Aprendendo a amar meus cachos


Texto: Amanda Ariela

Eu amo meus cachos. Gosto da personalidade e do caráter que eles dão ao meu rosto. Gosto da moldura que eles me dão quando os deixo soltos e adoro a sensação de tê-los por todo lado, quando estão presos em um rabo de cavalo.

A verdade é que meu cabelo é lindo e que, principalmente, sou eu a única pessoa que tem direito a dizer o que é que pode e o que é que não pode ser feito com ele. Eu não gosto de volume e prefiro ter meu cabelo preso em um rabo de cavalo, especialmente no calor. Uma escolha própria minha e de mais ninguém. E, olha… Vocês não tem noção do quanto eu demorei para entender isso.

Foram muitas as idas ao salão de cabelereiro em que eu sentia vontade de fazer algo de diferente, em que eu perguntava aos profissionais o que poderia ser feito para reduzir o volume e sempre ouvia um “Por quê você não faz uma progressiva?”. Muito simples: Porque eu não gosto.

Certa vez, fiz uma consultoria de visagismo gratuita com os alunos da minha Universidade. Depois de avaliarem minha pele, a forma como eu sento e até como caminho, a primeira sugestão deles foi de tingir meu cabelo de vermelho “Assim, você acende um pouco mais sua cor. Vai ficar a cara da Rihanna”. Quando a conversa avançou e eles descobriram que eu era aluna de jornalismo o tom mudou para “Nossa, mas jornalista não pode ter cabelo cacheado de jeito nenhum! Ainda mais com todo esse frizz! Não é nada profissional e não passa credibilidade”. Maju Coutinho que o diga…

Em outra ocasião, o salão de cabelereiros do meu bairro, que só fazia três tipos de cortes: Reto, em V e ovalado, me fez sair de lá com uma metade do cabelo mais comprida que a outra. “Sabe como é, né? Cabelo cacheado é mais difícil de fazer e de inovar…”

Recentemente, a Editora Paralela lançou “O Livro dos Cachos”, da jornalista Sabrinah Giampá. Com a promessa de ensinar a amar e a cuidar dos cachos, escolhi a leitura e a jornada foi uma caminhada por toda a minha memória cabelística, cercada de traumas e de elásticos para cabelo.

Em “O Livro dos Cachos”, Sabrinah aborda um pouco da cultura atual e da nova onda de libertação da ditadura da chapinha e das químicas. Ela mostra alternativas, técnicas, tratamentos, depoimentos de pessoas que passarem pela fase de transição capilar, além de receitas e dicas de como cuidar dos cabelos.

“É preciso aceitar o cabelo que se tem e tratá-lo com respeito para que ele próprio responda de um jeito mais amável. Também é necessário aprender a desconfiar do que a indústria cosmética promete.” p. 12

Longe de pregar fórmulas mágicas, o “Livro dos Cachos” prega o amor próprio. Quero usar meu cabelo em um black poderoso? Posso. Quero usar meu rabo de cavalo e pronto? Posso. Quero cortar meu cabelo bem curtinho e tê-lo da forma mais natural possível? Posso.

Eu já vinha notando uma mudança de pensamento com o surgimento de salões de beleza especializados em cabelos cacheados, como o Beleza Natural, onde eu corto meu cabelo. Mas não tinha ideia de como esse movimento é forte e poderoso e de como ele tem o poder de libertar aquelas que participam dele. A própria Sabrinah é dona de um salão, o Garagem dos Cachos, onde ela faz mágica com as tesouras.

Por vezes, o livro parece que dialoga com você. Como uma amiga que aparece para te ensinar algumas técnicas como a de Low-poo e as de umectação dos cabelos. Sendo deveras lesada para essas coisas de beleza, o livro foi muito bom para me atualizar nas alternativas de cuidado capilar. O material ainda inclui um glossário sobre termos e técnicas da indústria da beleza que, por vezes, podem soar como grego.

Quando eu estava na minha pré-adolescência, eu adorava ler manuais e guias de comportamento e de beleza. Hoje, vejo que boa parte deles era uma balela. Não é o caso de “O Livro dos Cachos”. Talvez, se Mandariela tivesse lido esse livro, ela não iria tentar alisar o cabelo com chapinha, toda vez que tivesse um evento realmente importante. Talvez, Mandariela iria aceitar seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar, muito antes. Talvez, Mandariela iria para responder para aquele aluno de visagismo que a competência de ninguém deveria ser baseada na quantidade de fios de cabelo que suportam a umidade.

Vejo essa opção de leitura como um maravilhoso guia para meninas mais novas, que mal podem esperar para que suas mães permitam que elas alisem o cabelo com químicas.

A verdade é que ter cabelo cacheado dá trabalho, mas não é nada impossível. O Brasil é um dos maiores mercados consumidores de produtos de beleza e, agora com a nova onda, cada vez mais produtos para cabelos cacheados surgem, como os da linha da SalonLine (que eu uso com frequência) e da DevaCurl (bem caro, ainda não experimentei).

Além disso, Sabrinah ensina no livro algumas técnicas caseiras, que podem ajudar gente como eu, que não tem lá muita grana para gastar em produtos para cabelo.

A única coisa que eu senti falta é de uma abordagem maior sobre a importância dos cortes de cabelo. Esses são meu pesadelo na Terra e eu entendo que seja diferente para cada uma, por diversos fatores. O livro aborda com abrangência os diferentes tipos de cachos e até as blogueiras de moda que tem cada tipo de cabelo. Mas a verdade é que eu gostaria de um guiazinho, talvez um manual sobre como identificar um cabeleireiro que não tem a mínima ideia de como lidar com ondas e curvas.

Minha ideia era a de experimentar as técnicas de low e no poo, de fazer a umectação e de tentar um corte diferente, na tentativa de avaliar as ideias da Sabrinah. Mas, a verdade pura é que eu não tive tempo. A verdade mais clara ainda é a de que, se uma mudança de pensamento leva anos e anos para ser concretizada, imagine uma mudança de hábito? Já estou reduzindo o uso de petrolatos, mas tentar ficar sem shampoo ainda é um desafio para mim.

“Lidar com cabelos ondulados e cacheados é assimilar uma nova cultura, em que velhos tabus são derrotados e se inauguram outros costumes.” p. 12

Sentada no computador escrevendo esse texto, depois de um longo dia de trabalho, meu cabelo está sujo e o rabo de cavalo já passou para um coque, por causa do calor. E eu sigo achando ele topzera, só porque é meu.

O que importa mesmo é que meu cabelo é o meu cabelo. E que se ele não fosse o meu, ele não seria o de mais ninguém.

“[…] Lembre-se de que seu cabelo não é perfeito! Ele é muito melhor do que isso: é único! Cada um de seus cachos tem sua beleza, sua textura, sua peculiaridade. Seu cabelo é uma parte de quem você é e traz consigo sua bagagem genética, ancestralidade e personalidade. A natureza é sábia: o cabelo que nasceu com você é o que mais te cai bem!” p. 48

O que importa mais ainda é que as garotas agora tem uma alternativa, uma luz no fim do túnel e não precisam mais ser escravas das escovas e chapinhas. Elas podem ser elas mesmas: Com cachos, sem cachos, cabelo liso, cabelo curto, cabelo raspado, cabelo colorido, cabelo branco ou nenhum cabelo. Simplesmente elas.

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