“Bastard Out of Carolina”, Dorothy Allison


Texto: Lara Matos

É crescente a idealização da infância como um lugar paradisíaco livre de preocupações e grandes tristezas. O adulto que somos é a criança que fomos, é a ideia corrente. E o senso comum repugna traumas e grandes dores de ser. Para a maioria das pessoas, ainda é difícil lidar com a ideia de uma infância difícil e dolorosa, exatamente em razão desta ideia de que somente uma criança com uma infância sadia poderá ser um adulto pleno e feliz. Infâncias “quebradas” por abusos e grandes catástrofes e perdas são vistas não só com pena e descrença pelos adultos, mas também com uma espécie de fetichização preocupante, que esquece o ser humano vivenciando as experiências para focar apenas na negatividade em si dos acontecimentos.

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Bastard Out Of Carolina, livro sem tradução brasileira (desconheço que haja) é sobre de Ruth-Anne, uma menina que nos conta sua história através de seus olhos de 8 anos de idade. Apelidada carinhosamente de “Bone” por um tio seu, por ser pequena como um ossinho de joelho, a infância de Ruth começou feliz, apesar da família peculiar de sua mãe. Filha de pai desconhecido e de mãe adolescente, nascida em família pobre na Carolina do Sul, ganhou o carimbo vermelho de “bastarda” na certidão de nascimento, destinada àqueles com pai desconhecido. Desde o acontecimento, o maior desejo da mãe de Ruth é conseguir casar-se novamente para que a filha mais velha possa ter sua certidão retificada e passe a ter um pai, retirando essa marca tão vexatória de seus registros civis. Para pontuar a importância dessa questão, no Brasil, apenas em 2002 foi retirado de nosso sistema legal a distinção entre filhos “legítimos” e “ilegítimos”, que influía em questões como herança e filiação.

O primeiro casamento da mãe de Ruth-Anne é feliz e gera a irmã de Bone, Reese, mas dura tão pouco que não há tempo para que seja aditado o registro de Bone como filha de seu primeiro padastro, que falece em um acidente de automóvel. As memórias de Bone deste período tornam-se uma evocação idílica da possibilidade de tempos mais felizes no período de convívio tortuoso com seu segundo padastro, Glen.

De início, Glen parece ser um bom homem de boa família, trabalhador e correto. Aos poucos, seus problemas familiares transparecem, e o desequilíbrio mental do marido da mãe de Bone começa a prejudicar a família. O alvo mais fácil da agressividade do padastro passa a ser Ruth-Anne, a filha bastarda. Logo aquilo que parece apenas gritos e um disciplinamento rígido converte-se em abuso físico e sexual. A situação agrava-se ainda mais quando o filho tão desejado pelo casal é natimorto e após o parto, Anney, mãe de Bone, fica estéril. Glen então transfere a culpa para Bone, a menina indesejada, a filha do acaso que de certo modo tirou a vida de seu rebento.

A omissão da mãe de Ruth-Anne ante o destempero do marido é angustiante. Apesar de notar que há algo de anormal no relacionamento ente Glen e sua filha, Anne apenas tenta manter Bone afastada do padastro em tentativas canhestras, além de culpar a menina pelas agressões, avisando-a a todo momento para “ser cuidadosa”. Funciona muito bem, pois Bone se culpa em razão de cada sentimento mínimo de tristeza ou raiva que sente por se encontrar em uma situação tão terrível. No decorrer do romance vemos a repercussão do comportamento omisso da mãe na autoestima de Ruth-Anne: o isolamento progressivo, a falta de autoconfiança e a preocupação por não ser uma menina bonita são questões levantadas por Bone em seu relato.

Eu fiquei preocupada sobre não ser uma beleza; provavelmente estaria arruinada. Mamãe sempre dizia que as pessoas podiam ver sua alma em seu rosto, podiam ver sua odiosidade e falta de altruísmo. Com toda a odiosidade que eu estava tentando esconder, era uma maravilha que eu não fosse mais feia que um sapo bem gordo na estação úmida.*”

Não queria ser alta. Queria ser bonita. Quando eu estava sozinha, eu observava meu corpo obstinado com longas pernas, nenhum quadril e apenas uma suave elevação no mesmo lugar onde Deedee and Temple tinham seios grandes e redondos. Não tinha nada de que pudesse me orgulhar […]*”

Os idílios de Bone são música e livros, e ela descreve a sua experiência com música gospel de maneira muito singela e poética; a música também a aproxima de Deus, e em suas palavras, “fala de Jesus de um modo compreensível para mim, embora eu não possa reunir todos os seus múltiplos aspectos dessa comprrensão*”. Ruth-Anne faz sua primeira amiga em virtude do gosto por música religiosa: Sharon, uma garotinha esquisita filha de pais superprotetores que acompanham turnês de artistas gospel durante o verão. A música, além dos livros, é a grande paixão de Ruth-Anne. A morte chocante de Sharon é uma das cenas mais pungentes que já li, e a descrição crua dos olhos infantis desta morte contribui para isso. Ruth em alguns momentos parece indiferente à morte de Sharon, ao passo em que se sente culpada em outros. Bone tem tanta noção do que é um luto quanto uma criança de oito anos, ainda centrada nas místicas de seu mundo, pode ter. Não que Ruth não tenha empatia-ela tem, e muita, solidarizando-se e compadecendo-se de Sharon mesmo quando sua amiga demonstra ser uma pessoa desagradável e mesquinha apesar da aparente fragilidade, porém há limites para a compreensão infantil de Bone; ela não consegue entender o que Sharon realmente precisa.

Em uma festa de família, quando Bone consome bebida alcoólica com supervisão de adultos (prática muito comum também aqui no Brasil, infelizmente) e precisa de ajuda para ir ao banheiro em razão da tontura da embriaguez, as muitas marcas das surras com cinto são descobertas por seus tios. A criança então é “exilada” para a casa de sua tia Raylene, uma mulher moderna e independente para os padrões do sul dos Estados Unidos naquela época. Embora Bone tenha desfrutado de paz e de uma convívio familiar sadio, o que lhe foi benéfico, apartar a criança vítima de abuso do convívio da família é um comportamento extremo de culpabilização de inocentes: Glen deveria ter sido isolado. Entretanto, continua morando com a mãe e a irmã de Ruth-Anne, apesar de a família de sua esposa ser cada vez mais hostil com ele.

Em um final de tarde, Bone está sozinha no terraço da casa de sua tia quando Glen aparece. A agressão é iminente, e de fato acontece, física e sexualmente. Ruth-Anne é espancada e estuprada, e está quase sendo asfixiada por Glenn quando sua mãe interfere na situação e consegue imobilizar o marido, removendo Bone para um lugar seguro onde possa ser medicada. Se pensamos que a mãe de Bone terá por fim seu momento redentor de amor à filha, somos surpreendidos pela realidade dos fatos: Anne escolhe fugir com Glenn e abandonar a filha na casa da tia.

Não era sexo, não do modo como homem e mulher empurram seus corpos um contra o outro, mas era como sexo, algo poderoso e assustador que ele queria muito e que eu não entendia de modo algum. O pior era que, quando papai Glen me segurava daquela maneira, era a única vezes em que suas mãos eram gentis.*”

Quando somos crianças, muita coisa é soterrada para vir à tona mais tarde, apenas quando temos capacidade de compreender tais vivências. Tudo volta, e com a compreensão das injustiças e das coisas ruins da infância podem vir também traumas, neuroses e problemas emocionais. Muitos de nós, já adultos, tentamos racionalizar essas experiências passadas e quando não conseguimos, respondemos com revolta e indignação, porque no nosso mundo crescido não há muito espaço para a ideia de que as coisas simplesmente acontecem, sem que haja explicação, punição ou destino intrínseco a elas. Sem que haja motivo para nos culpar ou pensar no “e se…?”. Porém, já não se pode fazer nada para alterar os rumos do acontecido, apenas seguir sobrevivendo. Ficar viva e ter a bravura de ser é a melhor resposta para as coisas escuras não nos derrotarem. Elas são parte de nós, mas não nos encerram enquanto seres humanos.

Não sabemos mais sobre o crescimento, adolescência e vida adulta de Bone (dentro da obra, eis o caráter autobiográfico do livro, que se baseia em experiências reais da infância da autora), o que julguei ser uma ótima escolha de Dorothy, já que o foco do romance são as aspirações e acontecimentos na realidade de Ruth-Anne enquanto criança.

No começo deste texto, afirmei que o livro é sobre Ruth-Anne, e mantenho: o livro é sobre essa criança, e não sobre os inúmeros abusos e agressões que sofreu, embora estes façam parte dela. Fazem parte de Ruth, mas não resumem a linda alma exposta nas páginas belíssimas deste livro.

O filme baseado na obra, lançado no Brasil como “Marcas do Silêncio”, em 1996, não me agradou muito por focar excessivamente na violência sofrida, e por dar pouco espaço para os outros aspectos da infância de Ruth-Anne.

*Os asteriscos estão nas citações porque a tradução dos trechos é minha, portanto não oficial.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.