Auto Depreciação: 1 membro


Texto: Ana Levisky

A gente se auto subestima. Constantemente. Às vezes eu acho que até quem é super confiante só aparenta ser assim justamente por, no fundo no fundo, estar se sentido inseguro e aí precisa dar aquele up na imagem pra ninguém perceber o que tá acontecendo pra valer. Tá bom vai, não consigo imaginar a Beyoncé se olhando no espelho de manhã e duvidando de nada nessa vida, até porque ela já acorda pronta pra dominar o mundo. Mas vai saber.

Pra cada pessoa que te encoraja existem pelo menos 5 haters esperando você cair (segundo uma pesquisa mega fundamentada realizada por mim mesma toda noite antes de me permitir cair no sono). Inclusive, o pessoal costuma dizer que você só atingiu o auge quando os haters começam a surgir, porque aparentemente eles são todos uns recalcados. Então deixa de paranóia que não tem pra quê.

Se me elogiam demais péra lá, tem alguma coisa errada, cadê as críticas construtivas que provam que a galera realmente se envolveu com o meu trabalho e tem algo relevante a dizer para que eu possa continuar a evoluir como ser humano? Se começam a apontar defeito, ué mas eu tenho todos os motivos do mundo pra me convencer de que eu só não fiz o que eu poderia ter feito porque algo me impediu ou eu tinha claríssimas intenções quando optei por aquele caminho, mas na real chego em casa e fervo um miojo porque pra quê se dar o trabalho de ingerir vitaminas se seu esforço nunca é reconhecido e você é a pessoa que mais tenta se expressar nessa vida mas é sempre incompreendida?

Outro dia alguém me perguntou “por que você só ouve essas músicas tristes? que deprimente” e aí eu percebi que o que me angustia é chegar em casa e botar um Pharell Williams pra tocar no Youtube quando tudo o que o meu coração pede é o novo disco do Bon Iver. Até as músicas alegres que eu ouço no repeat tão só é disfarçadas, que o Brian Wilson era bom de camuflar melancolia com estética de verão.

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Ou seja, não sei bem onde eu to querendo chegar (sofro disso direto), mas acho que a gente precisa fazer o que faz sentido pra gente um pouquinho mais e tentar agradar os outros ou se provar pros outros um pouquinho menos. O desafio é evitar se desvalorizar, se comparar e invejar os outros sem cair na armadilha da pretenção, egomania, arrogância e alienação; atingir a famosa modéstia que a gente tanto ironiza, mas com uma boa pitada do merecido amor-próprio.

No Brasil eu sinto que a gente tende a olhar pra fora querendo ser os outros, acha que natal de verdade tem que ter neve e que vida boa é não precisar desviar de buraco na rua. Mas aí chega aqui na Europa e fecha a cara debaixo de chuva no escuro às quatro e meia da tarde e conta pra todo mundo que em virada de ano que se preze tem que pular sete ondinhas. Morar em um país onde o número total de habitantes equivale a menos da metade da quantidade de pessoas que vivem na sua cidade natal deforma toda a sua perspectiva do universo e aí não existe playlist personalizada no Spotify que te faça se sentir digna de individualidade.

Conclusão: não tenho uma, porque pra quê se limitar quando a gente pode continuar nessa jornada eterna de auto validação em que nada parece gratificante o suficiente? Tenta lembrar que você não só é membro do seu próprio clube, mas também o administrador. Dá sempre pra dar uma renovada na programação.

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Sobre Ana Levisky

Ana terminou seu Mestrado na Irlanda e tenta se convencer de que Processo Criativo é sim uma área relevante de estudo. Quando tem tempo faz filmes, já que se formou pra isso.