Autoras Indies


Texto: Roberta Cintra // Arte: Gabriela Schirmer Mauricio

Se numa prateleira cheia de livros é difícil achar nomes femininos, e temos casos como o da queridíssima J. K. Rowling, que abreviou o seu nome para não ter os seus livros pré-julgados (como ruins ou inapropriados para um determinado público) pelo mero fato de ser mulher, não tema: o que encontramos na internet tem um aspecto completamente revolucionário.

De blogs a fanfictions, e de contos até romances originais, a internet está cheia de autoras que têm um potencial enorme para trabalhar, e elas não desperdiçam tempo.

Entre rotinas que envolvem trabalho e estudo, Maureen Heinrich, Letícia Black, Camila Marciano, Ana Aguiar e Bia Tomaz são algumas dessas autoras. Todas elas escrevem com seus nomes e publicam suas histórias online. As plataformas variam, e conforme o tempo são trocadas, renovadas, melhoradas. Elas começaram com orkut, sites de fanfiction, e hoje são wattpad e até ebooks – tudo de forma independente.

Ana Aguiar conta: “Comecei a ler fanfics com 13 anos e gostava bastante. Só que, quando eu lia, às vezes os fatos das histórias não eram como eu queria (obviamente haha) então eu decidi começar a fazer eu mesma, ou seja, quis começar a escrever! Eu comecei a postar em um blog pessoal e divulgava através do twitter. Só depois fui para um site grande de fanfics.”

Hoje ela é autora da série The Velvets, que tem a sua primeira temporada finalizada no Wattpad, com mais de um milhão de visualizações. Divulgação é uma palavra-chave, em todas as suas formas possíveis. A mais comum é o boca-a-boca; você lê essa história incrível, e precisa que seus amigos leiam também. Na internet, isso é muito mais fácil: uma indicação e um link é o que basta.

Outras formas são utilizadas, como twitter, instagram, página no facebook, grupo no facebook…

Material para divulgar? Desde imagens editadas até trailers, ou pequenos spoilers da história, playlists de músicas no spotify… Tem de tudo um pouco.

Maureen Heinrich, ou Emme, é uma gaúcha que já brincou com o mundo da música e o da fantasia. Atualmente publica no Wattpad a sua trilogia Jogos da Vida, que conta com a já finalizada Emma e os Monstros, Jovens Deuses e, por fim, O Último Dia de Fevereiro.

Seu livro 1995, que conta a história da compositora Marina Williams, ganhou um #Wattys2015 por escolha pública – que pode ser visto aqui -, prêmio também recebido por The Velvets.

“Me apaixonei pelo Wattpad pela facilidade, pela praticidade do app e do site, pela liberdade de escolher as minhas próprias datas de atualização e ter o controle total sobre as minhas histórias.”, conta Emme.

Camila é autora de Quia Nominor Leo, ou QNL, que está em sua segunda parte, e O próximo Homem da minha Mulher sou Eu. Atualmente ela escreve QNL 2 – Quia Nominor Uir,  e O Único Homem da Minha Mulher sou Eu, tudo no Wattpad. E ela diz de cara muitas verdades:
“Olha, o que me faz escrever eu nem sei mais. Farão quinze anos que escrevo igual uma louca e no começo, eu fazia de brincadeira. Acho que hoje, escrevo por necessidade. Montar enredos e sonhar com diálogos faz de mim eu.
Agora, o que me fez postar no Wattpad, primeiro, foi a necessidade que eu tinha de alguém ler. Eu escrevo há anos, verdade, mas de porta fechada. Uma hora eu falei: “Quer saber? Que se F0(*&¨#(*#! Se acharem muito ruim, eu paro.” Graças a deus, tem uns malucos e umas malucas que gostaram!”

E gostaram mesmo! Através de grupos no facebook, autores conseguem um contato ainda mais próximo com o seu público, e não é só do autor com o leitor não! Tem de tudo, até vídeo produzido pelos leitores para homenagear as histórias ou o autor.

Letícia Black já tem dois livros publicados, Garota de Domingo (2014) e Contos de Uma Fada (2012), publica no Wattpad, Fanfic Obsession, tem site oficial, e reclama do quão mal remunerada é a publicação por editoras. Por isso, está considerando vender eBooks de forma independente:

“Eu confesso que eu ainda tenho um pouco de preconceito com eBook, porque eu não imagino como uma pessoa compra eBook. Mas eu já descobri que as pessoas compram muito eBooks, então eu tô tentando quebrar esse preconceito em mim pra poder começar a publicar minhas histórias em eBook.”

Já tendo visto os dois lados da moeda, Letícia fala das vantagens e desvantagens tanto da publicação independente quanto das editoras.

“Garota de Domingo eu ganho de cinquenta centavos a dois reais por cópia vendida, dependendo do preço que foi vendido. Quando eu lancei Garota de Domingo independente eu fazia uns quinze reais por livro. Mas, claro, eu vendi mais e ganhei mais pela editora, porque eles tiveram mais dinheiro para investir, maior divulgação e distribuição.”

“Pra autografar o autor tem que entrar em contato com você, te mandar por correio, mandar de volta… Ir atrás de você num evento… É legal, é, mas nem sempre dá. Eu recebi um recado de uma leitora minha de Portugal, que é uma fofa, e ela tem os meus dois livros. Ela foi ver como comprar o meu livro Jogando os Dados, que eu tô tentando lançar independente – mas não tá dando muito certo – e aí ela falou “Esse vai ser autografado?” e eu respondi que sim, e ela ficou super feliz e isso me deixou meio balançada. É daqui que eu vim, e eu não tenho condições de fazer isso.”

“Eu não sei pra onde meus livros foram. Quando lancei independente, eu sabia que tinha uma concentração de leitores em Manaus!”

Mas e aí, é o fim do livro físico? Não, não, não é esse o ponto de vista, gente. O ponto de vista aqui é que, enquanto o espaço é pouco no mercado editorial, ele é vasto na internet! Eu já vi muita gente deixar de escrever por falta de incentivo, mesmo que sem saber que era só isso que faltava: alguém lendo as sua histórias.

“Acho que a minha vontade maior no momento é realmente conseguir publicar um livro físico, mesmo que ainda de forma independente. Há uma magia um tanto enigmática em ver as tuas palavras impressas, como se aquilo ajudasse a torná-las ainda mais reais. É uma área que eu definitivamente quero explorar.”, diz Emme.

A gente não sabe bem e não desmente; é uma delícia sentir um livro nas mãos. E dá pra fazer isso de forma independente, também.

“A principal vantagem, na minha opinião, é a liberdade criativa. É ter total controle sobre a sua obra, sobre a sua arte, sobre o que você quer fazer com tudo isso. A única pessoa que decide é você, a pessoa que precisa ser agradada é você. Nem sempre é fácil, às vezes a falta de apoio desanima, mas é uma área onde cada dia é um dia, e o futuro sempre parece promissor, de um jeito ou de outro.”, continua Emme.

A Bia Tomaz é autora da duologia Perigo, composta por Perigo Iminente e Perigo Irresistível, e é autora de O Presidente, que está completa em formato de ebook na Amazon, ocupando o 2º lugar no ranking dos mais vendidos! Ela começou no Orkut, descobriu os sites de fanfic, e por um bom tempo apenas leu e se adaptou ao ambiente que adentrara. Hoje ela usa um site pessoal (o Universo Paralelo, que reúne diversas autoras), o wattpad de forma grátis e a Amazon para vendas.

“Já publiquei um livro e em breve devo publicar mais dois através de editora. Mas em breve pretendo publicar alguns por conta própria também.”, conta Bia.

Tendo publicado um ebook para vendas, ela fala um pouco sobre a publicação independente:

“A autonomia em todas as decisões, mas isso pode ser uma desvantagem também quando se está começando, pois não é fácil lidar com todos os aspectos de publicação sozinho, como por exemplo, a revisão, diagramação, arte da capa e etc, é preciso muita pesquisa antes de tomar as decisões.”

Mas esse é um passo normal para os autores independentes; os ebooks são, afinal, a forma mais barata de se autopublicar.

Camila diz: “Tem uma coisa só (que é meu próximo passo, inclusive), que eu quero fazer: Publicar de forma independente e comercial, lá no Amazon. Quero fazer isso, mas ainda não fiz (por que o maldito do meu personagem não me deixa terminar de revisar!) (Brincadeira, Rodrigo, mamãe te ama <3).”

É, revisar e editar um livro não é um processo fácil. Então, bora pegar a caneta e o caderno, ou o notebook, ou o teclado bluetooth… Enfim, bora escrever, autoras do nosso Brasil! Que é assim que a gente aumenta as quantidades de nomes femininos nas prateleiras, migas <3

Bia finaliza:

“Olha, a vantagem de ser independente é o controle sobre o seu produto final. Você domina o orçamento, a capa, a diagramação, a revisão. O Livro só sai MESMO quando está do seu gosto. Isso é ótimo, é uma autonomia que eu não vejo colegas com editora tendo.

Mas, por outro lado, a trabalheira que isso dá, rapaz…”

Independente do caminho escolhido, só não esqueçam que ninguém disse que ia ser fácil, tá? Normalmente o que vale a pena não é <3

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Sobre Roberta Cintra

Roberta faz Letras porque sempre admirou a profissão de escritor e a faculdade ainda não conseguiu fazê-la desistir de escrever! Posta suas histórias online e está criando coragem para ir atrás de publicar uma das suas loucuras (aka revisando loucamente). Uma potterhead e entusiasta, no geral. DFTBA.

  • Amei o post, Roberta! Acompanho, no momento, apenas a Ana e a Emme, mas não existem dúvidas quão talentosas ambas as cinco são. Muita sorte para essas lindas e talentosas moças <3