‘Americanah’, Chimamanda Adichie


 

Em 2010, uma professora inadvertidamente mudou minha vida ao exibir em sala O perigo da história única, TEDtalk de Chimamanda Adichie. A partir de suas próprias experiências como leitora e escritora, a nigeriana planta diversas dúvidas na cabeça de sua audiência: por que nos parece tão natural que a literatura seja tão branca e tão masculina? Por que nos conformamos com histórias incompletas e superficiais sobre determinados grupos – usualmente os minoritários? Chimamanda mexeu com o jeito com que eu via literatura, me apresentando a tal da representatividade, essa palavrinha bonita cuja discussão felizmente se expande cada dia mais.

Americanah (1)

Ilustração: Marília Pagotto

 

Desde então, passei a enxergar a literatura como a expressão máxima da empatia humana; o exercício de se por no lugar de outrém por tempo o suficiente para se envolver com seus problemas e alegrias, derramando lágrimas entre páginas e suspirando quando elas chegam ao final. Evidentemente, esse processo pode (e às vezes deve) ser doloroso, um puxão para fora da minha zona de conforto, o que justifica os socos no estômago que tomei lendo Americanah – livro da mesma escritora que mudou minha vida com um discurso de 18 minutos.

A história da protagonista guarda semelhanças imensas com a trajetória da autora. Aos dezoito anos, Ifemulu, garota da classe média nigeriana, sai de seu país natal em busca de uma vida melhor. Já nesta premissa Chimamanda subverte as histórias que geralmente associamos ao continente africano: nossa personagem é de classe média, frequentava a universidade e tinha uma boa vida. Mas assim como a maior parte dos jovens nigerianos, a falta de perspectivas para o futuro (o país estava arruinado economicamente) fazem com que ela se arrisque a ir cursar faculdade nos Estados Unidos, onde uma de suas tias já residia.

O sonho americano não chega para Ifemulu: tratada como cidadã de segunda classe pela sua nacionalidade, ela demora a conseguir emprego ou ser aceita por seus colegas. Ifemulu estuda em Michigan, sua tia reside em Nova York; portanto não há muito do suporte familiar que antes lhe era comum. O choque cultural também é gigantesco: na Nigéria, de maior parte da população negra, a cor da pele de Ifemulu não era uma questão; nos Estados Unidos, ela conhece o racismo em suas diversas formas.

Depois de algum tempo, Ifemulu inicia o blog Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (feitas por uma negra não-americana). Nada escapa aos seus olhos: o machismo associado ao racismo, os escorregões de amigos brancos supostamente progressistas, as questões de classe. Através dos anos de Ifemulu nos Estados Unidos, Chimamanda Adichie leva os leitores por situações que podem lhe ser familiares ou por um questionamento desconfortável (porém necessário) dos privilégios de não ser, como Ifemulu, uma imigrante negra sem um tostão.

É difícil classificar Americanah em qualquer gênero literário, mas assim como nos livros coming of age, acompanhamos o crescimento de Ifemulu: seu choque cultural, seus amores, sua incomum jornada de auto-aceitação. Americanah é um daqueles livros que de fato são o exercício máximo da empatia humana, uma leitura nem sempre fácil, mas necessária. Com dezoito minutos de um discurso, Chimamanda Adchie mudou minha vida; com seus livros, arrisco dizer que ela pode mudar o mundo.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.