Allie Brosh, Hyperbole and a half e a minha sanidade


Texto: Mareska Cruz

De vez em quando surge aquela pessoa que te dá a impressão de que, de alguma maneira, consegue colocar em palavras coisas que você não consegue articular com lógica nem mesmo dentro da própria cabeça. No meu caso, essa pessoa é a Allie Brosh.

Sim. A do meme. Sim, essa pessoa do desenho do meme é a autora. O meme é menina. Lidem com isso.

Mas não foi o meme que fez com que eu me apaixonasse pela Allie Brosh. Foi o livro dela, o Hyperbole and a half, publicado aqui no Brasil pela Planeta.

Quando ganhei um exemplar, confesso que não liguei muito, tanto que demorei bastante pra pegar pra ler. Me arrependo dessa demora até hoje. Quantos meses desperdiçados que eu poderia ter usado pra amar a Allie Brosh. Nunca terei esses meses de volta.

O livro, todo ilustrado por ela, conta vários episódios da vida da autora, desde a infância até a vida adulta. Temos a história de quando ela era criança e desafiou a autoridade da mãe, comeu um bolo inteiro e ficou vomitando triunfantemente depois. Conhecemos a maravilhosa cachorra simplória e a meio psicopata cachorra ajudante. Vemos detalhes de quando ela e o namorado foram encurralados dentro da própria casa por um ganso. Mas mesmo essas histórias sendo sensacionais (e confesso ter me tornado levemente obcecada pela história do bolo), o que me pegou de vez foram os textos em que ela comenta sobre coisas como motivação, vida adulta e identidade.

É aí que a Allie Brosh pega seu coração e grita MEU. Porque é aí que ela consegue botar em palavras e quadrinhos aquilo que você prefere morrer a ter que admitir em voz alta.

Foi com a Allie Brosh que eu entendi mais sobre minha mania de auto-sabotagem, por exemplo. Eu não conseguia entender porque eu deixava minhas porcarias chegarem no ponto em que elas chegavam. Agora eu sei, e também sei porque não faço nada pra mudar essa situação.

“A maioria das pessoas consegue motivação para fazer coisas pelo simples fato de que precisam ser feitas. Eu não. Para mim, motivação é esse jogo medonho e assustador no qual eu tento me obrigar a fazer algo enquanto na verdade evito fazê-lo. Se eu ganho, faço alguma coisa que não quero. Se eu perco, estou a um passo mais perto de arruinar minha vida por completo. Até o último segundo, nunca sei se vou ganhar ou perder. (…) Sempre me surpreendo quando perco.”

Ok, eu sei que isso é algo meio desesperador. Se eu sei o que tá errado, por que eu não corrijo? Mas o foco da coisa aqui não é exatamente fazer algo a respeito. Às vezes não dá, sabe. Saber a origem das suas porcarias não significa necessariamente conseguir fazer com que elas deixem de ser porcarias. Elas continuam porcarias tão porcarias quanto antes, mas saber porquê você deixa que elas sejam assim (e saber que não tá sozinha nisso) dá uma sensação meio reconfortante.

Os dois textos sobre identidade foram coisas muito maravilhosas na minha vida, e a maravilhosidade deles pode ser resumida no quadrinho que contém a seguinte frase:

“Como eu posso gostar de mim mesma se todas essas merdas não param de acontecer porque eu as faço?”

Expondo suas teorias sobre identidade, farsas e egos descontroladamente estranhos, Allie Brosh vai cutucando aquelas feridinhas que todo mundo têm, mas se recusa a qualquer custo a admitir. Mas ela admite, e acaba fazendo você admitir também. E descobrir isso tudo é meio que uma mistura de incrível com desesperador, e foi importante na maneira como hoje me entendo por Gente.

E aí eu descobri dois posts do blog dela sobre depressão. E é aquilo que eu mando pras pessoas quando elas querem entender mais ou menos o que é uma pessoa com depressão, ou porque a gente simplesmente não sai dessa pelo poder da força de vontade. Esses dois posts então em inglês e não têm tradução por aí, mas quem puder, leia. Aqui tem o primeiro e aqui tem a segunda parte.

Eu vi boa parte da minha depressão nesses dois posts. Eu vi a Allie Brosh colocando em palavras e quadrinhos os motivos pelos quais coisas cotidianas, como lavar o cabelo, para alguém com depressão, são atividades que precisam sim ser encaradas como uma espécie de vitória pessoal. Aqui um trecho, traduzido meio porcamente, pra vocês terem uma ideia:

“Mas tentar usar força de vontade para superar o tipo de tristeza apática que acompanha a depressão é como uma pessoa sem braços tentar se bater até que suas mãos cresçam de novo. Um componente fundamental desse plano está faltando e isso não vai funcionar.”

Eu tentei descobrir por onde ela anda. O blog não é atualizado há muito tempo, e o mesmo acontece com a página do facebook e o twitter. Cheguei num post que não tenho certeza se tá atualizado, mas pelo Goodreads, aparece que tem um livro a ser lançado ainda esse ano, Solutions and other problems. O lançamento foi adiado algumas vezes, e pelo que entendi, esse adiamento teve a ver exatamente com a depressão dela e com a morte da irmã, em 2013.

Eu queria que a Allie Brosh tivesse uma Allie Brosh na vida dela numa hora dessas. Esses dois posts dela me ajudaram muito – e ainda ajudam. Principalmente pelo final.

Hoje eu consegui sair de casa, falar e interagir com pessoas e lavar o cabelo.

Baby steps.

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