All the lonely people


Lembro nitidamente do dia que a banda larga chegou na minha casa. Eu tinha 11 anos, era sexta-feira, e sem nenhum aviso prévio, quando cheguei da escola, meu pai contou a novidade. O computador chegara alguns anos antes, eu devia ter uns 6 ou 7, e durante todo esse tempo tive que conviver com a realidade torturante de uma internet discada. Era aquela coisa: quando começava a ficar bom, tinha que parar. Não é hora de criança ficar acordada, olha a conta do telefone, não tem nada pra você fazer aí, não precisa de internet pra colorir no paint. Mães, elas nunca entendem.

Mesmo com tão pouco, eu era absolutamente fissurada pela internet. As vizinhas tinham um computador com banda larga em casa – o irmão fazia faculdade de Sistemas de Informação e foi a primeira vez que mexi num Windows XP (achava muito revolucionário os detalhes em azul na interface, me pareciam milhões de vezes mais bonitos que o cinza triste do Windows 98) – e sempre que eu ia pra lá, implorava para mexermos no computador. Elas não viam a mesma graça que eu, então a brincadeira nunca durava tanto quanto eu queria, e na condição de visita eu era sempre a que brincava por último e a que brincava menos.

Às vezes, depois da escola, eu ia pro trabalho do meu pai e lá eu também podia usar a internet livremente. Foi lá que criei meu primeiro e-mail (alguma variação de britneyspears@bol.com.br), entrei pela primeira vez no chat Uol (nada disso que vocês estão pensando) e tentei, inutilmente, brincar no ICQ (não tinha amigos). Se não me engano, foi lá também que criei o meu primeiro blog.

Então, dá pra imaginar a revolução que foi na minha vida quando a banda larga chegou em casa. As possibilidades eram tantas que acho que paralisei por alguns minutos, mais ou menos como acontece até hoje quando entro no Netflix sem nenhuma ideia do que assistir. Passei essa primeira tarde de sexta brincando no Dolls e em todos os sites de doll-maker que eu conhecia. Não tinha ninguém regulando o horário, ninguém pra jogar depois, aquele computador era meu (do meu pai) e o céu era o limite. Acho que meu objetivo era numa tarde só montar todas as possibilidades de look que o site oferecia, pra depois salvar todas as bonecas no Paint e esquecer aquilo pra sempre nos arquivos do computador.

No dia seguinte, chamei minha então melhor amiga para passar a tarde em casa e nosso objetivo era aprender a trocar o layout do Uol Blog. Não sei se vocês são dessa época, mas tinha todo um mistério envolvido. Conseguimos, trocamos o layout dos nossos blogs sei lá quantas vezes na mesma tarde, e enchemos a side bar com todas as tranqueiras que encontramos por aí, de gifs animados da Hello Kitty aos contadores misteriosos daquele site japonês (ou seria coreano?) que era o sonho de consumo de todas as meninas da época.

Alguns dias depois eu já tinha avançado algumas casas na minha vida virtual e já conseguia entender HTML o suficiente pra fazer meus próprios layouts funcionarem a partir de um código base. Aos 11 anos eu já tinha baixado e crackeado um Photoshop, sabia acessar os códigos-fonte dos sites, e era através deles que eu estudava HTML, passava a maior parte dos meus dias em fóruns de blogs, internet e design, e antes dos 13 dois HDs do meu pai foram completamente apagados por razões que a razão desconhece (mas ele tem certeza que eu estava envolvida nos dois casos).

Contei toda essa história pra dizer que desde sempre sou gente da internet. Foi nessa dimensão virtual e abstrata, que ainda é um mistério pra muitos, que eu encontrei minha turma. Apesar de sempre ter tido bons amigos em todas as fases da minha vida (inclusive vários feitos por causa da internet), na internet encontrei pessoas que tinham algo que eu nunca tinha encontrado naqueles que estavam ao meu redor. Interesses específicos e particulares, e uma vontade muito grande de investir uma enorme quantidade de tempo em prêmios que julgavam quem tinha desde o layout até o link button mais bonito.

Na internet encontrei pessoas que gostavam dos mesmos filmes que eu, aqueles empoeirados na locadora que eu tinha a impressão que só eu alugava, e gente que se importava em discutir quem era melhor, Lindsay Lohan ou Hilary Duff. Era um pessoal que se ligava nas mesmas coisas que eu, coisas que na vida real ninguém entendia direito, muito menos achava graça. Eu era fã de bobagens de e-mail, que foram evoluindo para comunidades engraçadas no Orkut, os primeiros virais da internet 1.0 e que hoje se reproduzem em progressão geométrica no Twitter para renascer, com alguns meses de atraso, em memes do Facebook e correntes dos grupos de família no Whatsapp.

Uma vez parei pra pensar em coisas que faziam com que eu me sentisse conectada com o universo, e depois daquelas respostas óbvias e automáticas (mar, shows, viagens de carro), pensei em uma outra. No começo fiquei com vergonha de dizer em voz alta, mas era tão verdadeiro que não resisti: uma das coisas que mais faz com que eu me sinta conectada ao ~universo~ é participar de eventos coletivos no Twitter. Pode ser um episódio de Masterchef, o último capítulo da novela, a festa do Oscar ou jogos de futebol: assistir e comentar aquilo com mais ou menos 730 pessoas (número de pessoas que eu sigo no Twitter) faz com que eu me sinta muito conectada a algo maior.

Parece besteira? Sim. E talvez seja. Mas é real e está ali: num momento, pessoas de diferentes cidades, idades, histórias de vida e profissões param o que estão fazendo pra se concentrar em xingar o mesmo participante de reality show, fazer o maior número possível de piadas de duplo sentido envolvendo linguiça ou ainda postar o primeiro CENAS LAMENTÁVEIS da timeline diante do primeiro sinal de treta no jogo de domingo. São pessoas que um dia pararam pra pensar no emoticon de ovelha do finado MSN, e viram naquilo um humor muito peculiar. A internet sempre foi um lugar em que encontrei ressonância em coisas que por muito tempo eu pensei sozinha, mas olha só o tanto de gente com espírito de porco igual ao meu no mundo, não sou a única a shippar Draco e Gina, olha só que coisa!

Sempre que converso sobre isso com outras pessoas que são gente de internet, os relatos são muito parecidos, principalmente com relação ao início da vida virtual de cada um. O foco de interesse muda, claro – Fulano é da turma do RPG, Ciclana ia atrás de gravações raras do Oasis pra disponibilizar no Kazaa, Beltrano depois da escola era Susaninha no chat do Uol e enganava vários homens, Anna Vitória lia fanfiction e escrevia sobre a própria vida, etc – mas todo mundo encontrou ali uma espécie da casa, ponto de partida, e a vida nunca mais foi a mesma.

Fico pensando no quanto de informação de internet existe na pessoa que me tornei. Se eu não tivesse encontrado outras pessoas que escreviam, talvez nunca tivesse começado a escrever, e aí não teria feito faculdade de jornalismo, não teria o meu blog, não teria conhecido a Milena e a Lorena, e não estaria escrevendo aqui. E tudo isso começou naquela tarde de sexta, ou alguns anos antes, no meu primeiro computador cinza, e a interface triste do Windows 98.

Os adultos adoram dizer que a infância da minha geração foi menos real do que a deles, ralando o joelho e empinando pipa na rua, mas não acho as duas propostas muito diferentes. Os anos passam, as coisas mudam, mas no fundo estamos todos –eu no computador, meu pai na rua de casa, minha avó no passeio público da cidade – tateando o mundo fora do ambiente seguro das nossas casas e de tudo que conhecemos até agora, tentando encontrar ali de fora um pouco mais sobre nós, fazendo coisas que nossos pais nunca vão entender.

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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida – e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.