#ayearathon Fevereiro: diversidade


Eu acho que é inevitável que a gente busque livros com os quais a gente consiga se identificar. Eu posso olhar pra minha estante e perceber que quase, se não todos, os livros que leio, têm pelo menos algum personagem com quem eu sinta uma conexão maior. Isso, entretanto, não significa que a ligação tenha que ser a aparência ou a condição de vida do protagonista do livro. Minha vida de leitora seria com certeza muito chata se tudo que eu lesse fosse sobre garotas com a vida parecida com a minha.

Diversidade é importante tanto pra expandir nossos horizontes (brega, eu sei, mas é a verdade). A melhor parte de ler é que você pode explorar situações completamente diferentes da sua, pode viajar para outros lugares e, ao mesmo tempo, encontrar algo na narrativa que seja comum para você. Ao mesmo tempo, a diversidade importa para a literatura em geral. Se a gente não favorece livros que contam histórias de pontos de vista diferentes, como eles continuarão existindo?

No espiríto de diversidade, então, eu escolhi três livros e acabei lendo só dois (#sddstempo):

Garota, traduzida (Girl in translation), Jean Kwok – Suma de Letras

A protagonista desse livro, Kimberly Chang, é uma imigrante chinesa recém-chegada a Nova York. Ela vem de uma vida confortável em Hong Kong, onde era a aluna mais brilhante de sua escola, para morar em um apartamento decadente e cheio de ratos e baratas no Brooklyn. Sua mãe viúva, que em Hong Kong era professora de música, começa a trabalhar em uma fábrica têxtil e Kimberly precisa ajudá-la sob condição desumanas de trabalho.

Ao mesmo tempo, ela tenta se manter uma boa aluna, mesmo enfrentando dificuldades no inglês e um professor que não compreende sua situação. Ela passa a viver uma vida dupla, alternando entre aluna de sexta série e trabalhadora invisível. Como se não fosse suficiente, Kim também precisa lidar com esconder suas dificuldades da amiga americana Annette, com seus tios donos da fábrica têxtil que parecem não se importar tanto com laços familiares e com o frio entrando pelos vãos da janela de seu apartamento sem aquecedor em pleno inverno.

Eu decidi escolher esse livro pra semana da diversidade porque o conceito de imigração é meio estrangeiro para mim. Achei fascinante, de um jeito muito triste, como a vida da Kimberly mudou simplesmente porque ela chegou em um lugar novo. Ela perdeu toda a sua rede de apoio de casa e foi parar em uma situação na qual estava desconfortável.

A história de Garota, traduzida pode ser complexa, mas o livro em si é aquele tipo de livro que envolve o leitor. Principalmente por causa da relação próxima de Kimberly com a mãe, mas a questão da adaptação também é bem forte. O problema é que a história perde o rumo quando vai se aproximando do final. Não vou dar spoilers, mas foi um daqueles livros que mereceu três estrelas na classificação do goodreads só por causa do tema, porque o final me pareceu corrido e o que acontece na vida de Kimberly, um pouco moralista e sem encaixar com o inpício do livro: a garota imigrante que só queria uma vida mais digna.

 Esperanza Rising, Pam Muñoz Ryan

Os dois livros escolhidos seguiram a mesma temática e isso foi proposital. Esperanza, assim como Kimberly Chang, é uma adolescente e protegida pelos pais. Mas suas vidas são bastante diferentes.

Esperanza vivia muito além do conforto. Ela tinha uma vida de fartura, sendo filha de fazendeiros e tendo diversos empregados que a serviam todos os dias. Eis que o pai dela morre em um ataque violento e, com isso, seus tios começam a ameaçar ela, a mãe a a avó por conta de dinheiro e propriedade. Para fugir das ameaças familiares, ela e a mãe vão para a Califórnia escondidas, com ajuda de uma família de empregados que busca uma vida melhor em terras americanas.

Quando ela chega, começa a viver uma vida completamente diferente. Da mesma forma que Kim Chang, Esperanza precisa começar a trabalhar para ajudar sua mãe. Nesse caso, o trabalho é em uma fazenda. Ela começa a dividir a moradia com até então desconhecidos e cuidar de bebês da família que a ajudou a chegar na Califórnia.

O que me chamou mais a atenção durante essa leitura foi o quão pouco eu sabia sobre essa situação. Ele fala sobre greves, sobre doenças que atingem os trabalhadores, sobre famílias inteiras dividindo a carga de trabalho e tendo dificuldades em se manter. Mas, acima de tudo, me fez pensar sobre o preconceito. Em diversas passagens, o livro cita a dificuldade de imigrantes hispânicos (ou seus descendentes, aliás), se se integrarem à vida americana. Para os Estados Unidos, não importava se alguém tinha uma vida de riqueza no México, se tinha alta educação, se eram imigrantes legais ou ilegais ou se nunca tinha colocado os pés na América Latina, ainda assim poderiam ser expulsos a qualquer hora pela imigração.

Uma leitura excelente, que tem personagens variados, relações familiares fortes e um ritmo gostoso de ler, mesmo no tema pesado. Vale muito a pena pegar esse livro, de verdade.

No geral, ambos os livros coincidiram com o que a gente está falando esse mês na pólen: rotina. Ou, no caso, a mudança dela. Essas garotas tinham suas vidas estabelecidas, seus costumes sólidos, sua família. E, de repente, a vida delas mudou completamente. Elas tiveram que se acostumar a uma nova vida e aprender a lidar com a nova realidade em que estavam inseridas.

Mas o mais importante dessa semana acabou sendo a proposta em si. Ler para fora da minha zona de conforto e encontrar histórias que eram completamente diferentes das minhas. Aprender mais sobre dificuldades que nunca tive que enfrentar situações pelas quais nunca passei.

Dito isso, a melhor parte da literatura é que ela pode ser unificadora. E, mesmo sob circunstâncias diferentes, sentimentos podem ser iguais. São décadas que separam Esperanza de Kim, quilômetros também. Mas elas, assim como eu e você, sentem medo, têm inseguranças e ficam nostálgicas.  Algumas coisas da vida são mesmo universais.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.