Aprecio a proximidade


Texto: Priscilla Binato

Em uma sociedade extremamente carnal, às vezes parece que ao tentar fazer as coisas de um formato diferente você está sendo transgressor. Um pensamento não sexual – não ponderado em um conceito atração ou tesão – parece algo idealizado, desconexo e confuso. Talvez seja por isso que a sociedade veja a assexualidade com olhos tão confusos, a ideia de que alguém pode não vivenciar o mundo da mesma maneira que você é sempre confusa. É sempre imprecisa. Um pensamento ligeiramente etnocêntrico, porém consciente, funcional e, além disso, não impossível de se empatizar. É a causa de todas as confusões, o momento em que notamos que outra pessoa pensa, fala, emite vibrações diferentes das nossas.

Quando eu penso nisso, geralmente me vem à mente uma trama de um seriado. Humans é uma série que se passa em um mundo futuro não tão longe do nosso, em que é comum que pessoas comprem sintéticos (robôs, de uma forma mais rudimentar) para trabalhar para eles e fazer tarefas comuns do dia-a-dia. Ir no mercado? Mande o seu sintético. Passear com o cachorro? Mande o seu sintético. Limpar a casa? Fazer comida? Babá? Muito mais fácil se for feito pelo seu sintético. Uma vida mais fácil e muito mais simples. Porém, isso começa a se complicar no momento em que existem alguns desses sintéticos que desenvolvem consciência e, dessa forma, são capazes de sentir.

Essa é a trama inicial da série, o preceito que a cria, e eu, pessoalmente, me encantei pela ideia. Inteligência artificial, robótica e essa hipótese de robôs tomando o lugar da humanidade é algo que me interessa muito. Nisso, começamos a acompanhar um grupo de personagens – alguns sintéticos, outros não –, e uma das que mais se destaca para mim é Mia (Gemma Chan). Ela faz parte de uma família e começa a série sendo empregada doméstica sem memórias de outra família. Eventualmente ela recupera o seu lugar e vai para junto da sua família para a sequência, na segunda temporada.

Lá, ela se apaixona e há um cenário muito interessante, uma vez que o personagem é um homem e um humano. Uma pessoa comum, normal, com uma vida normal e um interesse comum por, claro, sexo. Na série nós já tínhamos sido introduzidos ao fato de que os sintéticos podem e muitas vezes têm relações sexuais com outros humanos, mas essas situações raramente eram de prazer para os sintéticos. Principalmente porque eles, na situação, geralmente não têm uma posição de poder suficiente. É apresentado na primeira temporada que existe uma “opção adulta” para os sintéticos, que só pode ser acionada por maiores de 18 anos, por exemplo. Nessa situação, o sintético não tem nenhum tipo de agência sobre se ele quer ou não participar daquela situação – o que eventualmente se dá pelo fato dele não ter consciência. Na mesma primeira temporada há também uma trama que envolve a prostituição de sintéticos.

E, eventualmente, o relacionamento dos dois chega ao sexo, ao que há a preocupação natural com o orgasmo e fica implícito que os sintéticos não podem chegar a tal. O parceiro de Mia questiona sobre o assunto e ela lhe responde que aprecia a proximidade. Essa resposta não é bem tida pelo parceiro, o que leva para outras tramas e afins. Mas, para mim, foi algo muito interessante, uma vez que eu me identifico muito com essa resposta, com essa sensação. Ela faz eu me questionar e, ao final, qual é o grande objetivo de se ver televisão, se não se questionar, não é mesmo? Até que ponto o prazer do sexo não é algo muito mais de proximidade, de intimidade, de uma relação com outro do que um estímulo?

A relação entre os dois, afinal, não é muito diferente da relação de muitas pessoas fora da ficção. São duas pessoas que se gostam e que estavam em um relacionamento. No caso de Mia é somente um detalhe o fato dela ser um robô, um ser sintético, principalmente se formos considerar que ela tem uma consciência própria e uma agência própria, uma capacidade de decidir pela sua própria vida. E, mesmo assim, mesmo sabendo que ela não teria a resolução do orgasmo depois do ato sexual – o que, para muitos, tiraria o prazer de toda a situação -, ela entrou nessa situação e nessa relação. Faz tanta diferença assim para Mia? Faz tanta diferença assim para todo mundo?

Apreciar a proximidade parece ser uma resposta muito melhor para uma pergunta muito maior.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.