“Atlas de nuvens”, David Mitchell


Texto: Maynnara Jorge

Antes de começar a falar sobre esse livro, preciso dizer que ele não é pra todo mundo. Sério. Esse é um daqueles livros que ou você ama ou você odeia. Ele exige que o seu leitor seja paciente e ao mesmo tempo curioso e por muitas vezes você vai se sentir confuso e frustrado, mas eu afirmo com certeza que vale a pena.

Agora que esclarecemos isso, vamos ao que interessa. Atlas de nuvens é formado por seis histórias contadas em forma de contos que se encaixam e muitas vezes se sobrepõem. No livro você acompanha 6 personagens diferentes, em épocas diferentes e contadas com narrativas diferentes. Até aí parece normal, mas acredite, esse livro foi um dos mais malucos e criativos que eu já li.

Eu não costumo ler muito sobre um livro antes de lê-lo porque eu gosto da surpresa do que me aguarda nas páginas, mas acredite, eu fiquei bastante frustrada inicialmente quando percebi como ele havia dividido as narrativas. Se você, como eu não gosta de saber sobre nada do livro, ignore o resto desse parágrafo. Diferente de outras narrativas não lineares esse livro é dividido da seguinte forma em que a primeira história é a ultima a ser finalizada no livro, mais ou menos desse jeito: história 1A, 2A, 3A, 4A, 5A, 6, 5B, 4B, 3B, 2B e por fim 1B. Por isso, vá preparado para passar o livro inteiro sofrendo porque os Cliff-hangers são de matar.

Em “Diário de viagem ao Pácifico de Adam Edwing” vemos uma história contada com uma narrativa em formato de diário de bordo que se passa em 1850, no estouro da corrida pelo ouro. A narrativa é contada pela visão de Adam que é um escrivão norte americano viajando para resolver questões legais de uma herança na região da Austrália e Nova Zelândia. Em muitos momentos Adam se questiona sobre questões importantes que vão desde as políticas cruéis de convivência ao mar até pontos mais fortes o colonialismo, escravidão e genocídio. Na primeira parte dessa história, eu ainda não tinha me empolgado muito com a história, mas quando cheguei na segunda parte dela eu já estava tão investida na narrativa que eu adiei bastante me despedir dos personagens.

O segundo conto se chama “Cartas de Zedelghem” e é composto, como o próprio nome já diz, por cartas escritas em 1931 por Robert Frobisher ao seu amigo Rufus Sixsmith, um jovem compositor que ao ser deserdado pela sua família, se muda para Bélgica para tentar ser uma espécie de assistente/aprendiz de Vyvyan Ayrs um famoso compositor. Robert é muito passional sobre música e isso fica bem claro não só na sua persistência para conseguir o cargo, mas também em como ele descreve a sua experiência.

Meias-vidas: o primeiro romance policial de Luisa Rey” é uma narrativa contada em forma de manuscrito de um livro e se passa nos anos 1970, onde Luisa Rey, uma jovem jornalista que tem sua vida virada de cabeça pra baixo quando encontra por acaso Rufus Sixsmith, agora com 66 anos. Como bom clichê de romance policial, a narrativa de meias-vidas têm conspiração governamental, assassinatos e muito drama, mas confesso que foi uma das minhas histórias preferidas desse livro.

O Pavoroso Calvário de Timothy Cavendish” é contado em forma de memórias e acompanha comicamente Timothy, um editor que se envolvem em uma série de aventuras malucas que vão desde virar “fugitivo” até ser refém em uma instituição de cuidado para idosos. As memórias de Tim são escritas por ele na esperança de ser transformadas em um filme e acredite, em muitos momentos você vai se perguntar se essa história não saiu de um filme da sessão da tarde, mas é um pouco de alívio cômico no meio das outras narrativas com temas mais pesados.

Uma rogativa de Sonmi~41” se passa em um futuro, na Coréia do século 22. A narrativa é em forma de entrevista, onde um Arquivista e Sonmi~41, a fabricante (um clone humanoide) conta as consequências que levaram a sua prisão. Essa história se passa em um mundo de corprocacia (que eu concluí que era um super capitalismo associado ao poder corporativo). Essa foi definitivamente a minha história preferida, apesar de se tratar de um futuro distópico, é possível perceber as nossas ações atuais que podem nos levar a um futuro tão assustador como esse.

O conto aborda um mundo onde os puro-sangue (que seriam os “verdadeiros” humanos) criam os fabricantes para assumir as funções que são inferiores as suas, como por exemplo funcionários de grandes corporações de fast-food. Os fabricantes são uma versão moderna dos escravos, existindo exclusivamente para servir aos puro-sangues. Como a própria Sonmi explica:

“No princípio existe um estado de ignorância. A ignorância gera medo. O medo gera ódio, e o ódio gera violência. A violência gera mais violência, até que chega um ponto em que a única lei é a vontade dos mais poderosos, seja ela qual for.”

Nesse caso, a vontade dessa geração de terem escravos para servirem a eles e atenderem o seu desejo de consumo.

O vau do Sloosha e o que deu adespois” a única parte contada sem quebra, essa seção acompanha Zachary, que explica sua vida, seus costumes e suas crenças em um mundo após uma queda da civilização. Essa narrativa é contada de uma forma rústica e dá a entender pela fala de Meronym, a “presciente”, que se passa em um futuro onde a caçada louca por avanços na ciência levou ao fim da civilização que conhecemos.

De uma forma geral, esse livro me fez refletir bastante sobre a natureza dos seres humanos. A verdade é que nós somos seres que se corrompem cada vez mais por essa loucura de grandeza e a constate busca por algo mais.

A única coisa que não gostei muito nesse livro, é o fato de que ele aborda assuntos de forma muito aprofundada e em muitos momentos você sente que você não tem base para acompanhar alguns detalhes e isso só é justificado nos agradecimentos, quando ele conta de onde vieram as inspirações para as histórias e oferece algumas leituras para se aprofundar.

Em 2012 foi lançado um filme baseado no livro. Eu assisti logo depois de terminar o livro e gostei bastante, mas eu falei com algumas pessoas que viram sem ter lido o livro e elas comentaram que não entenderam muito o que tava acontecendo. Então acho que esse é um daqueles casos que ler o livro ajuda bastante antes de ver o filme. Ah, uma ressalva para os atores incríveis como Halle Berry e a maravilhosa Doona Bae (a fofissima de sense8).

Confesso que eu também sou muito influenciada por capas e nossa, essa edição é simplesmente maravilhosa, a capa do encarte é linda com várias fotos que casam perfeitamente com as histórias e a capa/contracapa do livro em si também não fica atrás com uma forma de folha de partitura. Sério.

No geral, posso dizer que para quem começou a história sem muitas esperanças, eu me apeguei tanto a esses personagens que mesmo depois de vários dias ainda estou apaixonada por esse livro. Esse é um daqueles livros que você fica triste ao fechar e ter que se despedir dos personagens que você aprendeu a amar.

 

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Sobre Maynnara Jorge

Maynnara é paraibana, mas atualmente mora em São Paulo. Formada em Jornalismo e Produção de Moda. Ama ler, escrever e sente falta dos seus dois cachorros que ficaram na sua cidade. Ela também está no twitter como @maynnara_