Apanha os botões de rosas enquanto podes


Texto: Millena Machado

Em uma de suas aulas, o professor Keating reúne sua turma próxima às fotografias de ex-alunos em seus grandes feitos e sussurra: “Carpe. Carpe Diem. Aproveitem o dia, rapazes. Tornem suas vidas extraordinárias”. Essa cena de Sociedade dos Poetas Mortos foi o meu primeiro contato com a expressão latina e, a partir daí, a dúvida de estar vivendo intensamente tornou-se constante e a preocupação de não estar, também.

Se você parar para perceber, o viver intensamente virou quase o mantra para a felicidade. Para você ser feliz, precisa fazer dos seus dias os melhores possíveis. Precisa sair da zona de conforto mesmo quando a situação não pede, tomar decisões arriscadas e ultrapassar seus próprios limites. É como acordar cedo todos os dias para treinar para uma corrida e esperar, além da vitória, os sentimentos de satisfação e entusiasmo na linha de chegada. Na maioria dos filmes, viver plenamente é fugir do cômodo e do comum. É gritar em um túnel com os amigos no carro ou largar tudo, a cidade, o emprego e as contas, para partir em uma viagem de autoconhecimento pelo mundo. Se você, assim como eu, espera que essa euforia um dia faça parte das nossas vidas e se assombra com o medo e a angústia de que talvez ela nunca vá chegar, do jeito como é repassado, bem-vindo ao time.

Nunca entendi o problema com o confortável. Claro, algumas situações pedem resoluções diferentes do que é seguro até então, mas nunca entendi essa associação como se fosse algo negativo. Dizer a um professor, por exemplo, que ele não está vivendo intensamente porque acorda todos os dias no mesmo horário, ministra as mesmas aulas a anos e volta para casa no fim do dia para assistir televisão e dormir é não enxergar a situação como um todo. Para ele, viajar todos os países do mundo apenas com a mochila nas costas não traz a plenitude que ele deseja para sua vida ou torna-a significativa, a vontade de fazer a diferença na vida de um aluno é maior do que qualquer ideal de felicidade que é repassado por aí. A tranquilidade de seu cotidiano é suficiente e ponto. Não há problema algum em ser suficiente quando aquilo te faz se sentir bem consigo mesmo e torne as apreensões com mundo lá fora mais amenas, mais suportáveis e, quem sabe, torne-as apenas uma preocupação mínima que aparece só de vez em quando.

O poema de Robert Herrick nos diz para apanhar os botões de rosas enquanto podemos, pois o tempo voa e esta flor que hoje sorri amanhã poderá já estar morta. Sua felicidade não está do outro lado do mundo, em outras pessoas ou em outras situações. Se amanhã a flor estiver morta, plante novas. Seja no jardim de sua casa ou nos jardins da Babilônia, apanhe seus botões de rosa com a maior satisfação possível. Sozinho ou com outras pessoas, com alarde ou sem alarde, faça sua vida extraordinária vivendo. Se estiver insatisfeito ou desconfortável, mude de jardim ou mude a cor das rosas. Pode apanhá-las enquanto podes, mas podes apenas deixá-las enfeitando o jardim nos fundos de casa, sendo um suspiro de alívio toda vez que as observa pela janela, tornando tudo mais leve e, por que não, mais real e intenso.

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