Amizades do futuro: crônicas de uma habitante da internet


Texto: Lorena Pimentel / Arte: Maríla Pagotto

Eu cresci na internet. Durante a adolescência, principalmente, eu tenho certeza que passei mais tempo interagindo com amigos de outras cidades por comunidades do Orkut e MSN do que interagindo com gente na tal vida real.

Tudo começou com Harry Potter: como a Sofia já falou aqui na Pólen, nossa geração cresceu com fóruns de fãs, fanfictions e toda uma coletividade em torno do que a gente gostava. Eu passava horas nos fansites e fóruns e interagindo com estranhos. A Anna Vitória também já contou a história dela aqui, mas a minha passou desse espaço para outros fandoms, o orkut surgiu e a coisa começou a aumentar.

Antes de perceber, eu estava envolvida em círculos de amigos que eram muito mais parecidos comigo do que as pessoas que eu via todos os dias. Todos os dias eu entrava em um chat do MSN e conversava com gente que nunca tinha visto e jamais veria na vida. A maior parte de nós tinha 13 anos, morava a estados de distância uns dos outros e não existiam smartphones ainda. Mas eles eram meu squad-antes-de-squads serem legais.

A primeira vez que encontrei uma amiga da internet, a mãe dela veio junto (na hora eu estranhei, mas em perspectiva adulta, faz super sentido, né) e a gente ficou desconfortável no shopping comendo pão de queijo. Nada além do que eu fazia toda hora com as amigas da escola, mas teve aquele estranhamento típico de quem acabou de se conhecer – ainda que nos conhecêssemos há meses pela internet em um comunidade de Orkut sobre High School Musical (eu era uma adolescente bem óbvia).

Mas a vida mudou, as tecnologias também e meu vício em interagir pela internet não. Talvez seja só um pequeno reflexo de ser uma pessoa introvertida, mas eu sempre me senti mais confortável com esse tipo de interação. Por comentário em fórum do Orkut, você pode simplesmente deixar lá até alguém responder. Você pode ficar mais em silêncio enquanto seus amigos conversam sobre bobagens ou mandam gifs na janela do MSN. Esse tipo de coisa.

Mas eu gostava e entrava em diversas comunidades das coisas que eu gostava e em algumas delas eu fiz vários amigos, círculos que se coincidiam às vezes.

Enfim, isso faz quase uma década e outro dia parei para pensar sobre. É engraçado porque eu continuo nesse hábito, mas o mundo ao redor parece que começou a aceitar mais as interações pela internet. Na minha adolescência, existiam várias histórias de terror sobre como conhecer alguém na internet sempre daria em sequestro, mas – e claro, perigo sempre existe – eu nunca liguei (não faça isso em casa).

Agora é bem normal e a pletora de redes sociais ajuda a gente a interagir com pessoas ao redor do mundo (sejam amigos da vida real que estejam fora ou aqueles que você nunca viu na vida). E eu tenho a impressão que isso ajuda a mudar o estigma em torno das tais “amizades virtuais”.

Ultimamente (agradeço não só a deus, mas também ao Lollapalooza pela concentração de amigos em SP) eu tive a oportunidade de conhecer na vida real várias pessoas que só conhecia, até então, por pequenos avatares nas redes sociais. Mas, ao contrário daquela tarde aos doze anos na praça de alimentação, nenhuma vez foi estranha. Muito pelo contrário. Hoje já que tenho a chance de ver tudo da vida de alguém pelo que ela posta nas redes, é basicamente igual (às vezes tenho até mais contato) aos amigos que vejo ao vivo. Tem Snapchat por aí que mostra basicamente o dia todo da pessoa e eu, como boa millennial que sou, não poderia gostar mais.

Tem algo de incrível em poder saber o que está rolando na vida do seu amigo sem ter que esperar os pais de vocês irem dormir para ter conversas no MSN sem interrupções. Parte disso veio de crescer, claro, mas também de avanços tecnológicos. Agora a gente consegue interagir o tempo todo.

E acho que isso ajuda a desmitificar também o processo de amizades online. Hoje, quando eu encontro alguém da internet pela primeira vez, eu já sei a cara da pessoa, a história de vida, o nome do gato e a decoração da casa da avó. Mas isso também significa uma proximidade maior e faz com que essa transição da internet pra tal vida real seja muito mais simples.

Outro dia, vi ao vivo pela primeira vez algumas pessoas aqui da Pólen. A gente dividiu piadas internas e eu comentei que adorei o corte de cabelo de uma, virei pra outra e conversei sobre amigos em comum.

Pelo menos para nós, essa “geração perdida que só fica com a cara no celular” não é uma amizade diferente. Muito pelo contrário, é tão forte quanto qualquer outra, só que a gente não consegue se ver toda hora por causa da distância e da rotina. Mas tudo bem, esse futuro tecnológico nos permite muitas coisas e uma delas é ser amigo de quem a gente quiser. Quando é possível, a gente dá um abraço. Quando não, o instagram tá aí pra isso.

Compartilhe:

Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.