Alerta de spoiler


* Aviso: esse texto, obviamente, contém vários spoilers. Deixei todos em branco, cuidado para não selecionar sem querer *

Spoilers: há quem ame e há quem odeie descobrir o futuro de uma narrativa antes que ela aconteça. O nome, por si só, vem de to spoil (em português: estragar) e traz consigo uma carga negativa. Se é um spoiler, deve estragar a experiência, certo? Mas e os sites de séries que dão as dicas semanas antes? E o liveblogging que os atores dessas séries fazem no twitter? E os fóruns de leitores de sagas de fantasias? A cultura de fãs valoriza os spoilers. Essas informações que “estragam” o desfecho da história para uns são parte da diversão para outros.

Sem contar que a etiqueta em relação aos spoilers ainda é uma linha tênue. Depois de quanto tempo podemos falar abertamente sobre o final de um filme? Se eu escrever aqui que Snape matou o Dumbledore vai ser socialmente aceitável ou eu preciso esperar mais uns anos? Por outro lado, se eu estou olhando tweets sobre minha série favorita, será que é pedir demais não receber spoilers do último episódio? Não existe um acordo sobre quanto tempo depois e quão silenciosamente precisamos falar sobre os finais. 

Do lado de quem se posiciona contra spoilers, surge o argumento que saber o que vai acontecer – ainda mais se for uma grande revelação sobre o final do enredo – faz com que a experiência não seja tão proveitosa. Faz sentido, afinal, porque os plot twists funcionam como quebra do expectativa do leitor ou espectador e saber o que vai acontecer tira um pouco dessa magia.

O The Atlantic explica: nós aproveitamos a ficção quando nos sentirmos imersos na história.  “[Os spoilers] nos lembram que uma história é só uma história. É difícil ser transportado para uma realidade em que você já sabe como tudo vai acabar – nada vida real, você não tem esse conhecimento” diz a psicóloga entrevistada na matéria. Seguindo essa lógica, então, saber o que vai acontecer vai contra a suspensão da descrença.

E como os spoilers podem surgir na vida de quem quer evitá-los? De várias maneiras, na verdade. A razão do lado anti-spoiler ser tão protetor em relação ao conteúdo é que spoilers podem surgir de qualquer lugar.  Tem os spoilers analógicos, ou seja, aqueles que surgem na vida real e os digitais, que a gente encontra na internet.

Fica aqui um exemplo próprio: quando o último livro de Harry Potter saiu, eu não conseguia ler em inglês, nem a maioria dos outros fãs que eu conhecia. Um colega de sala, com o idioma mais avançado, fazia questão de levar sua cópia para a escola e jogar uns spoilers durante a aula. Agora, nem todos os casos são mal intencionados como esse, mas é bem provável que ao comentar um filme ou um livro famoso, talvez uma série de TV renomada, alguém solte uma revelação do enredo sem saber que o interlocutor não sabia ainda. Principalmente se não for algo consagrado na cultura ou não tão recente.

Na internet, a coisa fica ao mesmo tempo mais complexa e mais fácil. Digamos que você não queira saber o que aconteceu no último episódio de How to Get Away With Murder. Ok, você tenta não abrir nenhum fórum de discussão sobre a série e nem críticas em sites especializados.

Mas a internet não é feita só de nichos e, principalmente, quando algo atinge status mainstream, está em todos os lugares. Quando, em Grey’s Anatomy, o Derek morreu a notícia se espalhou pela internet de forma que alguém que estivesse alguns episódios atrás já saberia o grande plot twist. 

Esse post do Gizmodo explica que parte do problema está no fato de que as regras sobre spoilers estão presas no século passado: com o avanço da televisão on demand, serviços de streaming e do uso de computadores para ver TV em geral, nós não estamos mais assistindo as mesmas coisas ao mesmo tempo. “Os fãs igualmente devotos de um programa podem ser do tipo que assiste com alguns dias de atraso ou que vê ao vivo. Por isso a raiva de quem espera mais uns dias.

Outro problema são as redes sociais. Exemplo: a série está passando na TV americana e os fãs estão comentando no twitter. Você, no Brasil, está olhando o feed quando, de repente: spoiler. Às vezes até do próprio twitter da emissora ou do programa e seu elenco. A Stephanie Beatriz, que interpreta a detetive Rosa Díaz em Brooklyn 99, falou ao podcast Call Your Girlfriend: “eu faço live tweeting dos episódios sim. Quem se incomoda pode dar unfollow“. Claro que sempre podemos bloquear alguma palavra ou conteúdo – existem até diversas extensões de navegador para isso – mas é difícil controlar a velocidade com que informações se espalham na internet.

Do lado de quem até gosta de receber spoilers, existe o argumento de que saber o que vai acontecer não estraga a experiência. Aliás, há quem intencionalmente leia spoilers antes de consumir mídia ou então quem leia as últimas frases de um livro antes de começar.

Um ponto que essas pessoas fazem é que saber o que vai acontecer é uma forma de apreciar melhor como a história chega nesses acontecimentos. Um artigo do A.V. Club por exemplo, explica que a cultura anti-spoilers é um fenômeno recente e que alguns gêneros de mídia se baseiam na previsibilidade. Pense em novelas, por exemplo. Até os grandes plot twists são mecanismos narrativos clichês dentro do seu gênero. Tanto que geram até outro conteúdo: as revistas que revelam o futuro da história.

Do lado dos livros, temos pro exemplo os romances policiais. Esses envolvem um suspense, mas não necessariamente o leitor tem que ficar surpreso. Muitas vezes, parte do processo de leitura desse gênero envolve saber o desfecho e apreciar como ele chega.

Outro ponto interessante é que a apreciação de spoilers também serve para quem gosta de analisar conteúdo de forma diferente. Um exemplo recente é Star Wars. Saber que o episódio VII é basicamente uma homenagem/recriação do episódio IV pode estragar a experiência de alguns, mas serve para outros apreciarem a construção da história e dos personagens em questão.

E mesmo aqueles que nem sempre são fãs de spoilers de vez em quando sentem uma hesitação perante um aviso de conteúdo ou uma página marcada com [SPOILER] no título. Aposto que várias pessoas que estão lendo este texto selecionaram as partes que deixei ilegíveis. A curiosidade matou o gato.

Na época que Glee ainda estava no ar, por exemplo, o site Gleek Out Brasil se especializava em fornecer spoilers. A audiência da série comentava, em todas as redes sociais, spoilers sobre o futuro do enredo e o site ficou conhecido então pelas informações exclusivas e bem antecipadas.

Um caso mais recente foi o esquete do Marcelo Adnet no Tá no Ar. Chamado “Lorde of the Ends”, o vídeo conta, em forma de uma paródia de “Royals”, o final de Breaking Bad, de O Despertar da Força, Lost, entre outros. Isso fez um grande sucesso na internet, claro, e muitos (eu inclusa) clicaram no link mesmo sabendo que iam receber spoilers.

A cultura de fãs valoriza spoilers. Em épocas passadas, fãs discutiam o enredo de livros como Harry Potter em fóruns ou compravam revistas que revelavam o final de filmes. Hoje, temos mais meios, mas é inegável que quando juntamos pessoas que gostam do mesmo conteúdo, saber um spoiler te torna ao mesmo tempo mais exclusivo (afinal, em era de redes sociais, a gente quer ler mais sobre tudo e links são infinitos) e mais integrado à comunidade de fã do que você curte. A gente ouve “curiosidade matou o gato”, mas – spoiler – a satisfação o trouxe de volta (é assim que o ditado termina).

Dito tudo isso, qual é a etiqueta em relação a spoilers? Será que basta avisar? Será que a internet está exagerando no anti-apoilers? E como lidamos com programas de TV que surgem, anos depois de seu término, no netflix? Em Gilmore Girls, a Lorelai e o Luke terminam juntos, mas a Rory termina sem boy nenhum indo ser jornalista. Ou livros famosos que já foram publicados há anos? Tipo em Harry Potter, em que o Lupin morre (jamais te perdoarei, JK Rowling). E quando algo existe e faz sucesso em mídias diferentes, como Game of Thrones? Quanto tempo temos que esperar até discutir abertamente o final de um filme antes de alguém do grupo reclamar? Ou será que nunca?

Há quem ame spoilers, há quem odeie, mas de ambas as formas, eles fazem parte da nossa relação com a mídia e são um fenômeno interessante principalmente com redes sociais e o hábito de liveblogging. Só termino este texto te pedindo uma coisa: não importa como você se sinta sobre os spoilers, não seja como o cara que revelava a história no meio da aula. Por favor pergunte ou avise antes de contar qualquer coisa.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.