Ao meu eu-adulto


Se a vida fosse uma fila, tipo uma linha do tempo, eu estaria quase atravessando o marco que diz “adulto”. É uma parte em que tudo fica mais nebuloso, se você parar para observar. Toda a adolescência foi um percurso esquisito, tortuoso, cheio de altos e baixos, até que a confusão cresceu tanto e eu me vi no limite entre o eu-adolescente e o eu-adulto, sem fazer a mínima ideia do que nos separa. É como se eu fosse o Gatsby conseguindo ver a luz verde em algum ponto a minha frente, mas não tendo noção exata da distância entre nós.

E aí eu começo a me questionar: quem é o meu eu-adulto? Pela lei, tendo dezoito anos, eu já sou adulto. Daqui alguns meses entro na faculdade, ou seja, mais um ponto na carteirinha de adulto. Mas o que está me encasquetando aqui é o que exatamente vai me definir como adulto, qual é o ponto em que eu vou ~crescer.

É ser dono da minha própria casa? É pagar as minhas contas? É pagar as minhas contas com o dinheiro que eu mesmo trabalhei para receber? É ter filhos? É ignorar livros e filmes voltados pro público jovem? É ter um diploma de graduação? É beber vinho e comer fondue no apartamento de amigos no sábado à noite? É falar que High School Musical é ruim? É ser Maduro™?

Porque eu conheço um monte de gente que se diz adulto e não é nada disso, assim como gente que justifica ser adulto por causa dessas coisas.

Mas eu não sei.

Quando eu era criança, eu tinha essa ilusão de que o mundo era algo rígido, estanque e  de que tudo o que tinha que acontecer, das guerras aos avanços tecnológicos, já tinha acontecido e agora estávamos vivendo o simples hoje, num lago calmo, construído sobre todas as agitadas mudanças históricas. Nesse contexto, a minha perspectiva para o futuro era de que nada mudaria, eu só iria ficar mais velho até ser adulto (leia-se: pessoa de vinte e poucos anos graduada, casada, com apartamento próprio e filhos a caminho) num mundo igualzinho ao da minha infância.

Só que, ano após ano, eu fui me dando conta de que a mudança, na verdade, era a única constante da vida. Enquanto eu me transformava, seja no desenvolvimento do corpo ou dos pensamentos, eu me tornava capaz de perceber o movimento das coisas ao meu redor. Assim, no auge dos meus treze anos, eu me tranquilizava dizendo para mim mesmo que eu continuaria crescendo e um dia chegaria a um ponto em que tudo estaria bem e eu seria o cara perfeito. Estou gordo agora, mas vou virar adulto e ser magro & gostoso. Estou começando a me sentir atraído por rapazes, mas vou virar adulto e casar com uma moça. Eu não escrevo nem uma palavra agora, mas vou virar adulto e publicar trinta best-sellers. Esses sonhos se tornavam objetivos, mas não daqueles que você luta para alcançar, era algo certo, inerente à fase adulta.

E aí os anos passaram mais um pouco e eu percebo que, uau, a mudança é realmente a única constante da vida. Se antes eu tinha comprado o senso comum de que todos os meus defeitos e infantilidades seriam consertados com o tempo e a chegada da maturidade, hoje eu percebo como isso não passa de uma ideia danosa, que acaba por invalidar toda uma gama de pensamentos e sentimentos legítimos no momento. Não é porque que uma verdade se transforma que ela deixa de ser verdade lá atrás; avaliar o seu eu-passado apenas com os olhos do presente é um anacronismo muito injusto.

Por isso, pensar o passar dos anos e de fases da vida como subir uma escada é errado. Não, você não passa a ver tudo sob uma visão privilegiada, do topo. Na verdade, eu tenho essa ideia de que a perspectiva é como uma luneta pela qual eu enxergo o mundo, e que cada experiência vivida é capaz de mudar o ângulo para onde a lente está apontando, nem que seja um pouquinho. Tem gente que inclinou tanto a luneta que só está olhando para a lua, outros conseguiram fazer com a luneta enquadrasse eles mesmos e nada mais, isso sem falar da galera que foi completamente para o canto da direita ou o da esquerda. Mas você já reparou que pode girar a luneta para todos os lados? Inclinar para cima, para baixo, prum lado, pro outro, dar uma volta de 180º graus e virar completamente a questão. São muitas possibilidades, e todas elas são válidas.

O que a passagem de tempo faz é ir, pouco a pouco, direcionando a sua luneta, alterando o foco, além de aumentar e diminuir o alcance da sua visão. Agora, eu estou focando na luz verde, como o Gatsby. Às vezes eu olho ao redor, fico meio perdido, porém, o objetivo principal são os caminhos a serem seguidos num futuro próximo. É por esse motivo que estou escrevendo esse texto, para falar com o meu eu-adulto.

Quero dizer a ele – ou a mim? – que, não, eu realmente não sei o que é que vai me fazer ser adulto, apenas que não é como um pokémon evoluindo e, do nada, mudando tudo. Trata-se de um processo, e eu me vejo num ponto em que tanto faz ser considerado adolescente, adulto, ou até ~jovem~. Em algum momento provavelmente notarei a diferença ao olhar para o passado e ver que estou em outra fase, porém, hoje, é muito mais importante para mim perceber como o que estou vivendo no presente é legítimo.

Pode ser que em alguns meses ou anos eu me esqueça de que um dia publiquei algo do tipo, mas quis registrar de alguma forma, para a pessoa que eu serei no futuro, um pouco da minha visão. E ressaltar que ela é uma visão válida. Eu posso até estar errado e falando merda, mas, agora, não me importo.

É uma merda sincera.

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Sobre Paulo V. Santana

Paulo tem 19 anos, cursa Letras na USP e... o resto ele ainda está descobrindo. Enquanto isso, ele canta High School Musical nos karaokês da vida, lê uns livros, reclama da vida na sua newsletter e perde horas e mais horas assistindo coisas no youtube. No Twitter: @paulovsantana