Alimentando-se de veneno


Texto: Amanda Ariela

Panqueca, ovos mexidos, ovos fritos, torrada de queijo derretido, torta de maçã, torta de ruibarbo, salada, bolo com glacê rosa, bacon frito e arsênico. São esses os ingredientes que Constance Blackwood usa para cozinhar em “Sempre Viveremos no Castelo”, livro de Shirley Jackson, publicado no Brasil pela Suma de Letras.

Narrado pela irmã de Constance, Mary Catherine ou Merricat, para os íntimos, em “Sempre Viveremos no Castelo” nós somos lançados para dentro uma trama surpreendente e cheia de reviravoltas.

A família Blackwood era completa e feliz até que, da noite para o dia, quase todos morreram depois de jantar uma comida que havia sido temperada com uma dose calorosa de arsênico.

Dos Blackwood originais sobraram apenas o Tio Julian, que ficou debilitado por causa do veneno, a menina Merricat – que havia sido posta de castigo e, por isso, não comeu – e Constance, que cozinhava para toda a família e foi acusada do crime, para ser posteriormente absolvida dele.

Na época do assassinato, Merricat tinha apenas 12 anos. Agora, com 18, ela é uma das narradoras mais não-confiáveis que já li. Quando terminei a leitura e voltei ao começo do livro para ler o primeiro parágrafo, me surpreendi ao ser relembrada da idade dela.

Por meio de repetições de pensamentos e de atitudes, uso de palavras como amuletos de proteção contra o mal e o hábito de enterrar objetos por toda propriedade dos Blackwood, Merricat parece bem mais nova do que realmente é.

Como tio Julian não consegue sair de casa e Constance tem medo dos moradores da cidade, quem sai da propriedade dos Blackwood para comprar alimentos é Merricat. A narração da garota sobre os comentários da população e sobre as pequenas sabotagens que eles fazem com ela te deixa com uma raiva sem tamanho.

Ao poucos, o jeito de pensar de Merricat vai se embrenhando dentro de você e é como se você entrasse dentro da pele dela. Quando uma reviravolta acontece no final da narrativa, você se sente traído e bastante assustado com o fato de ter conseguido entender essa personagem. É como se Shirley Jackson estivesse tirando uma da sua cara, mas você curte essas brincadeiras.

As irmãs conseguem estabelecer certo equilíbrio em suas vidas através de uma rotina que deve ser seguida à risca. Esses rituais são jogados por terra com a chegada um parente distante que se instala na propriedade dos Blackwood. Merricat começa a se sentir insegura, irritada e ansiosa com a presença dele e você vai sentindo tudo isso junto.

Além das comidas deliciosas de Constance, Merricat também parece se alimentar de raiva, muita raiva.

O grande mérito de “Sempre Viveremos no Castelo” é a capacidade de descrição da autora. Ela segue direitinho aquela coisa do “show don’t tell”. Não é só dizer que Merricat tem raiva dos moradores da cidade, ela esfrega isso na sua cara até que você esteja sentindo tanto ou mais repulsa do que Merricat.

Com apenas 193 páginas, o livro pode ser lido rapidamente, mas vai permanecer com você por vários dias. Depois que terminei minha leitura, segui pensando na casa dos Blackwood e no final surpreendente do livro. Era só passar um certo tempo que eu logo estava com a cabeça em Merricat e em Jonas, o gato e fiel escudeiro da menina. Demorei para conseguir ler um outro livro depois dessa experiência.

Com reviravoltas e grandes surpresas, “Sempre Viveremos no Castelo” não é um livro que vai te cansar e é uma leitura ótima para aqueles que gostam de livros de mistério e suspense que envolvam comida, muita comida – e arsênico.

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