Além do “não”: a literatura feminina no Brasil durante os anos de ditadura #SemanaDosLivrosBanidos


Texto: Amanda Tracera

“Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada”. Essa é uma das frases de Cassandra Rios (1932-2002), dita por um de seus parentes no dia do seu enterro, e que ilustra muito bem a sua escrita e a sua personalidade forte. Escritora desde muito jovem, assumidamente lésbica, com textos que apresentavam cenas sexuais explícitas e entre casais homossexuais, Cassandra foi um nome importante da literatura brasileira, não necessariamente pela qualidade da sua obra, mas pelo conteúdo e pelo sucesso.

Escreveu o seu primeiro conto aos doze anos, e o seu primeiro livro – Volúpia do Pecado – foi publicado quando ela completou dezesseis. Sua obra foi instantaneamente um sucesso: em linguagem simples, Cassandra Rios falava sobre o prazer feminino em obras claras e que atingiam o público brasileiro da maneira certa – se pelo tema ou pela escrita, é difícil determinar com certeza. Foi a primeira autora brasileira a vender mais de um milhão de livros e escreveu cerca de quarenta best-sellers, batendo a marca de trezentos mil exemplares vendidos a cada novo livro publicado quando já estava mais próxima do final da carreira. Além disso, uma das suas obras, A Paranoica, foi adaptado para o cinema sob o título de “Ariella”.

Apesar de ser claramente uma autora querida pelo público – especialmente pelas massas, embora tenha conquistado o carinho de escritores apaludidos, como Jorge Amado – e com um sucesso inegável, foi também a mulher mais censurada pelo regime militar brasileiro, que proibiu trinta e quatro dos seus livros sob a acusação de serem “pervertidos” e “imorais”. Para “escapar” da repressão, escreveu outros romances sob os pseudônimos masculinos “Clarence Rivier” e “Oliver Rivers”, dessa vez com protagonistas heterossexuais. A eles, não houve censura.

O simbolismo por trás da atitude de interditar os romances de Cassandra é muito claro: o grande problema não é ler sobre sexo, mas saber que a figura feminina não só é a personagem principal das histórias, como também não precisa de um homem para sentir prazer. Negar a circulação de livros como os que ela escrevia era, afinal, apagar ainda mais grupos que sempre foram marginalizados, mantendo o pensamento hétero e patriarcal da época de que o lugar da mulher é dentro de casa, servindo ao homem e tendo filhos, e que a relação entre dois gêneros iguais é abominável e, em linhas gerais, ilegal.

Mesmo hoje, numa sociedade teoricamente menos machista e homofóbica, a literatura erótica produzida por mulheres é vista com maus olhos, independentemente do conteúdo real dos livros. Durante o boom que aconteceu em 2012 e 2013, quando os livros “pornográficos” foram não só muito produzidos mas abertamente comercializados (graças ao sucesso de Cinquenta Tons de Cinza), os comentários sobre eles variavam entre o gosto literário ruim de quem os comprava e a problemática de existir tanta gente comprando. Paralelamente, havia um público majoritariamente feminino que, finalmente, tinha um objeto de leitura que abordava temas antes considerados tabus, quase nunca discutidos publicamente. E isso sem nenhuma ditadura para censurar qualquer coisa.

Não é necessário entrar no mérito da qualidade dos livros, mas é importante levar em consideração que uma obra erótica assinada por uma mulher é sempre vista como uma afronta maior do que quando assinada por um homem, e é ingênuo acreditar que isso acontece necessariamente porque eles escrevem melhor (sempre). Caio Fernando Abreu e Nelson Rodrigues são dois autores famosos por abordar temas polêmicos, mas não só não venderam tanto quanto Cassandra Rios, como também desconhecem a censura quase absoluta das suas obras. Um homem escrevendo sobre as relações amorosas que teve é só mais um homem, enquanto uma mulher fazendo o mesmo é, de maneira geral, desmoralizada dentro dos contextos sociais mais diversos.

É difícil enxergar a parcela feminina da sociedade como capaz de produzir algo, e essa é uma realidade que existe há muito tempo. Reconhecer o trabalho de uma mulher como de qualidade e importante é, por consequência, um ato praticamente impossível de se observar acontecendo, mesmo na sociedade atual. Entretanto, nós existimos. Fazemos coisas. Somos boas nelas. Merecemos ter a nossa voz ouvida e o nosso trabalho visto e aplaudido.

Cassandra costumava reclamar sobre as pessoas dizendo que ela era a personagem dos seus livros, porque isso sugeria que ela era incapaz de criar histórias originais; incapaz de ser, portanto, o que de fato era: escritora. Não cabe a ninguém além de nós mesmas determinar o que podemos ou não fazer. Portanto, produzamos, escrevamos, façamos barulho e nos imponhamos diante de uma sociedade e uma cultura que nos apaga e nos ignora. Lutemos. Talvez pareça em vão durante muito tempo, talvez não seja fácil enxergar as influências que estamos nos tornando, pouco a pouco, mas elas estão lá. Cassandra Rios é um exemplo. Sejamos outros.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.