“As águas-vivas não sabem de si”, Aline Valek


Texto: Nina Spim

O silêncio está preenchido de sons. É como o branco, onde se juntam todas as cores.
p. 40

O oceano é uma parte do mundo que, não importa o por quê, sempre vai me atrair. Não é pela água, ou pela tranquilidade – muitas vezes é pelo desconhecido. A gente sabe o que tem lá, mas não sabe. Provavelmente não olhamos para o mar da mesma forma como olhamos para os planetas. Não existe nenhum chamado lá. Bem, até as personagens de As águas-vivas não sabem de si, da Aline Valek, convencer a gente.

Existe uma missão subaquática, dentro de uma caixa de metal, nas profundezas do oceano – num lugar que poucos sobreviveriam. A equipe, formada por cinco pessoas, à princípio, é monótona e simplista. Cada um tem sua função e, cada função, é essencial para que ninguém lá dentro sofra quaisquer tipos de acidentes (fatais ou não). Em terceira pessoa, acompanhamos Corina, que é responsável pelas sondas colocadas e realocadas pela extensão do território em que estão. Aos poucos, percebemos que o foco não está somente nesta personagem e, tal qual uma câmera cinematográfica, o zoom vai se afastando e permitindo que outros elementos apareçam em cena. Seus colegas de trabalho ganham espaço e histórias suficientes, até onde os segredos e a culpa permitem.

“Me diz o que você está vendo”
(…) Estava cansado daquelas conversar cortadas, picotadas, aos pedaços, que as pessoas ali dentro estavam dispostas a oferecer. O que ele estava vendo era uma lacuna mal-explicada onde antes havia uma pessoa, alguém desviando o rumo da conversa com a habilidade que não teve para desviar o traje da inevitável direção de uma tragédia (…)
“Quer saber se você ainda vê em mim alguém que é capaz”, explicou ela.
p. 103

O passo é vagaroso no início, mas, quando um acidente com Corina ocorre e segredos começam a se desmanchar, a trama se acelera. O ápice da narrativa está aí: um conflito humano, não inter-relacional, mas intra-relacional. É o desconhecido não somente lá fora, no mar exposto, mas aqui dentro, nas lembranças, nas feridas e na bagagem de vida. É por isso que a história é muito mais sobre uma simples pesquisa aquática aparente, é sobre a solidão, a mudança, a impotência e os efeitos das relações.

Engana-se, além do mais, quem acha que As águas-vivas não sabem de si encontra uma âncora nas personagens humanas. Há uma intercalação de narrações e as mais surpreendentes são, com certeza, sobre a vida marinha. São animais, aparentemente sem consciência alguma, que conhecem suas histórias seculares, que estiveram ali eras e eras antes da humanidade chegar. Exatamente como a parcela humana, animais como cachalotes, polvos e eremitas, contam suas versões, talvez como num pedido: ei, continuamos aqui.

Descobriu com alguma infelicidade que ser um indivíduo também era ser pequeno e sentir medo o tempo inteiro. Então foi invadida por uma enorme tristeza: se todos aqueles à sua volta também fossem como ela, então igualmente eram seres preenchidos de medo, sofrimento e solidão, todos fazendo o seu possível para sobreviverem, também como ela.
p. 245

A melancolia é um dos sentimentos que mais se faz presente e não por menos, já que existe uma finalidade. O sentimento de vagar no nada é predominante e sufocante, assim como a de procurar respostas quase nunca satisfatórias e seguras. A mensagem do livro é entremeada com muitas ideias que são apresentadas ali mesmo e ideias que, na nossa capacidade humana de pensar e sentir, nos acompanham em momentos da vida. A vulnerabilidade a que todos nós estamos expostos e a lucidez com que essa vulnerabilidade é desenvolvida é tocante e, de certa forma, arrebatadora. Existem passagens que parecem reunir todas as nossas dúvidas e pensamentos, outras, que parecem extrair toda a nossa existência enquanto seres que temem a solidão.

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Sobre Nina Spim

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.