Alimentando expectativas


Texto: Marília Moreno // Ilustração: Raquel Thomé

Quem aqui sabe como viver sem criar expectativas? Difícil. Eu mesma vivo tentando me controlar. A expectativa está muito colada ao desejo, o que torna sua compreensão bem mais complexa. O problema maior da expectativa é que ela gera dor. Muita dor. Nós vamos lá, sonhamos, intuímos, planejamos, construímos e ainda assim, caímos do cavalo.
Expectativa é sonho que não se sonha dormindo e nem acordado. É quase uma “criação divina” da nossa cabeça desejante. E como fazer para não criar além da conta, para além daquela visualização saudável e saborosa que nos impulsiona para a alegria?
Imagino que, no Ocidente, realmente não sabemos como fazer. Talvez no Oriente, onde muito se fala sobre o desapego do corpo e da alma. Não sei que forma tem, mas vejo a expectativa como um bichinho muito guloso que alimentamos com nossas vontades e apegos. E sim, são vontades e apegos as coisas boas que sonhamos para nós.
Vamos fazer um pequeno exercício. O que você mais quer? Eu, por exemplo, quero tudo! Sim, tudo de melhor que sonho pra mim! Como viver muitas aventuras, ser reconhecida pelo meu trabalho, ser querida por quem me cerca… Praticamente conquistar o mundo. Para isso se concretizar eu faço muitos projetos, me enfio em diversos grupos de pesquisa, amizade, trabalhos… Ou seja, faço tudo e faço nada. Uma ou outra coisa até vai um pouco pra frente. Inicio um dos projetos, invisto um pouco nele, sonho e sonho e sonho com ele dando certo. Eu o vejo em meus braços. Mas ele está dentro de mim. Na hora de vivê-lo na prática, nem sempre dou conta do que planejei ou até mesmo perco o interesse por ele, de tanto empenho que coloquei já imaginando os frutos colhidos que, na realidade, nem plantei. Pronto. Danou-se. Lá se foi uma bela aventura escorrendo pelo ralo.
Agora coloque todo esse empenho em criar, imaginar, “viver” e “ser feliz” que citei acima na sua vida pessoal. Corrigindo, na nossa vida pessoal. Caos. Muito caos. Imaginemos a situação de conhecer uma pessoa bacana em qualquer contexto relacional: amig@, namorad@, ficante, parceir@ de trabalho, etc. Pois muito bem. Conhecemos a pessoa, descobrimos coisas interessantes sobre ela, até vivemos algumas coisas junt@s, brincamos de fazer planos. Até ai, tudo bem, não é mesmo?
Contudo, nunca vamos somente até aí. Logo começamos a imaginar como será no caso da expectativa, como é a nossa vida com aquela presença, como nos relacionamos e conquistamos tudo aquilo que nunca falamos sobre, mas com certeza queremos, imaginamos essa pessoa fazendo parte das nossas dinâmicas, que coisas aconteceriam, o que mudaria, como seríamos felizes… Imaginação, imaginação e mais imaginação. Porque na vida real, essa pessoa já veio, até ficou ou já foi e nos já criamos milhares de experiências que se tornaram emoções e, por consequência, memórias afetivas com alguém que talvez nem esteja lá! E o que fazemos com tudo isso? Inevitavelmente sofremos. Umas pessoas mais, outras menos. Mas sempre sofremos um pouco para arrancar ou esquecer algo que colocamos dentro de nós e alimentamos mais do que deveríamos.
Não que desejar seja algo ruim, muito pelo contrário! Mas entre o desejar e o viver, pode existir um limbo criado por nós e que é bem complicado de limpar.
E pra sair dessa? Não sei! Estou aprendendo como equilibrar o desejo e a imaginação, como não criar expectativas e não me apegar a elas tanto quanto você. E no fim, sempre dá certo.
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