Caminho alternativo


Texto: Amanda Tracera

Uma das maiores obras da literatura clássica começa com uma invocação ao divino, numa súplica notável para que a deusa permita ao humano, reles humano, contar, através da sua voz, o que ela lhe canta: a história de Aquiles. Por muito tempo, a literatura e a arte em geral foram vistas como apenas isso: o resultado de uma inspiração santa, a criação através de um ser maior, de fora, que ilumina a mente dos mortais e lhes dá a capacidade de produzir algo fantástico. Precisamos de literais séculos até entender a produção artística como o que realmente é: esforço somado à necessidade quase desesperada de expressão própria.

Produzir arte é produzir um pouco de nós, do nosso caos particular. Externá-lo, transformá-lo em material, organizar os pensamentos confusos e os sentimentos sobrepostos em algo palpável que represente – ou tente representar – aquilo que, antes, parecia impossível. A bagunça que nos é inerente, às vezes, precisa ser vista do alto, por outros, numa expressão nem sempre agradável, mas constantemente libertadora. Produzir arte é, assim, libertar-se do que sobra.

Não é coincidência que vários dos grandes artistas da humanidade eram também atormentados por grandes problemas psicológicos. O peso do mundo e da existência era demais e, tantas vezes, a arte, em todas as suas formas, servia como uma válvula de escape, uma maneira de canalizar esse excesso e modificá-lo até que se tornasse algo menos cruel, que não os devorasse vivos. Talvez por isso sintamos, mesmo tanto tempo depois, essa mistura de sensações e sentimentos ao consumirmos uma dessas formas de arte. Talvez por isso ela seja, afinal, eterna.

Craig Gilner é o personagem do livro de Ned Vizzini chamado It’s Kind Of a Funny Story, publicado em 2009 (no Brasil em 2015, pela editora Leya, sob o título “Uma história meio que engraçada”). Ele é uma criança normal e, ao conquistar uma vaga em uma das melhores escolas da cidade, onde pretendia cursar o seu ensino médio, desenvolve um forte transtorno de ansiedade que, mais tarde, culmina numa depressão profunda. Então, aos quinze anos, durante uma das suas recaídas, ele decide se matar – porém, em vez de fazê-lo, acaba se internando em uma clínica psiquiátrica onde precisa ficar por cinco dias antes de poder voltar para casa.

Essa é a sinopse mais simples do livro, e, embora as 292 páginas permitam uma análise profunda sobre o protagonista, sua doença, suas atitudes, ou simplesmente sobre o impacto do livro na vida de quem também sofre desses problemas, o ponto ao qual preciso chegar é que, para Craig, assim como para tantos outros antes e depois dele (e, por que não, para Ned Vizzini também), a maneira mais simples de escapar do caos da sua própria mente é, afinal, através da arte.

Não demora muito para descobrirmos que Craig era, quando pequeno, absolutamente fascinado por mapas. E, ao falhar diversas vezes enquanto tentava reproduzi-los, começou a criar os seus próprios: ruas, avenidas, praças, oceanos; cidades inteiras que se estruturavam em sua mente, e, com a ajuda dos seus dedos, passavam a ocupar pedaços e mais pedaços de papel. Paixão que, conforme os anos passaram e a vida começou a acontecer, ficou escondida, esquecida em um canto escuro da sua memória. Até que, dentro do hospital psiquiátrico onde se encontra, ao ouvir Noelle – sua nova amiga, também parte do grupo de pacientes – sugerir que ele “desenhe algo sobre a sua infância” durante uma aula de pintura forçada, ele a redescobre. É nesse momento em que Craig recupera uma parte significativa de si.

A partir de então, ele encontra uma espécie de lugar-seguro que o tira do caos da sua mente, que permite alguns minutos de calmaria e respiração. Quando se sente desmoronar, ele pinta. Quando precisa transmitir alguma felicidade ou qualquer outra emoção, ele pinta. Quando precisa se declarar, ele pinta. E aos poucos percebe que esses mapas, esses caminhos fictícios, são literais ruas que o fazem circular e sair do seu medo, da sua ansiedade, da sua depressão. Não permanentemente, é claro, mas pelo tempo necessário para que ele possa, de alguma forma, se recompor.

 

 

Mais do que falar sobre depressão e ansiedade, Ned Vizzini – escritor que anos mais tarde cometeria suicídio e que, assim como seu protagonista, encontrou uma espécie de segurança nas palavras que escrevia – fala sobre a produção artística como forma de libertação. Enquanto Craig nos conta como se sente ao desenhar, pintar e construir as imagens de mapas dentro de pessoas, e sobre o impacto desses desenhos em todos ao seu redor, nós entendemos como esse processo de transferência se dá: como nós podemos tirar da cabeça toda a confusão e o caos e transformá-lo em algo que, no fim, nos oferece algum conforto, clareza.

Quem alguma vez já se ocupou de arte para conseguir desabafar sabe bem o conforto e a calmaria que existe depois. E embora tantas vezes possa também ser extremamente difícil colocar para fora o que quer que esteja acontecendo do lado de dentro, dá pra sentir o corpo pedir essa saída, esse caminho. Trabalhar como artista é a bagunça que vem junto com a arrumação: Craig Gilner poderia ser consumido por muito mais do que tinta e papel; entretanto, escolhe passar a ser afetado por aquilo que o faz bem, que o faz sentir positivamente parte do mundo, afetado por ele.

Durante os seus primeiros momentos no hospital onde está internado, Craig encontra o médico responsável por ele e pergunta se terá que ficar ali até “se curar”. O médico, por sua vez, responde: “A vida não se cura, senhor Gilner. A vida se administra.” Talvez possa soar como um conselho tirado de um livro de autoajuda ruim, mas a verdade é que exatamente isso que ele – e nós, de maneira geral – aprende(mos) a fazer quando descobre que a arte é um alívio para a pressão: administrar. Devagar, num aprendizado constante sobre si mesmo e sobre o que o resto do universo oferece. O que certamente não nos livra dos problemas, mas, por um tempo considerável, nos faz sentir como se eles fossem lidáveis – o que, na maioria das vezes, já é o suficiente.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.