Brooklyn é um filme de terror


Não fosse a reunião divertida que meus amigos arrumaram, o Oscar desse ano teria sido um fracasso. Comparado ao anterior, os filmes pareceram fracos e a apresentação mais ainda. Contudo, porém, todavia, sempre há algo de bom a se tirar das piores situações; uma das alegrias na decepção desse Oscar foi a presença quase inexistente de Brooklyn. Um filme delicado, sutil, e ao mesmo tempo muito intenso.

Moça deixa a Irlanda para encontrar oportunidades melhores nos EUA, mas acaba se vendo levada por um tornado de escolhas que a dividem entre o país natal e a nova vida – eu jurava que jamais seria pego por uma premissa boba dessas. Tedioso, cliché, monótono. Mas na metade do filme já estava tenso berrando conselhos pra Saoirse da ponta da minha cadeira. Brooklyn é um filme de terror. É o filme de terror que vivemos todos os dias. É o terror de fazer escolhas.

Por mais que o caminho pareça extremamente óbvio depois de o percorrermos, o momento presente é sempre um assombro. Um nevoeiro denso por onde conseguimos escutar os sussurros que preveem o futuro das muitas direções que nos rodeiam. Sussurros que são ecos da nossa própria voz cheia de expectativa. Acontece que tentar prever algo usando nossa inteligência e intuição – talvez cartas, algumas vezes -, é o máximo da capacidade humana. Métodos que não são totalmente eficazes.

Mas porque gastamos tanta energia e sanidade em tentar prever o que vai acontecer? Porque nos importamos tanto com o caminho de nossas vidas? Todos eles são diferentes, todos eles têm seus prós e contras, né? É sim. Mas queremos sempre o melhor. Queremos acertar naquela escolha que levará ao aproveitamento total. Queremos cem por cento, não noventa e oito – e arriscamos conseguir menos de vinte em nome dessa caçada. A pressão é grande, e não existe muito espaço para fracassos. Isso é um terror constante. É parar no meio da noite se perguntando se não poderia ter escolhido melhor, se esforçado mais, se é isso mesmo. É estar na Irlanda pensando em Brooklyn, e quando em Brooklyn pensando na Irlanda. Querer o melhor pode ser algo terrível.

Só que existe outro grande porém nessa história toda: nós humanos não apenas somos péssimos em prever o futuro, mas também quase incapazes de escolher o que é O Melhor. Nos prendemos a conceitos vagos como esse e deixamos que nos destruam pedaço por pedaço. O seu melhor é o meu? O melhor em que acredito é realmente o melhor para mim? Não interessa. Passamos por cima dessas perguntas triviais e seguimos na busca cega pelo paraíso.

É fácil ficar petrificado frente ao monstro do sucesso, o monstro do carpe diem, o monstro do final feliz. É fácil não responder cartas vindas do Brooklyn e se deixar tomar pela dúvida. O futuro é eterno, e as escolhas são únicas; devem ser tomadas com máxima cautela. Ou talvez não. Escolher é tentar adivinhar para onde aquela trilha te levará, e se o destino final é o certo para você – mas muitos dos “casos de sucesso” do mundo começaram com escolhas frustradas ou pessoas que não tinham nenhum planejamento. Talvez seja mais sábio caminhar de uma vez do que morrer escolhendo.

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Sobre Renan Bittencourt

Aos 23 anos Renan já quis ser tenista profissional, monge cantor, e ditador prafrentex - mas decidiu escrever. Roteirista formado em Cinema, psicografa os futuros que não couberam na realidade. É aquariano, carioca, livreiro, vítima constante de crises imaginárias, e confeiteiro amador. Amante secreto de polêmicas, sua frase preferida é "Eu concordo com você, mas...".