As personagens femininas mais inspiradoras nos clássicos


Quem tem costume de ler livros considerados clássicos (aqui, leia-se: o cânone literário ocidental) já deve ter reparado que a maior parte dessas histórias foi escrita por homens e fala sobre homens. Mas nem sempre é o caso: se você procurar, de vez em quando encontra boas histórias que falam sobre mulheres. Mulheres boazinhas e mulheres maldosas, mulheres que sonham em casar e mulheres que sonham em ser livres, mulheres que querem viver uma vida de riqueza sem precisar trabalhar e mulheres que querem estudar, mulheres tímidas e mulheres que falam o que pensam. Enfim, uma gama de personagens femininas complexas e diferentes entre si.

Se muitas dessas personagens surgiram da pena das autoras que também são mulheres – como as famosas e amplamente adoradas Jane Austen e Emily e Charlotte Brontë, nem sempre é o caso. Só que nesse mês, aqui na Pólen, estamos falando somente sobre autoras, o que levantou uma dúvida: teríamos personagens suficientes para compor uma lista? A resposta é que, sim, tivemos, mas nossas autoras favoritas muitas vezes se repetem – voltando ao começo, a maior parte dos clássicos foi escrita por, olha só, autores homens. Ainda assim, conseguimos montar uma listinha cheia de personagens incríveis, com todos os tipos de história e personalidade, que de alguma maneira nos inspiraram. Aqui nós explicamos por que essas são as personagens que amamos.

CATHY EARNSHAW, O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë), por Anna Lívia:

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Heroínas nunca erram. Heroínas podem falhar, mas a falha dela é por uma causa nobre. Pra mim, no entanto, personagem boa é personagem complexa, e é exatamente isso que Cathy Earnshaw representa. Cathy é uma mulher múltipla e paradoxal, como qualquer ser humano. Ao mesmo tempo em que ela é sensível e amável, ela também tem acessos de fúria e um temperamento instável. Um amor que a redime, mas que ela decide deixar para trás por questões financeiras. Nunca tem certeza de suas decisões e está sempre fazendo (no nosso ponto de vista de leitor agoniado) a coisa errada. Apesar de suas falhas-trágicas que acabam trazendo sua própria queda e a decaída de vários ao seu redor, você não consegue deixar de torcer por ela, de esperar o melhor, até o último segundo.

EMMA WOODHOUSE, Emma (Jane Austen), por Anna Lívia:

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Seguindo a linha de personagens complexas, temos Emma, aquela personagem que todos nós adorariamos odiar, mas não podemos, porque quem nunca foi Emma na vida? Cercada de amor e privilégios, Emma é meio metida, intrometida e se vê no direito de gerenciar a vida de todo mundo “porque ela sabe o que é melhor”. Tudo isso, porém, parte de seu enorme coração e da mais pura vontade de fazer o bem. Quem nunca tentou, com a melhor das intenções, dar aquela controlada na vida da amiga pra tentar “melhorar sua situação”, não é mesmo? Emma aprende com seus erros e nós aprendemos com ela a não termos vergonha daquilo que nos faz humanos: falhar. Cada erro é uma lição e cada lição faz de nós pessoas melhores.

JO E BETH MARCH, Little Women (Louisa May Alcott), por Lorena:

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O que eu acho fascinante sobre Little Women é que as personagens são extremamente diversificadas. Por ser um livro sobre relacionamentos familiares, as diferenças entre as irmãs são especialmente interessantes. Mas das quatro garotas March, foram duas que me conquistaram.

Jo foi uma das primeiras meninas da ficção com quem eu me identifiquei e não foi à toa: ela tem um temperamento forte (que a família tenta em vão diminuir), se recusa a esconder sua personalidade. Ela tem um enorme amor por ler, escrever e conviver com suas irmãs.

Beth tem um temperamento bem diferente e, de certa forma, meu apreço pro ela vem exatamente disso. Ela é quieta e tímida, características com que eu consigo me identificar bastante. Um dos traços mais marcantes da Beth é que ela vê o melhor nas pessoas e faz o possível para garantir a paz em casa.

De certa forma, elas são até que bem diferentes e poderiam ser antagônicas. Mas ambas as irmãs também buscam rotina, conforto e amor, sendo bem próximas no livro e deixando uma sensação similar no leitor. Elas são singulares em seu próprio jeito e complementares em suas personalidades. Relacionamentos entre irmãs na ficção sempre me deixam feliz e esse em particular é um dos meus favoritos.

CATHERINE MORLAND, Northanger Abbey (Jane Austen), por Anna Vitória:

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Catherine Morland foi a primeira heroína de Jane Austen. Com um jeito meio tomboy de ser, Catherine gostava de brincadeiras de meninos, de sujar a barra das saias e coisas pouco apropriadas para uma garota. Quando cresceu um pouco, Catherine virou leitora assídua de romances góticos de mistério, muito populares na época. Apesar de ler muito sobre fantasmas e almas aprisionadas em pinturas, Catherine é uma garota muito ingênua e passa o livro todo confundindo focinho de porco com tomada e fazendo um maravilhoso trabalho em se confundir sobre as pessoas ao seu redor. Apesar da narrativa irônica, Jane Austen critica de verdade a estrutura que forçava as garotas a serem meio burras, pois homens, afinal, tem medo de mulheres inteligentes. Catherine é imperfeita, confusa e foge de tudo que se espera dela, mas isso não a torna menos digna de ser heroína da sua própria história e desse romance.

ELLEN OLENSKA, A Época da Inocência (Edith Wharton), por Fernanda:

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A chegada da condessa Ellen Olenska a Nova York, de volta da Europa sem seu marido, Conde Olesnki, causa furor na alta sociedade nova iorquina, que adora uma boa fofoca e prontamente se põe a julgá-la. O que me inspira em Ellen é que ela não permite que as regras da moral e dos bons costumes da sociedade impeçam que ela tome as rédeas da própria vida infeliz e decida se separar daquilo que faz mal a ela. Sua conturbada relação com as convenções sociais arbitrárias que recaem sobre ela aparece tanto nas suas atitudes em relação ao próprio casamento quanto nas companhias que decide ter em sua casa – por serem pessoas mais interessantes, ou porque ela se compadece de outras “párias sociais” – ou em suas escolhas de vestuário para ir à ópera, por exemplo (coisa que o narrador de Wharton não deixa passar, ainda que ela esteja usando um vestido como qualquer outra mulher no teatro). Ellen Olenska só aceita abrir mão da própria felicidade e de suas escolhas em prol daqueles que ama, e seu altruísmo incomum também é admirável, ainda mais em uma sociedade tão egoísta e, muitas vezes, mesquinha.

ELIZABETH BENNET, Orgulho e Preconceito (Jane Austen), por Analu:

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Elizabeth Bennet pode ser clichê, mas é minha personagem clássica super favorita. Não que eu tenha lido muitos – essa parte da minha literatura ainda está capenga. Enfim. Lizzie, pra mim, é a heroína romântica que deu origem a todas as outras que foram e ainda virão a ser escritas. A frente de seu tempo, feminista mesmo na época em que vivia que recusou-se a ser só mais uma noiva em uma linha de produção de esposas mas não teve medo de se entregar ao seu amor quando o percebeu batendo forte no peito. Essa mulher vai estar sempre na minha lista de inspiração para a vida.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.