As mulheres de Kiera Cass


Texto: Isabel Moraes

 

AVISO DE SPOILER: se você não quer saber nada que acontece na saga, ignore esse texto.. A gente se vê quando você terminar 🙂

Fui dessas leitoras que encarou a trilogia transformada em série A seleção com alguma desconfiança. A ideia de um reality show de princesas em um universo distópico me parecia simplesmente demais – não no sentido positivo de algo fantástico e inovador, e sim de elementos aleatórios colocados juntos. Teria Kiera Cass embarcado no sucesso extremo do gênero nos últimos anos, colocando princesas e sistemas de castas no meio em busca de alguma originalidade? Eu não sabia, mas atraída pelas capas (que ficariam bonitas de qualquer maneira na minha estante – sim, sou uma grande juíza de exteriores) acabei embarcando na trilogia inicial.

Felizmente, eu estava errada: me apaixonei pelos primeiros três livros da série, que bem construídos e escritos, contavam a história de America Singer, a rainha selecionada em um reality show de uma versão distópica da América do Norte, Ilea, e seu rei Maxon. Histórias de amor de forma geral não me apetecem – sou de opinião que, o amor romântico (embora importante na vida da maior parte das pessoas – é ultra valorizado na literatura, sobretudo na jovem-adulta. De qualquer maneira, a trilogia inicial foi sobre mais do que os apaixonamentos e desapaixonamentos de America – Ilea foi um universo distópico bem apresentado e construído, e os conflitos entre os personagens escritos de maneira fabulosa.

No quarto livro da série, A herdeira, temos uma perspectiva completamente diferente: o país passa por uma nova era, com o sistema de castas extinto e Eadlyn, filha de Maxon e America, como sucessora ao trono. Há só um problema: a garota é extremamente impopular, vista pela já descontente população como mimada, arrogante e prepotente.

A seleção havia sido abolida junto com as castas, mas Maxon e seus conselheiros vêem em um novo reality uma oportunidade de aumentar a popularidade de Eadlyn. Contra a sua vontade, começa-se em A herdeira a seleção em busca de um novo rei para Ilea, história que se desenrola com muitas complicações no quinto e último livro da série: America está no hospital após um ataque do coração; Ahren, irmão de Eadlyn, fugiu para a França para se casar e as tensões com os rebeldes anti-monarquia se agravam. Eadlyn é obrigada a assumir temporariamente o trono – e tudo isso enquanto sorri bela para as câmeras.

A escrita agradável e instigante de Kiera Cass continuou sendo a mesma em A coroa, tornando a leitura rápida e agradável, e ao contrário de outros leitores gostei do rumo dado a seleção do príncipe de Eaedlyn. Há só um problema: a feminista dentro de mim se decepcionou – e muito – com o desenvolvimento dado pela autora aos personagens. Apesar dos óbvios defeitos da protagonista, boa parte do desgosto da opinião pública a respeito de Eadlyn no universo do livro me pareceu pelas suas fugas do comportamento considerado aceitável para mulheres – em outras palavras, machismo. É uma pena que uma autora que escreveu personagens femininas tão fantásticas tenha caído neste erro – e embora A seleção ainda esteja na minha estante, não foi alvo de uma boa despedida.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.