Balzac e a Costureirinha chinesa, de Dai Sijie


untitledNo fim de 1968, ter perspectivas na China Maoísta deixou de ser uma possibilidade. Com a Revolução Cultural de Mao Tsé Tung, vários jovens foram enviados à reeducação obrigatória. O motivo? Seus pais, ditos intelectuais burgueses, eram considerados uma ameaça ao regime. Era uma forma de tentar corrigir o “erro” dos pais por meio dos filhos. O escritor e cineasta Dai Sijie esteve entre esses jovens e, inspirado pela experiência pessoal, escreveu seu primeiro romance – Balzac e a Costureirinha chinesa, lançado no ano 2000 (no Brasil chegou um pouco mais tarde pela Alfaguara). Acompanhamos o enredo pelos olhos de Ma, enviado à montanha de Fênix Celestial, um vilarejo chinês, junto ao amigo Luo, ambos na faixa dos 17/18 anos.

Em Balzac e a Costureirinha chinesa, tudo é bastante imagético – uma consequência do olhar cinematográfico do autor. Não por acaso ele transpôs a própria obra, cuidando de roteiro e direção, ao cinema.

A reeducação consiste em trabalhos manuais pesados, tanto em plantações ou minas de carvão. A rotina dos garotos é tão maçante quanto os serviços que lhes são designados. O chefe do vilarejo controla todas as atividades, monitorando até mesmo o horário preciso para iniciá-las. O narrador até comenta que antes da chegada dos meninos ao local eles nem mesmo utilizavam relógios. São choques de realidade mútuos. As comunidades em adaptação aos novos moradores e aos seus hábitos, e os jovens se adaptando a um local isolado, abandonando qualquer perspectiva de dar continuidade aos estudos.

Ainda assim, há perspicácia no modo de ver o mundo dos protagonistas – eles encontram formas de driblar o relógio e “negociam” idas a sessões de cinema ao ar livre em uma comunidade próxima. O chefe, depois de descobrir o dom de Luo para narrar histórias, autoriza o passeio desde que recontem todo o enredo do filme ao retornar a cidade. Entre idas e vindas eles conhecem um alfaiate tradicional e famoso pelo trabalho nos vilarejos. Por consequência conhecem também a filha, a ‘costureirinha’ do título, que logo constrói uma amizade sólida com ambos, chegando a se relacionar com Luo. Eles também se aproximam de Quatro Olhos, um moço levemente sisudo e dono de uma valise ‘misteriosa’.

O mais interessante na literatura de Sijie é a sutileza – há muito nas entrelinhas e até mesmo o movimento de conexão entre leitor e autor se dá de forma paulatina. Não é nem de perto um livro que te cativa de imediato: ele cresce em você. Ao menor descuido você se torna cúmplice dos protagonistas contendo o anseio de poder libertá-los das obrigações impostas pelo chefe do vilarejo. Qualquer passo de fuga rende um suspiro de alívio. É o que acontece com o surgimento da Costureirinha e com o momento em que descobrem o que se esconde na mala secreta do Quatro Olhos. Ambos passam noites em claro lendo e relendo os livros encontrados na valise do Quatro Olhos, recontam a terceiros tudo o que absorveram da leitura. Desse contato com a literatura ocidental nascem as cenas mais delicadas da obra – Luo tem todo um cuidado ao repassar as histórias à Costureirinha, que se encanta cada vez mais; Ma anota um trecho de Úrsula Mirouët, de Balzac, na parte interior de seu casaco; o alfaiate, ao ouvir as histórias da boca dos meninos acaba confeccionando roupas com referências aos personagens desses livros.

Nesse momento, o autor mostra a importância da literatura em sua vida. Se até então ela não te cativou com as palavras de Sijie, é difícil não ficar com o coração mole quando eles conhecem obras de autores ocidentais e encontram nesses livros a válvula de escape perfeita.

Sijie sabe conduzir sequências de drama e suspense sem pesar a mão, contando um pouco dos agouros de viver sob um regime totalitário – sem se prender 100% à parte ruim, mas falando muito sobre as formas de sobreviver em meio a tudo isso.  Uma das coisas mais bonitas do livro é forma como todos os personagens amadurecem tendo como meio apenas a literatura e os poucos amigos que encontram no vilarejo. Uma obra de amor aos livros e às pessoas significativas que cruzam nossos caminhos.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.