Assexualidade: Um Manual para Não Ser Babaca


A assexualidade vem sendo muito discutida nos últimos tempos, principalmente com a Semana da Visibilidade Assexual (que foi do dia 19 ao dia 25 de Outubro). Essa orientação sexual tem a definição em uma pessoa que não sente atração sexual. De certa forma, então, assexuais são aqueles que “não tem” uma orientação sexual. E quando eu digo que a orientação foi muito discutida nos últimos tempos, eu falo sério. Nós saímos na Galileu, no El País, na Época, na Revista Fórum e ainda n’O Globo. Eu não vou fazer um juízo sobre a qualidade das matérias, mas só de ter a assexualidade citadas nesses veículos e em vários outros é incrível.

Essa introdução toda foi para trazer o tema que eu decidi falar sobre no texto. Durante a semana da visibilidade eu escrevi dois textos sobre a assexualidade: um no ConversaCult e o outro no Sobre O Cinza. Os dois textos falam basicamente da minha experiência com a orientação sexual, com me identificar e como eu lido com a frustração de viver em um mundo sexual sendo assexual. Para tentar trazer uma coisa diferente, nesse mês de perspectiva, eu decidi pegar um papo mais light sobre as coisas que as pessoas falam sobre assexuais e a assexualidade que eu já ouvi tantas vezes que decorei o discurso.

É complicado, sabe? Ser de uma orientação sexual invisibilizada até dentro do movimento LGBT (que é mais para movimento GGGG) é muito complicado. Nós não temos só que nos explicar e, muitas vezes, nos defender dos lgbtfóbicos, como também muitas vezes precisamos nos explicar e também nos defender da própria ignorância da comunidade, das pessoas que deveriam nos acolher e estão nos excluindo cada vez mais. Então aí vem o guia passivo-agressivo de como não ser um babaca ao falar com um assexual.

“Ai, gente, pobrezinha de você. Uma coisa tão boa quanto sexo deve fazer falta, né?”

SENTA AÍ, TIFFANY!

Então, é muito importante começar explicando que a assexualidade é uma orientação sexual tão válida quanto qualquer outro. Pessoas heterossexuais não são questionadas sobre porquê não faz muita falta para elas transarem com pessoas do mesmo gênero. Pessoas homossexuais não ouvem por aí que eles devem ter muitas saudades de transarem com alguém do gênero pelo qual eles não são atraídos (apesar de ouvirem bastante que sua sexualidade é “falta de rola”, o que é tão grosseiro quanto). Ninguém fica ouvindo esse tipo de coisa quando se identifica com outra orientação sexual, então por que assexuais tem que ficar ouvindo? Por que, então, quando se trata de assexuais nós somos tratados desse jeito?

Isso aí, essa ideia de que todo mundo no universo vai sentir muita falta de sexo ao não ter sexo como algo presente na sua vida é parte de uma normativação da esfera sexual. Que é basicamente você imaginar que como você é um ser sexual (ou allosexual, no caso de não ser uma pessoa assexual), então todas as pessoas do mundo também são. Como nós vivemos em uma ótica de sociedade sexual – onde as pessoas “normalmente” são sexuais, onde a mídia diz que sexo é fundamental para a felicidade, etc – então todos devem fazer parte dessa sociedade.

Só que para uma pessoa assexual, a perspectiva é diferente. Enquanto existem assexuais que são bastante sexualizados e não se incomodam de viver nessa sociedade sexual, existem outros que não querem estar nessa sociedade sexualizada e querem lutar por um espaço onde eles vão ser mais aceitos. Isso envolve as pessoas pararem de achar que querer/gostar de fazer sexo é MANDATÓRIO quando NÃO, NÃO É.

“Essa deveria ser a imagem que todas as crianças teriam do mundo…”

QUERENDO ⋆ MORTA

Essa comparação, além de ridícula, é uma questão de infantilização. Como as pessoas não conseguem aceitar a ideia de alguém que não é sexualizado ou que não tem uma vida sexual ou que não tem interesse em ter uma, então as pessoas tratam assexuais como se tratam crianças – que são o mais próximo da “pessoa comum” de alguém não sexualizado. Só que assexuais são pessoas plenas de consciência e devem ser levadas a sério. Ninguém deve ser infantilizado pelas suas escolhas ou pelo que elas são!

Assexuais são assexuais não por serem “puros” ou “castos” ou “boas influências”, eles só SÃO assexuais. Ser assexual não quer dizer que você 1) é ingênuo, 2) não sabe sobre sexo, 3) não faz sexo, 4) não fala horrores de palavrão, 5) não é uma pessoa horrível. Ser assexual não quer dizer nada além de que você é uma pessoa que não sente atração sexual. Por que isso te faz uma boa influência para as crianças do mundo? Por que isso te faz alguém que os outros deveriam se espelhar? Só… Não seja essa pessoa.

“Um monte de frígida, só pode ser!”

Observe como eu não ligo para a sua acefobia, observe…

Aaaaah, o belo argumento de que mulheres que estão fora do padrão normal são frígidas porque elas não fazem sexo regularmente. Falam isso sobre feministas, sobre mulheres com opiniões fortes, sobre qualquer coisa que mulheres fazem que não agrade toda a população do gênero masculino em geral. Só que isso é uma coisa bem comum de ser dita sobre mulheres assexuais: de que elas só são assexuais por serem frígidas ou por não conseguirem alguém para transar.

Só que isso é errado em tantos níveis. Isso leva em consideração de que a assexualidade é algo comportamental, uma característica, e não uma orientação sexual, pois seria algo que uma pessoa frígida teria e outra não. Isso também leva em consideração de que, para uma mulher, não fazer sexo é algo que causa um transtorno, que cria um problema de personalidade para uma mulher. É uma conexão ridícula e incorreta. Até porquê há uma diferença muito grande entre alguém ser caloroso ou frio e uma pessoa que tem uma vida sexual ativa. Se você não sabe disso ainda, então imagino que não saiba muito sobre o mundo ou sobre pessoas em geral.

“Você pode não fazer sexo, mas por que tem que ficar obrigando as pessoas normais a isso?”

Querid@, estou cansada demais para bater em você

E quem disse que os assexuais querem impedir você de foder, amigo? Quando me respondem isso eu só fico ocupada demais me perguntando como essa pessoa tirou isso da cabeça dela. Já aconteceu mais de uma vez. Eu estava falando sobre assexualidade, respondendo comentários em portais, coisas assim… Aí estava tentando explicar como a assexualidade funciona para assexuais e alguém vira e questiona “Mas ninguém pode transar mais? Que saco!”. Tudo o que eu fico pensando é ???????????????????. Minha resposta geralmente é algo entre falar “Amigo, se você não se meter na minha vida sexual, eu não vou me meter na sua.” ou colar o meme do Caetano Veloso.

“Mas não seria melhor deixar isso para lá para poder conviver em um relacionamento normal?”

ODEIO ESSA PERGUNTA, SOS

E quem disse que uma pessoa assexual não pode ter um relacionamento normal, por favor? Quem disse que por ser assexual uma pessoa não pode ter um relacionamento com alguém allosexual e, inclusive, fazer sexo? O que raios é um relacionamento NORMAL? (Hoje, no Globo Repórter…)

Assexuais podem não sentir atração sexual, mas isso não quer dizer que eles não podem amar ou gostar de outras pessoas. Há diversas outras atrações que fazem essas conexões interpessoais, inclusive a atração romântica, que é a mais popular. Do mesmo jeito como a atração sexual rege por quem você vai ser sexualmente atraído, a atração romântica rege por quem você vai ser romanticamente atraído. Ou seja, por quem você vai se apaixonar. Eu, no caso, sou assexual heteromântica. Ou seja, sou uma pessoa assexual que gosta de pessoas do gênero “oposto” ao meu.

Isso, da atração romântica, não vale só para assexuais, mas para toda pessoa, principalmente para as sexualidades que não são monosexuais (bi, pan, etc). Uma pessoa homossexual pode ser biromântica, por exemplo. Uma pessoa bissexual pode ser homoromântica. Uma pessoa heterossexual pode ser panromântica. Isso só quer dizer que essas pessoas podem se apaixonar por pessoas diferentes da sua orientação sexual, mas não delimita que a sua orientação sexual mudou, mas que você tem uma atração romântica diferente. Isso, por exemplo, faz com que uma pessoa assexual possa estar em um relacionamento homossexual de boas, porque ela pode ser atraída romanticamente por pessoas do mesmo gênero que ela e se apaixonar! E, imagina que louco!, a outra pessoa pode se apaixonar também e ai eles vão conversar sobre as suas diferenças e decidir qual é a melhor função de relacionamento para esse casal.

“Ué, mas você faz sexo? Então pra que ficar falando que é assexual?”

Ok, isso até é uma dúvida comum, mas como eu já respondi trocentas vezes para trocentas pessoas diferentes, então acabei ficando meio sem saco dela. Assexuais não sentem atração sexual. É isso. Isso não quer dizer que assexuais não fazem sexo, isso não quer dizer que assexuais não sentem libido ou desejo de transar. Eles podem não querer, obviamente. Eles podem não se sentirem confortáveis com sexo, assim como pessoas allosexuais também podem não gostar.

A questão é que, como eu já falei, existem vários tipos de atrações diferentes e esses tipos de atrações também influenciam no desejo sexual. Atração sexual é uma dessas atrações, assim como a atração romântica (que eu já citei), atração sensual, atração estética e ainda outras. São vários componentes que fazem com que a interação entre uma pessoa e o mundo seja mais composta e compreensível. Eu, apesar de ser assexual, sinto atração romântica, sensual, estética e ainda as outras. Somente atração sexual que não é algo que eu me relacione com.

Só que a questão de transar ou não é uma escolha minha. Se eu quiser transar, eu vou transar. Se eu não quiser transar, eu não vou transar. Se eu escolher transar, isso não me faz menos assexual, só me faz uma assexual que gosta de transar. Simples assim.

Ah, então ao menos você se apaixona. Logo você encontra alguém e vai dar tudo certo.

Como se se apaixonar fosse, também, uma coisa fenomenal que todo mundo faz, né? Não tem essa de “consolo” ou de “ao menos você faz isso” aqui no rolê da assexualidade não, amigos. Isso porquê do mesmo jeito que as pessoas tem uma atração romântica, elas também podem não ter uma atração romântica. Vários assexuais se identificam como arromânticos, que são pessoas que não sentem atração romântica por ninguém. Esse grupo é tão importante quanto qualquer outro e eles merecem não só reconhecimento como também merecem respeito. Quando você normatiza a atração romântica, você tira a capacidade do arromântico de se ver como parte da sociedade.

Então, basicamente, não normatizem nada. Normatizar as coisas é uma grande bosta e ninguém deveria fazer isso.

“Ai, querida, não precisa se preocupar com essas bobagens! Você ainda vai achar a pessoa certa.

Vontade de fazer isso toda vez que falam isso para um assexual

Achar a pessoa certa vai mudar quem eu sou? Então achar “a pessoa certa” não vai mudar minha assexualidade. Desencana desse seu preconceito e seja uma pessoa melhor.

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priscillabinato@gmail.com'

Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.

  • <3 <3 <3 <3 <3

  • Daniel de Paula

    Achei incrível seu texto, bastante esclarecedor na realidade, sempre me preocupei em como devo me relacionar com as pessoas pois é muito difícil tratar com alguém sendo que minha maior fonte de comparação sou eu. Até certo ponto da minha vida (e acredito que outras pessoas também ) eu acreditei que eu poderia ser empático em todos os sentidos com as pessoas, porém sempre algo saía errado, depois que descobri que existem grandes diferenças que unidas formam um indivíduo que eu entendi que não bastava querer compreender as pessoas, eu tinha que aprender com elas. Obrigado por essa oportunidade.