Apegos de um fim do mundo


Texto: Arthur Carvalho // Arte: Bianca Albino

O avião que sobrevoa os Andes perde altitude cedo demais e cai na neve com 45 pessoas a bordo. Doze não sobrevivem ao impacto e outras cinco padecem durante a noite. A 4 mil metros de altitude, o frio é de 30 ºC negativos. Ninguém tem roupas grossas. No décimo dia o rádio improvisado informa o fim das buscas. Quando a comida acaba, só sobram os corpos dos amigos mortos. O que você faria?

O que será que eu faria? O que faríamos nós, naquela imensidão branca, céu e neve se confundindo no horizonte, e quase nenhuma esperança no coração? Isolados de tudo, abruptamente arrancados do conforto da civilização e jogados entre montanhas congeladas. Perdidos e abandonados em uma das regiões mais hostis do planeta; a depender unicamente do próprio destino, o mesmo destino que levou a toda aquela neve. Será que manteríamos a calma, aferrados a nossos valores? O que faríamos?

A história não é inventada. Em 13 outubro de 1972, os pilotos de um turbo-hélice da Força Aérea Uruguaia provavelmente erraram o tempo da manobra de pouso e, cegados pelas nuvens, caíram entre as montanhas. A aeronave se partiu em três. Vários passageiros eram jogadores ou familiares de um time uruguaio amador, o Old Christian Rugby Club, que disputaria um amistoso no Chile. Só 16 pessoas se salvaram, resgatadas 72 dias após o acidente.

Dois detalhes da formação social e cultural dos passageiros podem ter sido fundamentais para manter a sanidade nos Andes. O primeiro, o rugby, propõe o espírito coletivo, tem um quê subversivo e requer comportamento não civilizado, mais ou menos como um acidente aéreo. Como explica Matt J. Rossano em “Mortal Rituals: What the Story of the Andes Survivors Tells Us About Human Evolution”, ambas as situações “implicam um distanciamento da ordem, do conforto e das normas sociais que tornam a vida moderna segura e previsível”. A diferença é que a participação no esporte é intencional e no desastre, não.

O segundo detalhe, mais presente, é a religiosidade. Para aliviar o sofrimento, os sobreviventes rezavam um rosário todas as noites. O ritual era o único do qual tinham controle na fuselagem do avião destruído; tudo em volta era indomável. Desde há muito tempo os rituais são fundamentais para sustentar a evolução da humanidade, e seriam também essenciais ali nas montanhas. A religião impõe certa ordem ao caos e impede que a nova realidade, na neve, seja totalmente dissociada da anterior, em casa. Somados à amizade prévia entre os passageiros, o rugby e a crença podem ter sido a chave da sobrevivência para vários dos resgatados. Fossem ateus, desconhecidos ou jogadores de tênis, será que 16 teriam sobrevivido?

As crenças, no entanto, foram postas à prova continuamente. Os sobreviventes derretiam e bebiam neve, racionavam barras de chocolate e um garrafão de vinho. Ainda assim, a comida acabou logo.

Estar isolado do resto do mundo e passar fome é capaz de destruir emocionalmente qualquer um. O corpo começa a se desesperar entre 24 e 48 horas sem comida, e a partir daí o metabolismo é reduzido para conservar energia. O raciocínio fica mais lento, difícil. Surgem dores de cabeça, insônia, tontura e mau humor.

Esquecendo temporariamente todas as provações, fico pensando como aquele fim de mundo deve inspirar, ironicamente, uma sensação de segurança. Não há ameaças, não há predadores, a adrenalina é baixa. É tudo longe, pintado de branco, como um quadro gigante na parede de uma sala vazia. Só há o frio; só há a neve. O maior perigo é justamente este, um abraço silencioso e gélido da natureza.

Mais ou menos por aí deve surgir um dilema moral nessas pessoas. Viver custa caro demais, enquanto morrer é tão mais confortável. No entanto, os preceitos cristãos inspiram a vida (ao menos do ponto de vista dos próprios cristãos). Os seis suicidas que aparecem na Bíblia, por exemplo, são considerados assassinos e condenados ao inferno. Pensar na própria morte com afeição – e não angústia – não seria, grosso modo, uma afronta a esses princípios? Além do mais, do outro lado de toda essa neve insuportável estão pessoas que te amam, que choram a sua ausência e de alguma forma – talvez pela cegueira que a dor nos impõe – ainda sonham com a sua volta. Com estes e tantos outros fatores impensáveis para quem lá não esteve, os sobreviventes foram convocados a deliberar sobre a própria vida, sobre comer ou não, viver ou não.

Alguns sobreviventes contam, no documentário “A Sociedade da Neve”, como conseguiram aceitar a ideia de consumir os corpos dos amigos mortos. À parte os motivos físicos, já brevemente resumidos neste texto, tiveram força aqui as questões psicológicas. Pessoalmente, eu nunca fui de defender a moral e os bons costumes, talvez você também não, mas essas pessoas, sim. Elas ainda guardavam algo da dignidade com a qual tinham decolado do Uruguai, por isso houve protestos quando a sugestão apareceu pela primeira vez. A medida foi adiada tanto quanto possível; seria a última alternativa.

Com toda a cautela na balança, surpreende o jeito como falam sobre o que aconteceu. Não há arrependimento ou receio pela ira divina, ao contrário. Apoiam-se justamente na crença para dar um sentido àquela ação desesperada. Os depoimentos têm menções à Santa Ceia e frases como “pensei naquela carne como o corpo de Cristo”. O espírito coletivo do rugby também esteve indiretamente presente: alguns ofereceram o próprio corpo caso morressem antes dos amigos.

Desta forma os sobreviventes foram capazes de encontrar, em seus valores culturais, uma interpretação que perdoasse o canibalismo. Depois disso, não seriam muitos os limites a ultrapassar. No 17º dia na neve, uma avalanche sepultou os destroços e reduziu os sobreviventes a 19. Mais um golpe no já destroçado moral do grupo, que foi constantemente obrigado à neve, ao frio, à fome, ao abandono. Obrigado também a comer: era isso ou todos os outros sacrifícios seriam em vão. Seis semanas depois, eles organizaram uma expedição de dez dias e encontraram um fazendeiro local. Os helicópteros apareceram um mês e meio depois do acidente, às vésperas do Natal.

 

Este texto foi inspirado pelo livro “A Sociedade da Neve”, escrito por Pablo Vierci, e também no filme homônimo (disponível no Netflix). Outras obras de referência são o filme “Vivos”, de 1993 (disponível no Youtube), e o documentário “Estou Vivo: Milagre nos Andes”, do History Channel (disponível no Youtube).  Para mais aspectos psicológicos, alguns capítulos da obra “Mortal Rituals: What the Story of the Andes Survivors Tells Us About Human Evolution” estão disponíveis (apenas em inglês) no Google Books.

 

Arthur Carvalho é jornalista recém-formado e desbravador de livros desconhecidos. Apreciador inveterado de documentários, tortas de limão e músicas tocadas em ritmos diferentes do original.

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