“Andar duas luas”, Sharon Creech


Diz um provérbio cheiene que não devemos julgar alguém antes de andar duas luas com seus mocassins. Sal, a protagonista de Andar duas luas, tem dificuldade em seguir o provérbio quando se muda de cidade, saindo da sua fazenda para morar em uma casinha com um quintal pequeno, e encara a proximidade do seu pai com outra mulher após sua mãe ter ido embora.

Sal se recusa a ver a verdade, assim como sua nova amiga Phoebe finge que sua família, rígida e exigente, é perfeita e prefere criar teorias mirabolantes a tentar entender o que aconteceu quando sua mãe também sai de casa. O leitor também pode entrar nessa história, acreditando que sabe o que está por trás dos mistérios das garotas e, bom, com chances de terminar o livro um pouco surpreso quando a verdade é revelada.Andar duas luas

Sharon Creech cria uma história dentro de outra história no livro: em um primeiro plano temos Sal narrando sua viagem com seus avós pelos Estados Unidos, seguindo o caminho de sua mãe. Durante a viagem, Sal conta a história de Phoebe, que envolve mensagens misteriosas, meninos estranhos e o sumiço de sua própria mãe. Em outro plano, temos o passado de Sal e de seus pais e por fim temos todas as verdades escondidas atrás de fantasias e tudo aquilo que não é dito.

Li Andar duas luas pela primeira vez quando tinha mais ou menos a idade de Sal, treze anos. Reli agora, com vinte e um, e apesar de já conhecer a história e por isso não ter surpresas, o sentimento de encanto pelo livro permaneceu.

Os personagens são únicos, desde os avós excêntricos de Sal até a família de Phoebe. Todos têm defeitos, mas de uma forma muito sensível que torna difícil criticar até os mais chatos. Não é o tipo de livro que tem heróis e vilões, o que tem é a vida, no que há de feliz e de triste, de belo e de trágico.

Acho interessante como os personagens de diferentes fases da vida são retratados, sem subestimar os jovens e engrandecer os adultos. A autora dá voz à Sal e valida os seus sentimentos. Os pais não são aqueles que têm todas as respostas, porque, bom, eles realmente não têm todas as respostas e não tem problema nenhum nisso. Há espaço para adultos mais rígidos e conformados e para outros mais sonhadores e brincalhões, sendo que todos cometem um erro ou outro no caminho.

Andar duas luas ganhou a Newberry Medal de 1995, prêmio americano de literatura infantil, e acredito de verdade que mereceu o prêmio. É um livro sobre crescer e sobre família, tratando de temas complicados sempre de forma delicada e sem subestimar o leitor.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.