As vidas que (não) vivi


Cada um de nós só tem uma vida. Temos um tempo limitado pra passar por experiências, por aprendizados, por vivências. É impossível pra cada um de nós viver todas as infinitas possibilidades da vida – não só porque não temos tempo o suficiente pra isso, como também porque cada um de nós leva uma vida diferente. A minha vida e a sua são completamente diferentes. É isso que torna cada uma tão especial.

E talvez seja por isso que inventaram os livros. Sabe, uma das coisas que eu mais gosto sobre escrever e ler histórias é que elas me permitem experimentar um mundo novo, e toda uma gama de acontecimentos que fogem (ou não) totalmente do meu plano de realidade. Através das histórias que eu li e criei, me tornei outras pessoas por um espaço limitado. E sabe aquela coisa de se pôr no lugar da pessoa? É isso que um bom livro proporciona.

Através das minhas leituras e criações, eu vivi em guerras. Eu tomei decisões impossíveis e defini destinos. Eu perdi pessoas. Eu ganhei pessoas. Eu sofri preconceitos ou dei voz a eles. Eu experimentei sabores e ouvi músicas, eu saí da São Paulo do século 21 e fui parar em tantas décadas e costumes e lugares diferentes. Às vezes, olho pra trás, pra essas vidas e vidas de acontecimentos fictícios, e ainda assim tão verdadeiros, e percebo que eles me mudaram e me marcaram tanto quanto as coisas que eu mesma vivi.

É impressionante o quanto o nosso ponto de vista pode mudar sobre uma coisa só lendo sobre ela. Eu achava que feminismo era uma balela até ler sobre ele. Eu não achava que outras pessoas podiam sentir-se da mesma forma como eu me sinto sobre o meu corpo até ler livros e relatos sobre transtornos alimentares. Eu comecei a entender melhor a posição de quem sofre o preconceito lendo histórias sobre o assunto. Não é uma questão de se informar. Notícias são impessoais – livros são pedaços da alma de quem escreve e dos personagens ali dentro. É colocar-se no lugar do outro, enxergar pelos mesmos olhos, assumir uma perspectiva nova que te abre pra um mundo que você nunca conseguiu ver.

Todos os dias agradeço por essas vidas que não vivi. Agradeço pelas histórias que cruzaram o meu caminho, direta ou indiretamente. Elas me moldaram no que sou hoje. E ainda há tantas por vir…

Compartilhe: