, como a maioria dos episódios de Friends, convites para rirmos de nós mesmos, exagerados nas características de um ou outro personagem retratado ali, mas com o pano de fundo das festas de fim de ano sempre presente em maior ou menor escala.

Tenho certeza de que já havia acontecido antes, mas me lembro particularmente das maratonas natalinas de Friends aconteceram nos meus primeiros anos de faculdade, quando muita coisa estava mudando — e outras nem tanto quanto eu gostaria, ou não como eu gostaria. Se o Natal ainda é um dos meus momentos favoritos no ano, isso vem em certa medida de um esforço consciente da minha parte em tentar continuar enxergando magia em um feriado excessivamente comercial que às vezes perde todo o sentido e não raro se transforma mais em fonte de angústia do que de alegria genuína. Foi mais ou menos naquela época que a magia espontânea começou a se quebrar.

Se você está sozinho, a constante reafirmação — vinda de todos os lados — de que o Natal é tempo de celebrar a família e aqueles que amamos certamente só o faz mais ciente da própria solidão. Se seu ano foi difícil, “então é Natal, e o que você fez?” é um convite para reviver memórias complicadas, ou se sentir aquém do próprio potencial, ou sentir que era preciso mais. Mais do que exatamente? Nem sempre fica claro. Como vai a faculdade? Quais são seus planos para depois de formado? Para que serve esse seu diploma mesmo? E os namoradinhos? E o casamento, vem quando? Fulana passou num concurso público, ganha 15 mil por mês, você viu? Ciclano está fazendo pós-doutorado na Finlândia, olha só. E o Joãozinho, esse não toma jeito na vida, ainda bem que você não é assim, hehe. Talvez essas cobranças venham de familiares distantes que só encontramos nas festas de fim de ano. Talvez venham de nós mesmos.

Quando penso nos meus Natais, percebo que para mim essas cobranças só existem na minha própria cabeça. É uma sorte e um privilégio imenso poder dizer que ano após ano, há muito tempo, Natal para mim segue significando família, comida, pessoas levemente inebriadas, trocar presentes e todo o resto da parafernália que não faz sentido algum quando se vive um 25 de dezembro quente como a peste, mas que precisam estar lá, especialmente quando as próximas gerações de crianças começam a chegar — e nós sabemos que elas precisam acreditar que existe um pouco de magia, de inexplicável, lá fora. O que não quer dizer, é claro, que “o que você fez?” não me provoque arrepios.

Ligar a TV em pleno dia 24 de dezembro, em meio a muito joy to the world, the Lord has come, e ver Rachel procurando emprego em “The One Where Rachel Quits”, com um currículo tão minúsculo que a fonte precisa ser aumentada diversas vezes para preencher uma única página, é uma lembrança de que não era só eu que estava passando por essa fase tenebrosa, mesmo que seja Natal — e é por isso que essa trama existe em Friends, ainda que a agonia dela não dure quase nada. Quando Phoebe diz, no mesmo episódio, que a época das festas de fim de ano é difícil, você pode assentir com a cabeça e suspirar: são mesmo.

É Natal e seus problemas não morreram, eles continuam ali. Mas com Friends, assim como entre amigos de carne e osso, é possível rir um pouquinho deles, mesmo que seja durante apenas vinte minutos.

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Assistir a nove natais de Friends em sequência significa testemunhar a evolução de seus dramas conforme o tempo passa — na medida do possível, é claro, porque a série se manteve viva seguindo a mesma fórmula simples por dez anos: falar sobre um grupo de pessoas bastante comuns, embora cheias de traços exagerados para o bem ou para o mal, vivendo questões envolvendo amizade, romance, trabalho, família e encontrar um lugar no mundo de novo e de novo e de novo. É um retrato bem humorado do trânsito nem sempre fácil — por vezes muito difícil — entre quem você um dia foi e a pessoa que é hoje, talvez bem distante daquela que (acha que, ou acham que) deveria ser.

Mas o tempo de fato passa para todos, e nove natais de Friends  em sequência viram um reflexo disso. Em “The One With the Monkey”, o primeiro, Chandler propõe que todos os seis passem o Ano Novo sem nenhuma espécie de envolvimento romântico — ele não quer ser o único amigo sozinho à meia-noite de Ano Novo, é claro. É claro que todos concordam mas quase ninguém consegue cumprir a promessa, porque existe uma pressão externa besta, porém ainda assim real, diante da qual todos sucumbem. Em “The One With Christmas in Tulsa”, que põe fim à maratona de maneira bastante preguiçosa (o episódio é um apanhado de cenas de outros), o drama de Chandler é muito diferente: estar longe de Monica — e de sua família mais próxima, que na verdade são seus outros quatro amigos — na noite de Natal. Se Chandler termina esse episódio feliz e bem resolvido emocionalmente, também é verdade que ele finalmente pede demissão e está desempregado, no ciclo sem fim que é… viver.

A experiência do desemprego — também chamado por Ross de “ano sabático” — aparece também lá na metade da maratona, em “The One With the Inappropriate Sister”. A necessidade quase patológica de não estar sozinho aparece de novo e de novo, com uma Rachel particularmente desesperada em “The One with the Girls from Pougheepsee” ou com Ross… bom, sempre. A noção de que Natal é tempo de estar com a família, embora isso nem sempre seja possível — e por vezes seja fonte de dor e tristeza — é explorada em “The One With Phoebe’s Dad”, justamente com a personagem mais bem-resolvida em todos os outros aspectos.

É repetitivo, claro. Mas repetição é parte inerente da tradição.

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Em “The One With the Routine”, descobrimos que Ross e Monica têm desde muito jovens uma tradição de fim de ano: assistir à uma celebração de Ano Novo meio ridícula na televisão. É algo que os empolga em níveis absurdos e que faz todo mundo rir à sua volta, mas eles não ligam. Ou melhor, nem percebem — existe certa beleza em tradições pessoais, ridículas ou não, porque são coisas muito nossas, que não são facilmente explicáveis porque muitas não existe nada de objetivamente interessante ou especial nelas; seu valor é puramente emocional e pessoal, e não faz sentido para quem não compartilha nossa história, nossas experiências, nossos amigos, nossos afetos.

Nove episódios de Friends em sequência significa um sem fim de repetições, é verdade. Mas essas repetições também fazem a tradição. Cercados de árvores e luzes, enquanto compram presentes bons (Monica) ou horríveis (Chandler e Joey), enquanto vasculham feito crianças as casas de seus amigos em busca dos presentes que irão ganhar, enquanto tentam ensinar aos filhos sobre a tradição do Hanukkah e aproximá-los da própria cultura, os seis vivem os mesmos dramas de sempre. Porque é assim mesmo.

Enquanto o tempo passa, você deixa alguns problemas para trás, cria outros, e assim sucessivamente, num ciclo sem fim que por vezes nos prende, mas que também guia, como diria o poeta (na verdade O Rei Leão). Se eu não sou a mesma pessoa que foi em 2007, ou em 2012, ou em 2015, meu ritual repetitivo de final de ano com Friends (hoje completamente fabricado, pois não há mais maratona espontânea na televisão) é um momento óbvio para pensar nos dramas com os quais me identifico, ou não, ou não mais, ou não ainda. É a clareza na repetição.

Mas também é algo mais básico e simples, mas não menos importante. É o espírito.

Por aqui, faz muito tempo que as luzes diminuíram e o Natal parece restrito ao shopping — ou às minhas próprias janelas. Mas a Nova York de Friends é sempre iluminada.

 

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fernanda.menegotto@gmail.com'

Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.