“Cartas de amor aos mortos”, Ava Dellaira


 Cartas de amor aos mortos acabou nas minhas mãos acidentalmente. Porque entrar em livrarias é um requisitos toda vez que eu saio de casa, em um dia distante de agosto eu e a Milena estávamos na Livraria Cultura lá na Paulista. Eu a convenci a comprar esse livro, ainda que mal soubesse do que ele tratava. A sinopse parecia legal, afinal de contas. E eu sou apaixonada por romances epistolares. Avance algumas casas no tempo e o livro continuava não-lido na estante da minha amiga. Ela desistiu de lê-lo e resolveu me dar a cópia, já que eu continuava interessada na ideia geral da coisa.

Quero dizer, a personagem principal, Laurel, perdeu a irmã recentemente e nós não sabemos como.  A professora dela  resolver passar uma tarefa (pausa para: quem são  e o que comem esses professores de livros YA com tarefas de casa tão legais? Cadê páginas e páginas de exercícios de trigonometria na ficção?) de escrever uma carta a alguém que já morreu. Meu amor pela Meg Cabot e pela Rainbow Rowell demonstra: eu adoro narrativas em formatos diferentes. Fui atraída instantaneamente pela premissa da protagonista ter que interagir com pessoas de verdade. E essa foi minha primeira grande decepção.

Ela não interage. Aí está nosso primeiro problema. Todas as cartas me pareceram meio iguais. Mas primeiro, vamos falar da estrutura delas. Como a Analu bem disse em uma resenha no blog dela (link aqui):

“E ao querer narrar a história de um livro inteiro só em cartas, a autora desvirtuou completamente o gênero proposto! Vocês já receberam cartas com mais de uma página de diálogos inteirinhos?”

Isso me causou estranhamento também. Se a proposta era que o livro todo fosse em forma de cartas – algo complexo, admito, e um tanto quanto ambicioso – ele deveria ser feito de cartas, justamente isso. O que eu encontrei foram mensagens que se perdiam lá pela metade, passando das tais cartas a uma espécie de diário da protagonista, passando por trechos de diálogos longos que ninguém jamais lembraria. Ou seja, a narrativa não é epistolar, mas uma em primeira pessoa clássica com um destinatário em cima.

Sem contar que, como eu falei aí em cima, as cartas acabam sendo muito parecidas. Com raras menções aos destinatários, acaba não fazendo muita diferença se a correspondência é endereçada à Judy Garland ou ao Kurt Cobain. São poucas as mensagens em que a Laurel faz referências mais concretas a essas pessoas e isso enfraqueceu a história. E, apesar de ficar visível que a intenção, em diversas passagens do livro, era ligar os dramas de Laurel a quem ela escolheu, nem sempre isso faz sentido.

Minha segunda crítica é o insta-love. Nunca liguei muito pra esse tipo de crítica até que li Cartas de amor aos mortos. O romance entre Laurel e Sky acontece meio que do nada. Por si só, isso nem seria um problema, mas o que me incomodou foi que tudo na vida da Laurel foi instantâneo. As amizades que ela faz, por exemplo, também caíra, no estereótipo. E o que mais me incomodou: todos esses relacionamentos – de amor, de amizade, de família – passaram muito superficialmente pela história. Nós aprendemos muito pouco sobre a a dinâmica da Laurel com todo mundo à sua volta. E claro, tem uma razão: de luto pela morte recente da irmã, ela passa bastante tempo pensando nisso. A relação entre as duas é bem explorada, mas isso acaba ofuscando o desenvolvimento de outros personagens. Tudo que acontece entre Laurel e a mãe distante e o pai preocupado fica em segundo plano.

Algo mais que eu acho que merece ser citado sobre esse livro – e que é, digamos, uma consequência do ponto anterior – é que os personagens são bem apagados. O grupo de amigos de Laurel é como um borrão e as identidades próprias de cada um dos integrantes quase inexistem. Ok, temos a garota inteligente que vai pra faculdade no ano seguinte e seu namorado fofo, mas em poucas passagens eles são aprofundados. Temos também a garota que está apaixonada por sua melhor amiga, mas tudo passa tão sem profundidade na narrativa que é difícil o leitor se envolver com os dramas delas. O Sky, com quem Laurel desenvolve um romance, nunca deixa de ser o estereótipo de garoto misterioso, mesmo depois deles se conhecerem melhor.

Resumindo: não gostei do livro. Pra contexto, cheguei a dar duas de cinco estrelas no goodreads, ainda que não goste muito desse sistema de estrelas pra leituras. Aliás, não foi bem que eu não gostei, mas foi mais um sentimento nulo em relação ao livro. Eu queria que ele acabasse logo porque nada estava me prendendo na história.

Bom, tirando uma coisa: a realidade crua e a delicadeza sutil com que a autora trata temas complexos. Depois de comentar negativamente diversas características de Cartas, tenho que ceder nesse ponto. Abalada com a morte da irmã, sua mais leal companheira, Laurel não se sente completa e isso é perceptível. O leitor consegue sentir a dor da protagonista. Outro ponto importante é que a relação da personagem com a família se torna ainda mais complicada. Laurel tem uma mãe ausente, uma tia muito conservadora e um pai perdido em todos os sentidos. O retrato de uma família já disfuncional afetada por uma tragédia é duramente realista.

Cartas de amor aos mortos é um caso de livro que tinha tudo pra eu adorar, mas acabou se tornando uma decepção. Esperava figuras históricas e crises de identidade adolescentes e acabei com uma versão reduzida disso.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • @Analu foi por isso que mais quis ler o livro, tava super animada pra ver como ela ia se comunicar com cada pessoa e aí nada aconteceu. CAM é uma definição de desapontamento 🙁

  • ADOREI sua resenha, Lore. Você foi muito mais analítica e técnica que eu, que tava odiando tanto que praticamente não sabia falar, só sentir. Lembro que fiquei o tempo todo enquanto escrevia a minha pensando nesse fato de que ela não se envolve com as pessoas das cartas, de modo que “acaba não fazendo muita diferença se a correspondência é endereçada à Judy Garland ou ao Kurt Cobain”!!! Pensei nisso o tempo todo e não consegui colocar a ideia no meu texto. Parabéns!
    Beijo