Caí na rotina


Desde que me conheço por gente a rotina faz parte da minha vida. Acordar cedo, ir para a escola, voltar da escola, almoçar, fazer coisas de criança. Cresci, continuei acordando cedo, agora para ir para a faculdade. Durante todos esses anos minha vida foi regida por hábitos, com acontecimentos pré-determinados e nada de muito emocionante acontecendo. E isso nunca realmente me incomodou. Muito. Nada daquele papo de “rotina é algo ruim”. Sempre me senti confortável, segura e minha mania de organização satisfeita com toda a linearidade e poucas variações do dia a dia. Nunca fui lá muito fã de mudanças, então.

Então que há dois meses entrei no modo rotina de férias: acordar tarde, ler, assistir porcarias, fazer especificamente nada. Ao invés de sair por aí e, quem sabe, descobrir o mundo, preferi adotar o meu quarto como habitat natural e estava tudo bem, como sempre esteve na superfície da aparente normalidade da minha rotina.

Agora, na última e iminente semana antes do retorno ao antigo itinerário, finalmente me senti desconfortável. Aquele sentimento de desânimo que nos puxa para baixo, desarma qualquer vontade de seguir em frente e fazer algo, a animação que sentia por voltar a estudar, recomeçar projetos parados, até reencontrar as pessoas pelos mesmos corredores azuis de todo dia se tingiu com leves toques de negação e insatisfação.

Percebo que posso estar entediada com a rotina das férias, mas descontente com a rotina que comanda a minha vida. O que quero dizer com tudo isso é que fico me perguntando: O que mudou em algum ponto obscuro enquanto eu estava presa no meu quarto que me faz descontente com a ideia de voltar para a zona de conforto fácil, conhecida e fluida que minha vida era antes? O que aconteceu que me fez escorregar para o grupo das pessoas que amaldiçoam o dia a dia, odeia o horário de sair para trabalhar ou de voltar para casa? O que me fez cair na – armadilha da – rotina?

A conclusão a que cheguei é que talvez estar descontente com ela, depois de tantos anos, tenho sido o motivo. Não existe uma fórmula da felicidade que faça a rotina funcionar, ser algo almejável ou agradável. Mas, como a maioria das coisas na vida, ela depende de nós. Enquanto estiver satisfeita com meus rituais diários, a mais pobre rotina aos olhos alheios pode ser o paraíso para mim. Mas no momento em que não me agradar mais, escorregarei para o abismo dos eternos descontentes com o que o meu dia a dia tem a oferecer. Cabe a mim sair de lá (e da rotina).

Esse texto é uma colaboração. Mande a sua!

Debora C. G. Theobald, estudante de Jornalismo, um amontoado de pessimismo, livros, séries, personagens e mania de falar muito e alto. Consumidora profissional de cultura, entusiasta das coisas boas que a vida oferece, teimosa e apaixonada por pizza.

twitter: @deboratheobald

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