“Arte é expressão individual”: uma conversa com a cartunista Samanta Flôor


Texto: Luísa Granato // Arte: Samanta Flôor

“Para mim arte é uma expressão individual da vida ou do que sente, do que você acha relevante, mas também é uma identificação com o outro”

Essa é a resposta da cartunista Samanta Flôor, de 36 anos, quando perguntei o que era arte para ela. Nós duas rimos ao telefone, numa sexta-feira à noite. Cada uma em sua cidade natal, ela em Porto Alegre, eu em São Paulo.

Eu sabia que era uma pergunta complicada. Afinal, dedicamos um mês aqui na Pólen para textos que a respondem de formas diferentes. E a artista me respondeu exatamente o que eu pensava sobre o trabalho dela.

Quando li Chance, a HQ que ela criou com o Diogo Cézar, me identifiquei muito com os personagens. De primeira, adorei o estilo do seu desenho. Mas foi o humor e a relação tão realista entre os personagens que mais gostei. Mesmo com a história de fantasia (um grupo de amigos encontra uma moeda que realiza desejos), eu conseguia me enxergar naquela situação.

E então, quando vi que a Samanta também fazia parte da coletânea Spam, um livro com tirinhas apenas de mulheres da Zarabatana Books, já sabia que ia gostar. Nele, conheci outras artistas, e encontrei o mesmo desenho divertido e expressivo, que me lembra os cartoons clássicos, e o humor muito fácil de se identificar das suas personagens femininas.

Por isso fiquei tão feliz por encontrar sua webcomic “A canção de Ada” no tumblr, com uma história muito tentadora de uma menina que vive e cuida de sua avó e que rouba uma caixinha de música misteriosa. Tão contente quanto ter a oportunidade de bater um papo com a quadrinista sobre suas obras e debater um pouco sobre arte e o mercado de quadrinhos.

A seguir, conheçam melhor a Samanta Flôor:

OLAAH

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Revista Pólen: Como começou a fazer desenhar? E como começou como profissão?

Samanta Flôor: Eu desenho desde sempre, eu e meus irmãos eramos crianças de apartamento, então nossos pais incentivavam muito. E acabei fazendo faculdade de arquitetura, mas nunca exerci. Depois que me formei trabalhei um tempinho num estúdio de ilustração, aprendi muito lá e quando saí comecei a trabalhar como freelancer.

RP: Como é ser uma artista e mulher?

SF: Pensando nos quadrinhos, no começo notei uma relutância em publicar o que fazia online. Eu não via meninas, só homens. De uns tempos pra cá, vi um boom de arte por mulheres na internet. Não acho que elas estejam criando mais, elas estão mostrando mais sua arte. Existe uma certa responsabilidade ao entrar no mercado, pois a presença de uma mulher empodera a próxima.

RP: Como é ser ilustradora freelancer? Quais as dificuldades e pontos altos?

SF: A maior dificuldade é conseguir trabalhos, buscas novos clientes é quase um emprego à parte. Tem épocas que é extremamente cansativo e frustrante. O maior ponto alto é trabalhar à vontade e fazer os próprios horários, mas é preciso muita disciplina também.

💙 #venus

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RP: Você teve um momento em que se viu como artista?

SF: Isso demorou muito pra acontecer. Eu evitava muito esse termo, por não me achar digna o suficiente pra me colocar ao lado de gente que admiro tanto (hehe). Acho que só me assumi como artista quando criei a página no facebook e a coloquei como “artista”.

RP: Uma pergunta difícil: o que é arte para você?

SF: Muito difícil mesmo. Para mim arte é uma expressão individual da vida ou do que sente, do que você acha relevante, mas também é uma identificação com o outro. Muitos trabalhos autobiográficos de cartunistas são envolventes para as outras pessoas. Eu leio a hq e percebo que voz daquela autora lembra a minha.

A arte é uma oportunidade de se conectar com as outras pessoas e refletir. Talvez tudo que causa reflexão?

distraídos do mundo: unite and take cover

Posted by Samanta Flôor on Friday, April 29, 2016

RP: Você tem outras artistas mulheres que te inspiram?

SF: Eu gosto muito da Cynthia Bonacossa. Também a Laura Lannes, eu gosto principalmente da honestidade com que ela se retrata.

RP: Nos seus quadrinhos, como é o seu processo criativo?

SF: Não existe bem um processo ou método. geralmente começa com uma ideia que eu vou desenvolvendo através de desenhos e rascunhos, bem pequenos e esquemáticos. A história também é assim: eu começo a fazer thumbs – que é um rascunho bem simples da estrutura de cada página, coisa mais simples que boneco de palitinho mesmo. 

Dorgas!

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RP: Como foi a criação do Spam e do Chance?

SF: Spam foi como um job, porque já veio com um tema (inclusive com a lista de spams que poderíamos usar), e o número máximo de páginas.

Chance também foi um projeto com especificações: o Alexandre Sakae (da Polvo Rosa) nos procurou com a ideia de uma série de hqs em que todas teriam o mesmo formato e número de páginas. Eu chamei o Diogo pra escrever o roteiro e nosso processo foi bem fluido: eu me meti no roteiro dele, colocando uma e outra piada e ele desenhou comigo, sugerindo ângulos, modificando algumas cenas e etc.

Eu e diogo estamos fazendo uma hq #chance #polvorosa #fiq

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RP: E agora do seu novo webcomic, Canção de Ada: como é esse projeto? 

SF: Não sei dizer de onde surgiu a ideia, mas já faz algum tempo que eu queria fazer uma webcomic. Imprimir gibis é muito legal, todo cartunista curte, mas além dos custos, um gibi impresso acaba não sendo lido por muitas pessoas, mesmo com editora o público que compra acaba sendo bem limitado. Eu queria que mais pessoas lessem e queria esse formato de série: com temporadas e capítulos, algo que dê pra ir acompanhando, que dê pra perceber a evolução da trama e dos personagens.

A execução está sendo interessante. É muito bom ter um feedback quase ao mesmo tempo em que estou criando. a história já está quase toda definida, mas certamente ela mudará com a influência das pessoas que estão lendo, acompanhando e comentando.

Perseguições #webcomic on the making

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RP: Você teria algum conselho para as mulheres e meninas que querem ser artistas e cartunistas?

SF: É um mercado difícil. A primeira coisa é não ficar decepcionada com um não. Você vai precisar de força de vontade e tempo, e não pode desanimar. E a internet está aí e é uma maravilha. Hoje não precisa mais da aprovação de um editor. Você pode ser o editor do seu trabalho, a gráfica, etc.

Para encontrar a Samanta é fácil. Pelo site samanta-floor.com.br, você encontra os trabalhos dela, contato, redes sociais e links para comprar as obras dela. Se quiser apoiar o trabalho da Samanta, ela também tem uma conta no apoia-se!

Fiz uma conta no apoia.se! /samantamanta ou clica no link na bio pra ler a hq toda e, quem sabe, me apoiar <3

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Sobre Luisa Granato

Luísa é jornalista e eterna potterhead. Sua casa é a grifinória, mas ela lê como uma corvinal e podia ser a Luna Lovegood. Viajante (inclusive do espaço e do tempo), ela ama ficção científica e histórias fantásticas.