Caçando fantasmas


// Imagem: "West is everywhere you look", Runo Lagomarsino

Sobre a tradução de línguas mortas

Línguas “morrem” quando deixam de ter falantes nativos. Embora não mais faladas, os efeitos culturais da linguagem extinta perduram, e é o que nos permite traduzi-las. Uma língua não é apenas o que um povo usa para se comunicar, e também marca noções culturais e não verbais muito peculiares, agregando inclusive elementos simbólicos que se entranham no psicológico de uma determinada população.

Pessoalmente, meu interesse por tradução de línguas mortas vem do latim ruim com que convivi durante toda a graduação em direito e com o qual também esbarro às vezes na vida profissional. Tem de tudo: declinação confusa, substantivo quando deveria ser verbo e vice-versa, nosso mais novo ministro do STF que denominou um de seus cursos jurídicos com o termo errado para se referi a “lei” isoladamente  e todos esses erros motivados apenas pelo preciosismo pedante de muitos colegas de profissão.

Há duas correntes principais para a tradução de línguas mortas: traçar a evolução delas na história (que exige linguagens escritas e bem documentadas, como o grego e o latim) ou compará-las com signos existentes. A evolução história das línguas é mais usada com idiomas europeus, cuja decantação de é mais clara. A comparação, por sua vez, é feita com línguas do “novo mundo”, como o tupi-guarani, que curiosamente guarda semelhanças espantosas com o japonês*.

A Bíblia e a Torre de Babel:

Ocupando a posição de livro mais impresso do mundo, a Bíblia tem muitas traduções alternativas, que diferem tanto em significado quanto em cronologias. A mais conhecida e utilizada pelos cristãos ocidentais é a Massorética, que data do ano 1000 d.C., possuindo, assim, muitos reflexos da cultura cristã incipiente naquela época. Talvez por este motivo o culto à Maria como virgem tenha surgido desta tradução, uma vez que não existe consenso entre o termo, se “núbil”, “recém-casada” ou “virgem” (na verdade a mais distante tradução para o termo. A passagem da concepção de Jesus, em que os católicos interpretam a palavra como “virgem”, quando pode significar “núbil” ou “recém-casada” é muito controversa. Este é só um dos problemas das traduções da Bíblia que conhecemos.

Em outra passagem, pode-se entender que o diabo em pessoa vai descer à terra e governar Jerusalém, mas é só um erro de tradução que ignorou um vocativo que na verdade chamava o governante da cidade à época de ‘Satanás”. Não era uma profecia, calma aí, gente.

A visão do tradutor se impregna na palavra traduzida, agregando versões e gerando significados às vezes diversos da mensagem inicial, e no caso da Bíblia tem muita coisa intencionalmten mal traduzida para fins doutrinários. É como brincar de telefone sem fio: a mensagem acaba um pouco corrompida se não for decifrada com cuidado ou se não for “isenta” de elementos culturais do tradutor.

Mas até que ponto a influência da cultura de quem traduz é tão maléfica assim? No meio de nós, tradutores, há a anedota de que no italiano, as palavras tradutor, “traduttore” e “tradittore”, traidor, são muito semelhantes e por isso mesmo até análogas. Por outro lado, a tradução meramente filológica (documental) não se atém a contextos e acaba deixando passar expressões idiomáticas, corruptelas e gírias, por exemplo. Assim, talvez o ideal seja mesclar os dois métodos a fim de conseguir passar a melhor mensagem ao leitor além de ter tradutores que tenham seriedade e isenção no seu ofício: por isso, hoje, as Câmaras de Comércio dos estados do Brasil contam com o concurso de Tradutor Juramentado, para revestir de compromisso e seriedade as traduções linguísticas, embora para as línguas mortas, principalmente para a análise de documentos, seja mais comum requerer perícia****.

Poética:

E como será traduzir poemas em línguas mortas? As estruturas e versificação e mesmo as metáforas são diferentes, muito em razão dos diferentes processos culturais de construção da linguagem, por isso, para traduzir poemas, é preciso ser um pouco poético para conseguir manter a “alma” do texto sem que esta se perca na tradução, que por ser difícil e morosa pode se tornar extremamente técnica. Gilgamesh, por exemplo, é uma epopeia que tem trechos intrincadíssimos, eis que a versificação se fazia de maneira bem diferente na escrita cuneiforme.

Outra maneira é fazer aproximações culturais, como se fazia nas teorias linguísticas, outrora muito importantes para decifrar certos idiomas sem paralelos, como o Sumério, que apesar de ser uma língua isolada mantinha referências culturais com uma língua semítica, o acádio. No que isto nos ajuda? Mesmo com fonemas e signos totalmente diferentes, muitas vezes as ordens de “substantivo+verbo+objeto” se mantêm e as referências a coisas comuns pela proximidade territorial facilitam a compreensão.

Mas beleza e ritmo, como se constroem? As línguas românicas (neolatinas) abarcam a maioria dos escritos traduzidos hoje para o português. Pode até parecer que não, mas elas guardam em si ritmos muito parecidos, além de cadenciarem geralmente como oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, algo que facilita demais a construção de rimas.

Quando esse referencial muda, deve-se mudar também algumas ordens de organização de frases ou então aventurar a traduzir literalmente, perdendo muito da musicalidade. Uma das coisas mais engraçadas que já vi foi um episódio de Bones em que a equipe da Dra. Brennan pega uns poemas escritos em farsi*** e começa a ler traduções literais do Google, resultando nos versos mas absurdos possíveis.

Mais curiosidades:

No início do filme A Chegada, a professora Louise Banks fala para seus alunos sobre a peculiaridade do português em relação às outras línguas românicas, contudo não chegando a  explicar o porquê, interrompida pelos plantões televisivos que anunciam uma invasão alienígena.

Fiquei bem curiosa para saber sobre, e descobri que o português guarda semelhanças com línguas faladas por alguns povos de agrupamentos denominados genericamente como “celtas”**, o que a torna a mais diferente das línguas românicas. Isto só foi descoberto porque alguém teve o trabalho de reviver o vocabulário de alguns destes povos e fazer um estudo comparativo.

A maioria dos signos linguísticos está interligado. Quando se estuda línguas a fundo, nos vemos comparando raízes de proto-indo-europeu e sânscrito, porque eles têm em si a maior parte das referências idiomáticas ocidentais. É como traçar uma genealogia comparativa, e daí ir construindo a tradução através de semelhanças.

Claro que nem sempre é uma tarefa fácil: existem hapax legomena, que são termos isolados no texto; em razão da menção única, se apela para o contexto e interação com os demais elementos textuais.

 

*a particularidade de ter palavras negativas para o gênero feminino, e destas serem bem parecidas entre si, é uma das principais semelhanças a serem ressaltadas aqui

**ou na região ocupada por estes povos, historicamente aglutinados como celtas, mas que nunca tiveram tal unidade cultural: eram vários agrupamentos heterogêneos, inclusive linguística e culturalmente, que acabaram por receber a mesma denominação como “celtas” em um momento histórico muito posterior em que se buscava alguma unidade para todas as organizações heterogêneas dos povos ‘bárbaros’ que ocupavam faixas de terra próximas

***a forma mais “culta” do persa, falada no Irã, existem outras formas de língua persa, como por exemplo a falada no Afeganistão, chamada dari

****no novo processualismo, que conta principalmente com influências do direito dos EUA, há uma figura conhecida como amicus curiae, que atua como um parceiro da corte para a resolução de assuntos técnicos, oferecendo melhores esclarecimentos

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.