Amar é romper os limites


Texto: Analu Bussular // Arte: Raquel Thomé

Quando um precisa desesperadamente de um abraço e o outro quer desesperadamente oferecer esse abraço e não existe ainda nenhuma tecnologia capaz de resolver isso em questão de minutos: esse é o limite mais dolorido do relacionamento a distância.

Na hora que eu baixei o Tinder numa cidade que não era a minha só pra “ver qual era” e, quem sabe, dar uns beijos interestaduais, eu não pensei direito no que poderia dar. Afinal de contas, essas histórias de gente que encontra o amor da vida em aplicativos acontecem somente na vida dos outros – e na necessidade do jornalismo de contar histórias bonitinhas. Quando eu comecei a conversar com o garoto mais legal do mundo, saí com ele, me encantei e pouco tempo depois nos declaramos, aí eu já tinha certeza do que isso poderia render – e ele também – e saltamos de cabeça na melhor roubada de nossas vidas porque já não tinha nenhuma escolha a ser feita mesmo.

Eu não gosto de sub-rótulos. Sabe essa história de “mãe-solteira”, “namorado-a-distância”? Acho errado. A mãe é mãe, independentemente de ser solteira. Meu namorado é meu namorado, a gente ainda não morar na mesma cidade não muda a teoria de nada, e na prática a gente tá sempre dando um jeito.

A gente assiste série juntos, com Skype ligado e contando de 1 a 5 para darmos o play na Netflix ao mesmo tempo; a gente se envia presentes pelo correio e marca mais Skype para que um possa ver a reação do outro abrindo; a gente se liga pra contar notícias maiores, sejam elas boas ou ruins; eu ligo quando tô em crise, só pra ele me escutar chorar um bocado e ser minha aeromoça*; ele não liga porque… Bem, até quando entra em crise é bem mais calmo que eu.

“Limites diários do relacionamento à distância”, foi essa a pauta que encontrei ao lado do meu nome na planilha dessa edição (olha ela revelando os bastidores). E aí eu pensei, pensei, pensei, fiquei empolgada de poder escrever sobre o assunto, mas continuei pensando, pensando e pensando e acho que o limite tá mesmo nesses momentos onde só a presença física conseguiria dar conta: o abraço, o cafuné, o beijo e otras cosas más, e possivelmente quem namora alguém que mora no prédio do lado não acredita que exista algo além disso aí, mas olha, existe.

Namorando alguém que mora longe a gente descobre que não podem existir limites pra força de vontade, pra certeza de que a gente quer estar junto e, principalmente, pra comunicação. Nos momentos em que a gente não tem como se encostar e dizer tudo com um carinho, a gente tem que aprender a verbalizar o que a gente nunca imaginou verbalizar na vida. A gente quebra limites pouco a pouco, sabendo falar, sabendo escutar, sabendo se entender e até, quando o calo aperta, chorando juntos e contando os dias pro nosso próximo encontro. Tem funcionado muito bem. Por aqui aprendemos juntos que limite é coisa que o amor quebra, se a gente acreditar nele. E, se vocês querem saber, eu agradeço todos os dias pela não existência de uma tecnologia que simule abraços. Tem coisas que só a presença pode fazer por você, e essa é a graça. Entre um voo e outro a gente ri e chora junto pelo Skype ou pelo whatsapp, lembrando sempre que essa fase é passageira e que o mais importante nós já temos (e tínhamos desde o início).

Meu conselho pra quem conheceu alguém que mora longe e está pensando se namora ou não é: se tiver amor, vontade e confiança, embarque. Deixar de viver a maior aventura da minha vida por medo de morrer de saudade de quando em quando teria sido uma péssima ideia. E, parafraseando o poeta, bom mesmo é morrer de saudade e continuar vivendo. Todos os dias.

*Quando um avião está em turbulência, você olha pra aeromoça tranquila servindo um copo d’água e sabe que tá tudo bem. Encontrar aeromoças pela vida é muito importante.

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

  • Ana Laura

    Que bonito e gostoso foi ler isso. Muita luz e felicidade para vocês 🙂