A ausência de família como um espaço de liberdade


Texto: Paloma Engelke // Arte: Raquel Thomé

Quando eu era criança, eu queria ser órfã.

Pode parecer piada, mas é sério. Eu tinha pais presentes, um irmão mais novo que era ótimo (pelo menos 90% do tempo), tios e avós que me mimavam, primos para brincar. Eu tinha a tal da família comercial de margarida e amava todo mundo tanto quanto eles me amavam. Eu não conseguiria ficar três dias longe da minha mãe. Mas eu queria ser órfã porque as Chiquititas eram órfãs e a vida delas parecia ser tão legal. Até a parte em que elas choravam na cama cantando “Mentirinhas”.

A verdade é que meus pais e minha família de comercial de margarina sempre representaram, de alguma forma, um alto nível de cobrança e expectativa, e o contraponto (a ausência de família) era a consolidação da ideia de liberdade. A culpa que eu sentia por causa disso me causou crises reais de ansiedade por anos toda vez que minha mãe saía de casa, de tanto que eu tinha desejado ser órfã na vida – porque se por acaso ela não voltasse a culpa seria claramente minha.

Ninguém nunca me cobrou diretamente, mas é nesses ambientes de aparente perfeição que a ansiedade e a autocobrança ganham toda a sua força. Que a possibilidade de não atender a padrões ou expectativas imaginárias mais assusta.

Eu tenho pouquíssimas lembranças concretas da minha infância, porque aparentemente os momentos que realmente marcam são os mais traumáticos. Eu lembro, sim, de pequenos atos de bullying praticados especialmente pelo meu pai, mas ele sempre deixou tão claro o quão incondicionalmente ele amava a gente e faria tudo por nós, que, no fim, o resultado é que eu tenho plena certeza de que tive uma infância feliz de verdade. Ou então eu me lembraria mais.

Um episódio do qual eu lembro nitidamente foi a véspera da minha primeira prova “de verdade” na escola e de todo o nervosismo que eu senti. Eu não queria ir de jeito nenhum, parecia que eu ia colocar as minhas tripas para fora pela boca de tanta ansiedade. Eu chorei, eu tremi. Meus pais me prometeram que o resultado da prova não era importante, que eu tinha estudado e era isso que importava, e ainda me prometeram uma presilha de cabelo para cada prova que eu fizesse (leia-se: independente da nota que eu tirasse). Deve ter sido um episódio marcante para eles também, porque para o resto da minha vida acadêmica eles nunca me pressionaram por nenhuma prova, nota ou afim. Como eu não dei motivo, ficou esse acordo tácito bem sucedido para sempre. Quando cheguei no vestibular, fazer prova era tão natural para mim quanto respirar e o nível de ansiedade tendia a zero. Não lembro de ter ganhado nenhuma presilha de cabelo por prova nenhuma, eu só precisava mesmo da garantia.

Resumindo: eu tive (tenho) uma família maravilhosa.

É, então, no mínimo estranho para qualquer pensamento lógico e racional que eu tivesse todo esse desejo intenso de não ter família nenhuma. E parece ingrato reclamar de alguma coisa quando tudo o que eu tive é tudo o que eu desejaria que todas as crianças do mundo pudessem ter.

Mas quando eu lia Harry Potter, ou assistia As namoradas do papai, ou A Princesinha, ou Chiquititas, ou até Matilda (mesmo que ela não fosse oficialmente órfã), o que eu queria era o que eles tinham. Liberdade. A liberdade que eu só conseguia conceber se eu tirasse de equação a família. A liberdade de não ter que pedir permissão para tudo, sim, mas principalmente a liberdade de não sentir que eu precisava ser perfeita o tempo todo.

Ninguém nunca me disse que eu precisava ser perfeita, mas eu sabia. Eu sabia que para continuar pertencendo àquela família eu precisava ser. Pior ainda, eu sabia que a própria continuidade daquela perfeição toda dependia de que eu fosse perfeita também – e ninguém quer ser responsável por quebrar uma coisa perfeita, ser o elo defeituoso da corrente. Eu nunca quis nem me senti apta a ser perfeita, e se esforçar o tempo inteiro é uma das coisas mais exaustivas que se pode ter que fazer na vida. Mesmo quando não te cobra nada mais do que o razoável, mesmo quando se corresponde a todas as expectativas e não se foge ao padrão, a família pode ser um espaço opressivo.

É por isso que, ainda que eu tivesse casa, comida, roupa lavada e contas pagas garantidas enquanto eu bem quisesse, e pudesse guardar todo o meu salário para realizar meus sonhos, eu escolhi sair da casa dos meus pais assim que foi possível. E por mais que eu ainda fale com eles diariamente e que nos vejamos toda semana, essa foi uma das melhores coisas que eu fiz por mim em toda a minha vida. Só desde então eu comecei a descobrir quem eu sou realmente como pessoa, o que eu quero, minhas falhas e minhas qualidades, minhas forças e minhas fraquezas. Só me afastando desse ambiente de perfeição foi que eu me senti livre pela primeira vez para me aceitar como ser humano com autorização de errar e, portanto, de viver. Só aos vinte e três anos de idade eu começo a me situar no mundo.

Esse texto não nasceu com a intenção de chegar até aqui. A ideia inicial era colocar a culpa em algum lugar fora. Mais precisamente, na romantização da família disfuncional na ficção. Foi só quando eu comecei a ordenar as ideias foi que eu percebi que todo o problema que eu queria apontar não estava fora, e sim dentro. O problema nunca foi o imperfeito, e sim o perfeito. E não dá para apontar o dedo na cara de ninguém por ser perfeito.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.

  • Pingback: Revista Pólen (2016 -) – Paloma Engelke()

  • Lauren

    Acho que nunca fui tão representada por um texto. Principalmente porque, ao me descobrir lésbica, fui forçada a enxergar a “imperfeição” que eu não era capaz de aplacar a fim de agradar minha família):