As ilusões de Amy e Nina Simone ou Como um relacionamento abusivo pode acabar com um artista


Texto: Bruna Kalil

Dezembro, janeiro, fevereiro. No Brasil, verão, férias, carnaval. No mundo todo, a award season (temporada das premiações, em uma tradução rápida). Isso significa muitas opções de filmes aclamados pela crítica em cartaz nos cinemas, configurando um período muito amado pelos cinéfilos de todos os lugares. Eu, como cinéfila que sou, procuro ver a maioria dos indicados aos prêmios – desde o SAG ao Oscar. E, esse ano, resolvi levar esse desejo ao extremo, assistindo também aos documentários.

Por coincidência, há duas produções indicadas, simultaneamente, ao Oscar de melhor documentário e ao Grammy de melhor filme musical: “Amy”, sobre a vida da cantora Amy Winehouse; e “What Happened, Miss Simone?”, um original Netflix que aborda a trajetória da cantora e ativista do movimento negro Nina Simone. Já vi as duas, e creio ser de imensa importância histórica ter duas mulheres protagonistas de filmes bem vistos pela crítica e possíveis vencedores de prêmios significantes.

Após refletir um pouco sobre a vida dessas artistas, percebi que havia um fio ligando as duas. Ambas mulheres, ambas cantoras, ambas escritoras de suas próprias letras e compositoras de suas melodias. E, infelizmente, como inúmeras outras moças pelo mundo, ambas vítimas de relacionamentos abusivos. Tanto Nina quanto Amy viraram personagens na mídia por serem mulheres rebeldes, complicadas, com problemas e vícios. A nossa sociedade glamouriza e exalta artistas com esse perfil, tratando-os como gênios incompreendidos, e fazendo o possível para descobrir e revirar toda a sua vida pessoal. A própria escolha das duas como personagens de obras cinematográficas é a prova disso – os produtores sabem que isso vende.

Porém, a mídia não se importa muito com as causas dos transtornos mentais e físicos sofridos por essas personalidades. Como se pode conferir nesses longas, as duas cantoras sofreram com parceiros violentos, que iam de agressões psicológicas a físicas. Nina, em certo ponto, conseguiu escapar: viveu por muitos anos, e, depois de algum tempo de hiato criativo, voltou aos palcos, já mais velha.

Amy, porém, não teve a mesma “sorte”. Assumidamente apaixonada por Blake Fielder – ela inclusive tinha uma tatuagem escrito “Blake’s” (em tradução rápida, ‘pertencente ao Blake’) acima dos seios –, a britânica viveu uma relação doentia de quase uma década com o rapaz. Eles se conheceram antes da sua fama, e, pouco tempo depois, se separaram. Destruída pela ausência dele, Amy escreveu o seu álbum mais conceituado, “Back to Black”, e alcançou o prestígio mundial. Logo após aparecer na mídia, reatou o relacionamento com Blake. O problema, aqui, é que ela tinha a ilusão de que estava tudo bem, de que o amor era assim mesmo, de que ela o amava e devia aceitar tudo que viesse dele. Assim, não demorou muito para que ele a apresentasse drogas mais pesadas (nessa época, ela já bebia e usava maconha), como crack e cocaína. Pressionada pela constante presença da imprensa, fotógrafos e jornalistas, Amy buscou uma espécie de escape nessas substâncias, se viciando junto com o namorado.

Para quem estava de fora, era claro que o relacionamento era abusivo: Amy não desgrudava de Blake, fazia tudo que ele pedia, imitava seus gestos, se moldava aos gostos dele. Isso, lentamente, foi matando seu potencial criativo. A cantora, sufocada pelo controle e pela influência de Blake, foi constantemente adiando a produção do próximo álbum. Nesse caso específico, podemos comprovar a destruição gradual da arte de Winehouse se levarmos em conta que a sua obra-prima foi feita durante a separação dos dois.

O fim dessa história todo mundo sabe: Amy, que também era bulímica, teve uma overdose e, não suportando o transtorno alimentar combinado com o alto teor de drogas no seu sangue, faleceu com apenas 27 anos. Após assistir a esse sucesso estrondoso seguido de seu aniquilamento, o que fica é, além de muito pesar, a descoberta de mais um desdobramento terrível dos relacionamentos abusivos. A produção artística (seja musical, seja literária) depende, entre outros fatores, de uma certa lucidez e tranquilidade do artista. A manipulação e as ilusões dentro de uma relação assim criam um cotidiano infernal, dizimando as faíscas belíssimas que poderiam brotar do caos.

Nina, Amy, saibam que, agora que conhecemos melhor a vida de vocês, honraremos suas histórias. Vocês foram mulheres corajosas, criativas, que, mesmo com toda essa bagunça ao redor, conseguiram deixar um incrível legado de música e poesia; que, com lágrimas nos olhos, iremos lutar para preservar.

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Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia “POÉTIQUASE”, pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/