Caça ao tesouro


Texto: Paloma Engelke

Camila finalmente apareceu no portão da escola. Vinha tão distraída como sempre, mochila verde nas costas, na mão um papel não muito grande. Ela quase passou direto por mim, mas eu entrei em seu caminho e por um triz não fomos as duas ao chão.

Ela me estendeu o papel, sem falar nada. Uma foto. Assim de perto, percebi que ela não estava distraída, não hoje; ela estava triste, perdida. Olhei para a foto. Era a mãe dela, tia Lucia, que eu conhecia desde o jardim de infância, mas mais jovem. A tia Lucia da foto tinha uma barriga enorme, como se tivesse engolido uma melancia inteira; uma melancia chamada Camila. Junto com ela estava um homem, os dois sorriam tranquilamente em frente a uma casa azul.

− É o meu pai.

A Camila nunca conheceu o pai. Logo antes de ela nascer ele decidiu que não estava pronto para ser pai e sumiu no mundo. Não havia fotos dele na casa dela, a mãe não sabia ou não queria revelar onde ele estava e, até agora, eu não acho que ela soubesse como era a aparência dele.

− Onde você arranjou isso? – perguntei, devolvendo a foto.

− Na caixa de fotos da minha mãe. Olha atrás.

Virei a foto e procurei o que ela queria que eu visse ali. No canto superior, um escrito: Rua Graça Silva, 2003.

− Você conhece esse endereço?

Camila negou com a cabeça.

− Não é a casa onde vocês moravam quando você era pequena?

− Não, quando eu nasci a gente morava com o vovô e a vovó.

Encarei o verso da foto novamente. Eu não tinha ideia de onde ficava aquele endereço.

− Eu pesquisei na internet. Eu não vou à aula hoje, vou até lá e vou procurar a casa.

− Mas, Cami, se foi a casa onde os seus pais moraram antes de você nascer, você não vai descobrir nada lá. Ela pode até já ter sido destruída.

− Eu só quero ver a casa. É a única pista que eu tenho.

Ela pegou a foto de volta e começou a voltar para o portão da escola, onde um inspetor montava guarda para que nenhum aluno espertinho escapasse.

− Eu vou junto, espera. – gritei, correndo atrás dela.

Convencemos um colega de turma a distrair o inspetor e conseguimos escapar sem muita dificuldade. Caminhamos rapidamente até a rua seguinte, fora do campo de visão de qualquer autoridade escolar, e finalmente paramos, sem saber o que fazer em seguida.

− Você pesquisou como chegar lá?

Ela precisou de algum tempo para pensar, então liderou o caminho até o ponto de ônibus. Confirmamos com o motorista que o ônibus passava no nosso destino e pedimos que ele nos avisasse quando chegássemos lá. A viagem pareceu levar o dobro do tempo marcado no relógio. Do lado de fora da janela do ônibus, paisagens conhecidas se sucediam, até que começaram a dar lugar a paisagens completamente desconhecidas. Um mundo que não existia antes. Finalmente o ônibus parou, o motorista gritou algo para nós e descermos no nosso destino.

De mãos dadas, entramos na rua e olhamos os números. 390 de um lado, 391 do outro. Seguindo a rua, a numeração diminuía e atrás de nós não havia nada.

− Na foto diz 2003. – Camila reclamou. – Será que destruíram o resto da rua?

Ficamos paradas ali alguns minutos, tentando decidir se devíamos ir embora.

− Você quer seguir a rua e ver se achamos a casa? Talvez esse número seja outra coisa. − ofereci.

Analisamos a foto por bastante tempo, tentando memorizar a aparência da casa, e seguimos juntas pela calçada esquerda, ainda de mãos dadas. Cada uma procurava de um lado da rua e nenhuma das duas piscava. Fui eu quem encontrou a casa, quando já tínhamos passado da metade do caminho. Agora ela era amarela e alguns detalhes estavam diferentes, mas eu tinha certeza que era a mesma casa.

Atravessamos a rua e paramos em frente à construção. As janelas estavam fechadas e não havia sinal de movimento. Encaramos a casa por um tempo, comparando o presente com o passado, sem perceber que na varanda da casa vizinha uma senhora idosa tinha parado de regar as plantas e nos observava.

− Vocês estão procurando alguma coisa?

Levamos um susto e viramos para ela. Meu coração batia acelerado como se eu tivesse sido pega roubando moeda da bolsa da minha mãe para encher o meu cofrinho. Ela nos encarava enquanto a água voava da ponta da mangueira e empoçava o chão de terra.

Peguei a foto da mão da Camila e me aproximei da mulher.

− Bom dia! Desculpa incomodar, mas a senhora mora aqui há muito tempo?

− Trinta anos. Posso ajudar em alguma coisa?

− A senhora por acaso conhece essas pessoas? – perguntei, estendendo a foto.

Ela se aproximou do muro baixo, virando a mangueira para o outro lado e analisando a foto por alguns segundos.

− Conheço, sim! É o filho da Margarida e uma namorada dele. Essa foto deve ter o que, uns quinze anos?

− Quatorze.

− Eu lembro dela, era muito simpática, parecia uma boa pessoa. Boa demais pra ele, se você quer saber. Esse garoto só deu desgosto pra pobre da Margarida.

Olhei de relance para Camila, que estava acompanhando a conversa em silêncio logo atrás de mim. Agora ela tinha outra avó.

− Essa Margarida, por acaso ela ainda mora aqui? – perguntei.

− Ela morreu. Tem uns treze anos. Os filhos venderam a casa logo depois.

Agradeci à senhora, que voltou para as suas plantas mas continuou a nos observar. Eu e Camila sentamos no meio fio em frente à casa e eu passei um braço em torno dos ombros dela. Eu não fazia ideia do que ela estava sentindo ou pensando naquele momento e isso sempre me deixava muito nervosa.

− Eu sinto muito, Cami.

Ela sorriu só um pouquinho e apoiou a cabeça no meu ombro.

− Tá tudo bem. Acho que eu encontrei o que eu vim procurar aqui.

− O quê?

− Um pedacinho da minha história. Quem sabe da próxima a gente tem mais sorte. Quer tirar uma selfie na frente da casa da vó Margarida?

Rimos e tiramos a foto. Ficamos mais um tempo sentadas lá, dividindo um chocolate que eu tinha na mochila, e então finalmente nos levantamos da calçada para fazer o caminho de volta. Camila guardou a foto dos pais dentro do caderno, acenamos um tchauzinho para a vizinha, mandamos um beijo para a vó Margarida e desfizemos juntas o caminho que nos levou até ali.

− Eu descobri o que é o número atrás da foto. − ela comentou.

− O quê?

− O ano em que eu nasci. Deve ser por isso que ela guardou a foto.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.