Mulheres, escrita e internet: uma conversa com Candice O’Reilly


Se você já ouviu falar da Candice, provavelmente adora o conteúdo dela tanto quanto eu. Se não, deixe eu te dar um pequeno panorama: ela tem 22 anos, é irlandesa e tem um canal no YouTube, onde ela conversa sobre livros, vida universitária, feminismo, questões existenciais, enfim, nosso tipo de coisa aqui da Pólen. E também é escritora. Recentemente, Candice – conhecida na internet como candysomething – lançou um e-book: uma coleção de poemas chamada Sea Legs & Other Stories. 

 

Por ser uma típica pessoa da internet, Candice tem, há anos, produzido conteúdo para seu canal e dividido suas histórias. Já que nesse mês a Pólen vai celebrar as histórias de mulheres, achamos interessante conversar com a Candice sobre a influência desse tipo de audiência em seu trabalho, assim como as expectativas que ela criou durante a universidade e as pressões que as mulheres sofrem ao mostrar sua escrita. 

Como você se sente ao se identificar como escritora? Causa estranhamento? Muitos jovens escritores sentem que não ‘merecem’ esse título se não foram publicados. Como isso foi para você?
Com certeza. Eu acho que as redes sociais tornam isso mais fácil, porque qualquer um pode colocar ‘escritor’ na bio e se isso desvaloriza o título ou o torna mais acessível é a questão. Eu uso [o termo] com moderação, mas espero me transformar nisso, como uma criança em uma cama de adulto.

 

Como alguém que se formou recentemente, qual foi a marca dos estudos na sua escrita? Você acha que a pressão de escrever como aluna mudou sua percepção de escrever para você mesma? 

Arte: Marília Pagotto

Arte: Marília Pagotto

A universidade é sobre crítica. Ler crítica, aprender a escrever criticamente e aprender a aceitar críticas. No meu último ano, eu fiquei bem confiante na minha capacidade de escrever um bom ensaio, mas incapaz de fazer qualquer escrita criativa fora das aulas. Quando você fica tão acostumado a um ambiente em que alguém vai odiar tudo sobre um livro, não importa quão bem sucedido o livro seja, você realmente tem dificuldade em se enxergar publicando um livro no futuro.

 

Já que você é basicamente famosa na internet, como seu relacionamento com sua audiência afeta seu trabalho? E como você acha que o YouTube te ajuda a falar sobre sua escrita e chegar a audiências internacionais?
Haha! Ultimamente, eu tenho achado difícil escrever poesia sobre relacionamentos, porque me preocupo se minha audiência vai achar que estou escrevendo sobre meu próprio relacionamento, tentar procurar detalhes e descobrir informações estranhas sobre mim. Tirando isso, é o espaço mais encorajador em que eu já estive. Acho que não penso muito na geografia dos espectadores, mas os imagino tendo uma enorme variedade de vivências e histórias. Eu acho isso muito eficiente para abrir meus olhos.

 

Você viaja muito por aí: isso mudou sua escrita? [Nota: a Candice também tem outro projeto no YouTube sobre viajar ao redor do mundo]
Realmente espero que sim. Não só os lugares em si, mas transporte. Eu sou mais produtiva quando estou em um avião porque não há distrações. Ir a tantos países e observar diferenças, mas também padrões: todas as pessoas querem estar seguras e confortáveis. Sempre me faz reavaliar o que quero da vida e que histórias quero contar.

 

Você sente algum tipo de pressão sendo uma jovem escritora e youtuber? Como você acha que as garotas podem se ajudar a progredir nesses ambientes?

Sim. Eu já senti pressões diferentes ao longo dos anos: pressão de soar tão inteligente quanto meus youtubers favoritos, pressão a respeito da minha aparência nos vídeos, pressão para criar regularmente. Ultimamente, acho que estou lidando com a questão de que minha voz não é a que as pessoas precisam ouvir. É tão fácil cair no chamado ‘feminismo branco’ e às vezes,  em uma tentativa de não fazer isso, acabo não falando de nenhuma questão feminista.

Tenho feito um esforço em 2016, nas minhas plataformas digitais, para COMPARTILHAR mais. É essa função, não é? Muita gente só compartilha o trabalho dos amigos, os vídeos dos amigos. Eu quero dividir informações e ideias que eu acho legais, independente de quantos seguidores eu ache que possam curtir. Acho que as garotas precisam compartilhar mais. Compartilhar suas histórias sem desculpas e remorso.

 

Quais são algumas escritoras que você recomendaria aos nossos leitores?
Estou lendo agora a Louise O’Neill, que é uma autora irlandesa que escreve YA. Uma poetisa baseada na internet que eu adoro é a Clementive Von Radics. Ela escreve com tanta honestidade e emoção e as palavras dela sempre ressoam comigo. Tavi Gevinson, a editora da Rookie, continua escrevendo cartas da editora todo mês e eu nunca perco. Leio todas. E In Order To Live, da Yeinmi Parks, foi o melhor livro de não-ficção que eu li em um bom tempo.

 

Por último, mas não menos importante: qual é sua música favorita da Taylor Swift?
Nossa, não consigo escolher uma só. Hãaa… Muda todo dia. Hoje é This Love ou State of Grace.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.