Ao infinito, e além: mulheres na ficção científica


Texto e arte: Luísa Granato

A ficção científica é um novo ponto de vista. Não é uma previsão, mas um exercício de imaginação baseado no presente. Na introdução do seu livro, A Mão Esquerda da Escuridão, a Ursula K. Le Guin fala melhor:

“Toda ficção é uma metáfora. Ficção científica é metáfora. O que a separa de formas mais antigas de ficção parece ser o uso de novas metáforas, tiradas de alguns grandes dominantes da nossa vida contemporânea”

As mulheres podem ir longe, mas alguns acreditam que viajar o universo já é longe demais. Entre as lendas urbanas que circulam pela literatura, a história de que mulheres não tem lugar, ou só recentemente se interessaram, na ficção científica parece a mais absurda.

Talvez uma das histórias mais recontadas do horror e da ficção científica, todos conhecem o monstro e seu criador, Frankestein. A vontade de criar vida, de vencer a natureza, de brincar de Deus. De criar vida sem uma mulher. Porém, escrita por uma mulher. Sua mãe morreu um mês após a filha nascer, foi criada por um filósofo e casada com um poeta. Mary Shelley era escritora, ensaísta, dramaturga, biógrafa e também editora. Numa reunião de amigos, Lord Byron desafiou todos a escreverem contos de fantasma e então ela contou sua história. Um conto que virou um livro e que é considerado o marco inaugural da ficção científica.

Não importa quem pense que mulheres não fazem parte da ficção científica, pois elas ainda tem histórias para contar. E a ficção científica é um gênero em que as mulheres podem manipular e criticar a sua realidade. Mais do que no resto da literatura, é no sci-fi que podemos moldar um mundo do nosso ponto de vista, exagerar e extrapolar o que vemos de errado nele, solucionar problemas e testar possibilidades. É uma evolução do nosso ponto de vista.

Como Octavia E. Butler, que escreveu sobre uma menina negra sobrevivendo nos Estados Unidos em um futuro próximo, com a economia quebrada e o meio ambiente arrasado. Ela fala sobre religião, preconceito racial e feminismo em circunstâncias extremas, mas que ressoam com a sociedade de hoje.

Ou Andre Norton, ou Andre Alice Norton, escritora com pseudônimos masculinos que foi a primeira (de quatro mulheres) considerada Grande Mestre na ficção científica. Ela escreveu ficção científica e fantasia por 70 anos, publicando mais de 300 títulos.

Outra grande mestre é Ursula K. Le Guin, que usa o gênero para explorar relações psicológicas e sociais, que poderiam ser sobre diferentes grupos sociais ou étnicos, mas nos seus livros aparecem entre humanos e não-humanos (ex: aliens).

Anne McCaffrey escreveu sobre telepatia e dragões. Connie Willis sobre viagem no tempo. C. L. Moore escreveu uma das primeiras protagonistas femininas que era uma guerreira. Margaret Atwood fala sobre fanatismo religioso na sua distopia de 1985, O conto de Aia. Doris Lessing ganhou o prêmio Nobel de Literatura e escreveu uma série com alienígenas. Malinda Lo escreve YA com minorias como protagonistas. Nnedi Okorafor traz magia e cenários pós-apocalípticos para países africanos, como a Nigéria e o Sudão.

Existe muito o que imaginar ainda na ficção científica, e não faltam mulheres para quebrar o mundo em pedaços e reconstruí-lo segundo suas regras. Entre robôs, distopias, alienígenas e viagens no tempo, reconhecer as experiências femininas diversas e as personagens complexas é muito satisfatório para as leitoras e refrescam os temas clássicos.

Se esse gênero é muito mais do que guerras no espaço, ele também é muito mais com as mulheres.

Compartilhe:

Sobre Luisa Granato

Luísa é jornalista e eterna potterhead. Sua casa é a grifinória, mas ela lê como uma corvinal e podia ser a Luna Lovegood. Viajante (inclusive do espaço e do tempo), ela ama ficção científica e histórias fantásticas.