Amanhã eu escolho um título


Texto: Marília Barros // Arte: Marília Pagotto

Não é raro que, diante de uma tarefa qualquer, eu me encontre fazendo qualquer outra coisa para evitá-la. De repente, até lavar a louça passa a ser mais interessante do que cumprir a tal tarefa. A não ser que a obrigação seja lavar a louça, é claro. Imagino que praticamente todo o mundo já teve que lidar com a procrastinação de uma forma ou de outra.

Na minha experiência, existem vários tipos de procrastinação. A mais básica e indolor é aquela derivada da preguiça. Um exercício da faculdade para segunda-feira será feito no domingo, não na sexta, por causa da preguiça. Nesse caso, nem sempre será um problema. Posso fazer no domingo de manhã, por exemplo, com tempo de sobra para terminá-la. Aqui, o cuidado que precisamos tomar é com os prazos; é muito fácil esquecer a data para pagar as contas por ficar com preguiça de programá-las ou pagá-las antecipadamente. Uma agenda deve dar conta desse tipo de coisa, se você não procrastinar sua própria organização.

A procrastinação mais perigosa para mim é o que chamo de procrastinação ansiosa, que consiste em evitar fazer algo porque se tem medo de encarar a tarefa. Vou deixando para depois as obrigações que me deixam nervosa de algum modo. É comum para mim na faculdade: prefiro evitar ao máximo o sofrimento de começar alguns trabalhos, porque não sei como fazer, vou me sentir insegura com o que escrever, questionando o tempo todo se estou fazendo algo bom ou como não descobriram ainda que sou uma fraude. Não é surpreendente, então, que nos finais de semestre eu me encontre viciada em joguinhos simples, como Tetris e 2048, porque são uma forma de procrastinação rápida.

Nesses casos causados por ansiedade, não costumo me demorar com coisas longas. Assim, em vez de evitar as obrigações lendo um livro ou vendo um filme, porque isso deixaria na cara o quanto estou procrastinando, eu vou passar horas na internet atualizando meu feed ou jogando, com o sentimento de culpa, mas com a esperança de que quem sabe surja uma inspiração repentina que ajude o meu trabalho (spoiler: não, ela normalmente não vem). É interessante notar que às vezes o problema maior é o começo. O difícil é começar a escrever o trabalho, depois a gente percebe que sabe mais do que achava que sabia e ele flui melhor. É bom forçar um pouco esse início: se der, ótimo, se não rolar quem sabe valha a pena mesmo deixar para depois.

Existe também a procrastinação produtiva: para evitar uma tarefa específica, faço outra útil, mas menos necessária no momento: arrumo meu quarto, limpo minha caixa de e-mails, organizo meu material. Qualquer coisa para me sentir mais produtiva sem de fato fazer aquilo que deveria. Essa tática é melhor do que ficar inventando coisas inúteis para fazer, mas é claro que a tal tarefa evitada não será feita sozinha: ela continuará lá mesmo que você cumpra todas as outras obrigações do mundo.

Eu já li bastante sobre procrastinação tentando aprender alguma coisa que solucionasse os meus problemas. Nada me curou completamente – tenho momentos melhores, às vezes algumas recaídas, e tudo depende do assunto e de como estou me sentindo no momento. O que eu sei é que deixar tarefas difíceis para o futuro não as tornará mais fáceis, e ainda trará um sentimento de culpa junto. Nem sempre é o suficiente para me fazer encarar logo o problema, mas acredito que ter consciência dos motivos pelo qual você procrastina já é um primeiro passo.

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Sobre Marília Barros

Marília é paulistana e estuda Letras. Gosta de bibliotecas, de animações e de coelhos. Não é a preguiça da foto, mas bem que gostaria de ser.

  • Fernanda Soares

    Vc acabou de descrever a minha situação com o TCC. Eu sei que tenho que começar a escrever mas tô aqui separando uma referência por dia em vez de separar tudo junto. Acontece.

  • Isadora

    Eu li esse texto como uma forma de procrastinar. Foi bem produtivo.
    infelizmente, minhas prorrogações estão ligadas a ansiedade. Eu tento procrastinar de forma produtiva, mas nem sempre dá certo.

  • Marina

    Eu sofro de uma procrastinação de geminiana, na qual começo diversas tarefas e não termino nenhuma. O tanto de texto que tenho com apenas dois parágrafos não é brincadeira