Até as raízes – Editorial #36


Arte: Bianca Albino

A primeira vez que me colocaram a questão “se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém por perto para ouvir, ela faz barulho?”, eu não entendi bem qual era a dúvida.

Eu não pensei muito, mas parecia óbvio para mim que o som da árvore atingindo o chão independe de uma testemunha para registrar o ocorrido. A questão para se refletir não era essa.

Essa charada filosófica voltou para mim depois, na primeira vez que me senti verdadeiramente sozinha na minha vida. Estava viajando sozinha, fora do meu país, longe de família e amigos. Peguei um trem no interior da Inglaterra e fui para o sul até chegar na cidade de Brighton.

No meio da noite, com apenas uma mochila nas costas, caminhei pelas ruas daquele lugar desconhecido até meu hostel. Ali, desenraizada, qual era o barulho que faria?

Quem somos além das nossas raízes? Em meio a desconhecidos ou vagando para longe de nossas origens? A pergunta se abria em tantas outras…

A mesma questão volta para mim em um dia que percebi que minha hortelã estava morrendo. Depois de uma semana com chuvas fortes, fui cuidar do jardim e notei que as ervas daninhas se aproveitaram do tempo e cresciam fora de controle. Comecei tentando salvar a pobre hortelã, estrangulada pelo mato, e continuei pelos canteiros, vasos e pela grama até minhas pernas tremerem e as costas doerem.

Não sei quanto tempo fiquei em silêncio naquela manhã, me esforçando para tirar toda a raiz daquele mal. Pensando apenas naquela tarefa e deixando todos os outros pensamentos e tarefas vagarem para longe.

Aquele lugar me pertencia e eu pertencia a ele. Eu estava lá, sendo a testemunha, e o silêncio era absoluto.

Independente de onde resolva cair, quão longe ou sozinha, a responsabilidade pelo barulho que crio está em minhas mãos. Estamos sempre sozinhos no mundo, enraizados ou não, mas estamos aqui.

*

Um passarinho me contou que Milena vagou, vagou e fez barulhos magníficos por onde passou.  Será que ela já está pronta para voltar?

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Sobre Luisa Granato

Luísa é jornalista e eterna potterhead. Sua casa é a grifinória, mas ela lê como uma corvinal e podia ser a Luna Lovegood. Viajante (inclusive do espaço e do tempo), ela ama ficção científica e histórias fantásticas.