‘As Boas Mulheres da China’, Xinran


O primeiro livro que faz refletir sobre o que verdadeiramente é ser mulher a gente nunca esquece. As Boas Mulheres da China, assim como a maioria dos livros que eu considero realmente bons, chegou a mim pelas mãos do meu pai. Lembro que o presente veio junto com um aviso de que as histórias ali talvez fossem um pouco pesadas demais. Meu pai mesmo não tinha conseguido terminar e parou depois de três capítulos. Eu tinha acabado de completar 15 anos e, apesar de até hoje me perguntar se naquele momento eu tinha a maturidade suficiente para um livro como esse, eu o considero um dos mais importantes na minha formação.

As Boas Mulheres da China é uma obra de não-ficção publicada em 2003 pela jornalista chinesa Xinran que, ao longo de quase uma década, reuniu casos reais e relatos pessoais de mulheres chinesas que aceitaram quebrar a tradição e o silêncio de suas vidas privadas e compartilharam suas experiências e percepções formando um retrato tocante da figura feminina na turbulenta China do século XX.

Em 1989, na cidade Nanquim, Xinran se torna conhecida graças ao seu programa de rádio, Palavras na Brisa Noturna, onde discute assuntos cotidianos e procura oferecer aos seus ouvintes um lugar para desabafar e conversar. A jornalista é pela primeira vez confrontada por uma situação difícil ao receber uma denúncia anônima de um ouvinte pedindo-lhe que intervisse em um caso de sequestro em sua aldeia: uma menina fora vendida para um homem muito mais velho que a mantinha acorrentada em sua casa para que não fugisse. Ao interferir, sua atitude é recebida com reprovação até mesmo pelas autoridades locais que não veem porque ir contra um costume praticado há anos em aldeias remotas da região. A partir daí, Xinran questiona a condescendência com a qual casos de abuso e violência contra a mulher são tratados, quanto vale a vida de uma mulher em uma China ainda apegada aos princípios maoístas e o que se esconde por trás da imagem reservada e aparentemente delicada da mulher chinesa. Apesar de desencorajada por colegas que não acreditam em uma mudança nas regras sociais e nem que mulher alguma aceitará contribuir com seu projeto, Xinran decide seguir com o desafio de ouvir de mulheres de diversos locais, classes e gerações o que sempre lhes foi silenciado.

Ao longo de quinze capítulos, a autora se dedica a contar histórias – incluindo a sua própria –  de abuso, humilhação, estupro, discriminação, abandono, submissão e descaso. Vozes até então reprimidas dão a Xinran a oportunidade de descobrir a força imensurável da mulher chinesa e o seu olhar sobre uma sociedade extremamente conservadora e patriarcal. São casos como o de Hongxue, que privada de qualquer forma de carinho encontra afago nas patas de uma mosca; da Sra. Yang que após perder toda sua família tragicamente consegue de alguma forma encontrar forças para seguir; o de Shilin que após ser exposta a barbárie humana, perde sua sanidade; ou o das mulheres da Colina dos Gritos que, mesmo vivendo em condições inimagináveis para a maioria das pessoas, se consideram felizes. Todos os relatos são capazes de fazer o leitor chorar copiosamente por páginas seguidas e são tratados com cuidado pela autora que se preocupa ainda em passar para o Ocidente uma visão fiel e livre de estereótipos da China, evocando em alguns momentos um relativismo necessário à leitura.

Esse não é um livro fácil de ler, para dizer o mínimo. Pelo menos não foi para mim. Mas alguma coisa nele, eu quero acreditar, é capaz de despertar empatia em qualquer mulher que se disponha a lê-lo. E, apesar de remeter a uma cultura essencialmente diferente da nossa, a narrativa sensível e humanista de Xinran confere ao seu trabalho um tom universal que permite a reflexão do leitor sobre as condições às quais muitas mulheres são submetidas em nome do tradicionalismo das normas sociais.

As Boas Mulheres da China é um dos grandes livros que nos oferece a oportunidade de ver que as mulheres não estão finalmente adquirindo alguma força. Elas sempre foram fortes, nós é que precisamos mudar a forma como essa força é percebida e dar a elas o lugar que lhes é devido.

 

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Sobre Laura

Laura é uma universitária cearense que adora o próprio sobrenome e nunca conseguiu perder o sotaque. Sobrevive no Rio graças à companhia de amigos também forasteiros, muita tapioca, rede e Luiz Gonzaga para matar a saudade quando a coisa tá braba e uma vontade de fazer algo incrível com a sua vida, apesar de ainda não ter a mínima ideia do que seria. Enquanto isso, perde noites demais pensando no sentido de tudo, sofrendo com a formatura que se aproxima e rindo sozinha das próprias piadas que acha serem engraçadas (fazendo isso agora mesmo).