As lendas sobre nós mesmos


(ou: como eu inventei e reinventei um Paulo)

Esse texto parte da dificuldade de me encontrar dentro do tema do mês, as lendas. Não que eu estivesse distante dessas histórias contadas e recontadas, eu só não as enxergava – porque, na verdade, eu estava dentro de uma. Se num momento eu tinha total certeza de que histórias mitológicas antigas ou contos populares faziam parte apenas da seção “conhecimentos gerais” da minha vida, depois de muito martelar o assunto, eu me toquei de como a pessoa que eu mostrava para o mundo não passava de um saci pererê ou uma loira do banheiro de mim mesmo.

Isso tudo pode parecer meio louco, mas dá uma olhada no espelho. Não um espelho de verdade, porque esse pode não dar uma resposta muito confiável (e vamos deixar o espelho da madrasta da Branca de Neve fora disso). Mas pensa na imagem que você mostra para o mundo e se questione sobre o que você diz quando tem que falar sobre você mesmo. O que você apresenta primeiro? As coisas mais básicas, tipo nome e idade, o que você gosta, seus (de)feitos? Independente do que seja, essa pessoa é realmente você? Ou apenas um personagem criado para esconder o que está guardado aí dentro?

Eu, pelo menos, escondia muito de mim. O figurino do rapaz inteligente que gosta de ler e escrever me servia bem. Só que não passa disso: um figurino. Feito sob medida, e que, de certa forma, combina comigo, é claro, mas ainda assim uma roupa capaz de invisibilizar outras características minhas.

A pergunta a ser feita é: por que se esconder atrás de um personagem? Nós temos tantas faces e talento para ser coisas tão distintas ao mesmo tempo. Encarnar um único personagem e se esconder dentro dele é muito limitador. Você não é só isso ou aquilo, você é uma bagunça. Eu também sou. Todos somos, na verdade. E isso não é nem um pouco ruim. A ânsia de ser aceito pelas pessoas justifica o desejo de parecermos sempre os melhores. Porém, isso só serve para esboçar uma caricatura repetida tantas vezes que você passa a não ver mais como ela é deformada.

As máscaras que usamos, aliás, nem sempre são boas. Perdi as contas de quantas vezes eu repeti coisas negativas sobre mim e acabei incorporando esse estigma. “Ah, eu sou feio demais e não sei fazer tal coisa, etc. etc. etc.” E o pior é que as pessoas podem acabar te vendo dessa forma também, porque você é o texto que os outros leem; e quando falo de texto, aqui, me refiro a tudo que é verbalizado ou demonstrado por gestos ou atitudes.

O primeiro passo para desconstruir uma lenda é olhar pra você e pra sua história e tentar distinguir o que é ou não é verídico. Às vezes, a diferença entre fato e lenda pode ser um pequeno detalhe e é muito fácil se confundir, mas quando se tem consciência sobre o que você é e quem quer ser tudo parece mais simples. Escrever, para mim, foi uma ferramente fundamental.

Seria hipócrita eu dizer que o personagem de mim mesmo tenha desaparecido completamente. Há momentos em que repetir uma história é necessário, confesso, porém, mais do que isso: encontrar a pessoa dentro do personagem – encontrar-se – é um processo gradual. Não sei se vou chegar lá algum dia, nem se alguém já chegou. Enquanto isso, vou quebrando minhas lendas.

Termino da mesma forma que uma música do Rubel de que gosto muito:

“Ela então cansada se desmascarou e sorriu. E dizem que, sorrindo, ela entendeu que a vida só se dá pra quem se deu.”

 

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Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e... o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana