As mulheres, a arte e a invisibilidade


Texto: Gabriela Oliveira

Quando Evelyn Queiróz contorna traços desconexos e preenche as cores que dão vida aos corpos de suas personagens, joga luz às mulheres reais e a percepção que elas têm sobre o seu reflexo no espelho. A criadora da personagem Negahamburguer, uma artista plástica e desenhista de mulheres reais, tenta suprir o vazio da falta de representatividade. Na sua página do Facebook, mulheres gordas, idosas, negras, indígenas, de cabelos crespos, tatuadas, com estrias e celulite são retratadas com a naturalidade que falta às que estampam capas de revista e comerciais de tevê.

 

O trabalho da Negahamburguer quer chegar onde o feminismo, muitas vezes, não chega. Por meio de um lambe-lambe ou um grafite chapado em um muro, as frases ao lado de uma personagem provocam quem está de passagem. “Estou de dieta, não engulo o preconceito.” O trabalho de Panmela Castro, que está concentrado principalmente no grafite, também tem a intenção de chamar a atenção para questões de gênero e feminismo. Em sua página do Instagram, uma maçã que representa uma vagina dentada traz a mensagem “Livre”, que acabou sendo vendida em um evento para reverter dinheiro em projetos em prol do fim da violência contra a mulher. Panmela fundou a NAMI, rede feminista que utiliza arte urbana para incentivar o fomento aos direitos das mulheres e combater as violências contra a mulher.

 

Como não é de se espantar, ser mulher é enfrentar situações opressoras em diversos espaços – inclusive nos ambientes de trabalho. Aqui, Panmela denuncia um boicote que sofreu por ser uma mulher que incomoda muita gente ao conquistar espaço com seu trabalho consolidado: “Esta é uma história de muitos outros acontecimentos do dia a dia no convívio com a minha Crew de graffiti, onde sou humilhada e violentada sem ter o direito de contestar sem ser chacoteada. Talvez por isso possa ter me tornado uma pessoa que incomoda. Talvez por não aceitar esta minha posição como se espera que uma mulher aceite – sendo cúmplice de seu escravizador, sendo dócil, magra e meiga – não seja aceita nos seus grupos de WhatsApp, nem nas pinturas coletivas e muito menos nas festas”.

 

A educadora brasileira Ana Mae Barbosa, que estuda arte e gênero, traz uma reflexão importante: a de que não é possível conhecer um país sem compreender sua arte. Ao se debruçar sobre as questões de gênero, ela explica que as mulheres artistas foram apagadas da História da Arte brasileira do século XIX. Só a partir do partir do Modernismo elas passaram a ter alguma visibilidade, principalmente com o destaque da Tarsila do Amaral e da Anita Malfatti (que foi duramente criticada pela liberdade em sua representação de sexualidade, rompendo com o que a sociedade esperava das mulheres: paisagens sem graça e temas religiosos, segundo Ana Mae). Ao visitar a exposição no ano 2000 sobre os 500 anos da colonização do Brasil pelos portugueses, a educadora percebeu que não havia uma representação feminina no século passado. “Não havia nenhuma mulher entre os quase duzentos artistas apresentados apesar de que muitas foram bem sucedidas em vida, ganhando prêmios até na Europa. A grande produção das mulheres nas artes visuais hoje no Brasil tem paulatinamente incorporado as conquistas feministas, mas o medo de ser considerada feminista ainda ronda as mulheres artistas”, afirma.

 

Além da falta de visibilidade à memória de mulheres produtoras de arte, Ana Mae chama a atenção para as artistas que têm visibilidade considerável e se recusam veementemente a reconhecer questões de gênero. Em 1989, as artistas Josely Carvalho e Sabra Moore organizaram uma exposição chamada Conexus: ‘Artistas Mulheres, Brasileiras e Norte-Americanas, em Diálogo’. Foi difícil ter a participação de outras artistas mulheres, pois as convidadas argumentavam que “não queriam ser vistas separadamente”. “Não quero vínculos com exposições só de mulheres, sou tão importante quanto um homem”. “Para expor, não preciso apelar para gênero; esse é o caminho das artistas sem qualidade.”

 

No livro A Palavra Está com Elas, organizado por Lilian Maus a partir das entrevistas feitas por Isabel Waquil, foram reunidas dez conversas com mulheres em diversos âmbitos artísticos no país, com o intuito de fomentar a discussão sobre o lugar ocupado pela mulher e o feminismo na arte contemporânea. Vale ressaltar que, em 2011, o artigo Mulheres ainda são minoria na arte?, constatou que diminuíram tanto a quantidade de mulheres nas seções de arte moderna e contemporânea (de 5% para 4%), quanto a de nus femininos (de 85% para 76%). Cristiana Tejo, co-fundadora do espaço Fonte e uma das entrevistadas na obra, conta sua experiência no campo da curadoria e produção artística: “A questão é que a seleção acontece muito lá para trás, de uma forma que venhamos a pensar que não haja desigualdade entre homens e mulheres. Isso tem a ver com falta de oportunidade lá atrás: quando eu olho para as minhas colegas, eu vejo pessoas que foram desacreditadas que poderiam fazer alguma coisa no mundo da arte lá atrás. Elas eram tuteladas ou levadas a outros campos profissionais por questão de sobrevivência”.

Compartilhe: