Além da voz: a importância da LIBRAS


Texto: Amanda Tracera // Arte: Bianca Albino

O ser humano é um ser social, nós bem sabemos, e ao longo dos anos a comunicação tem sido não só uma das nossas habilidades mais essenciais, mas também uma das mais requisitadas – é importante que saibamos entrar em contato com os outros, atingir públicos cada vez maiores, encontrar apoio em esferas cada vez mais abrangentes. E para isso usamos, é claro, a linguagem. E numa época em que tempo é dinheiro e os longos textos foram substituídos por frases de efeito, a linguagem oral tem sido ainda mais valorizada.

Ainda assim, uma parcela considerável da população parece não ser o foco da nossa atenção durante o processo comunicativo. Entre uma palavra e outra, ignoramos todos aqueles que não utilizam o som para se expressar, mas os gestos. Numa língua completamente própria e tão completa quanto qualquer outra, os falantes da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) muitas vezes não são contemplados em contextos comuns de comunicação diária, seja ao pedir uma informação na rua, seja ao tentar assistir a um programa televisivo que não possui transcrição.

Isso se deve, principalmente, a falta de informação que cerca a LIBRAS e as suas peculiaridades. Não conversamos sobre isso na escola, nas Universidades, nos grandes centros de comunicação, e, embora reconheçamos a sua importância, estamos muito comumente afastados de situações em que conhecê-la é não apenas interessante, mas essencial. Assim, nós da Pólen resolvemos conversar com a professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo, Cássia Sofiato, para entender um pouco mais sobre a Língua Brasileira de Sinais, bem como sobre as pesquisas na área, seus usos na educação, etc.

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PÓLEN: Qual foi o seu primeiro contato com LIBRAS? Por que decidiu estudar essa língua? Como é estudá-la? Conte um pouco sobre a sua pesquisa.

CÁSSIA SOFIATO: O meu primeiro contato com a língua brasileira de sinais foi por meio de um curso que participei para o ensino de tal língua na década de 1980. Eu recebi um convite de uma amiga para participar. Esse curso foi ministrado por uma professora surda e este foi um aspecto muito significativo para mim. Como eu nunca antes tinha tido contato com essa realidade, conhecer uma professora surda e me aproximar da educação de surdos abriu um novo horizonte. Foi uma experiência muito prazerosa e ao mesmo tempo instigante, pois a partir deste curso comecei a me interessar pelo trabalho escolar e fui procurar escolas de educação de surdos na época. Como eu havia acabado de me formar no curso de magistério, comecei a procurar trabalho nessa área e coincidentemente, uma das escolas que visitei estava em busca de um professor para a educação básica. Aí começou a minha atuação profissional, que depois foi incrementada com a minha entrada no curso de graduação em Educação Especial na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Hoje sou docente e pesquisadora na Universidade de São Paulo e trabalho com pesquisas na área de Educação Especial, educação de surdos e Libras. Também faz parte de meu interesse discutir a questão da Arte e educação de surdos.

P: Você tem um grupo para ensinar professores de escolas públicas e outros educadores a trabalharem com LIBRAS em sala de aula. Pode nos contar um pouco sobre ele? Como essa iniciativa começou? O que ela trouxe de mais positivo? Você encontrou muitas dificuldades? Houve algo negativo?

CS: Eu tenho um grupo de estudos na Faculdade de Educação intitulado Grupo de Estudos Libras em Questão (Geslique). Esse grupo começou em função de uma solicitação de ex-alunos da disciplina de Libras, ministrada no ano de 2012. Quando eu encerrei a disciplina os alunos manifestaram interesse em continuar estudando Libras e outras questões relacionadas à educação de surdos. Fizemos a primeira reunião e a partir do segundo encontro começamos a convidar pessoas da área para socializar pesquisas. O grupo tem esse formato até hoje e atrai cada vez mais participantes. Geralmente os participantes são estudantes da Faculdade de Educação da USP e de outras instituições de ensino superior, professores da rede pública de ensino e outros profissionais. Atualmente fazemos reuniões mensais e as discussões englobam vários assuntos da área da educação de surdos, tais como educação bilíngue, bilinguismo, aquisição de línguas, entre outros. O que destaco como positivo é a troca de experiências e a possibilidade de conhecer pessoas envolvidas com essas questões em outros espaços. Não tenho encontrado dificuldades para a realização dos encontros, mas por vezes, temos que alterar o cronograma em função de outras atividades que também desenvolvo na universidade. Gostaria de trazer mais pesquisadores de outros estados, mas a falta de recursos financeiros é um fator limitante.

P: Você acha que o ensino de LIBRAS deveria ser obrigatório? Por quê? O que acha que é o mais difícil quando alguém precisa aprender a língua brasileira de sinais?

CS: O ensino de Libras tornou-se obrigatório no ensino superior (cursos de formação de professores e Fonoaudiologia) por meio do decreto-Lei n. 5626 de 2005. Foi uma importante conquista, tendo em vista a inserção dos alunos surdos na escola inclusiva e consequentemente em níveis mais avançados de escolaridade. Não vou entrar no mérito da oferta da disciplina de Libras, pois esse assunto demanda aprofundamento, mas ainda é preciso dimensionar outras ações em relação à educação básica, tornar a Libras mais presente dentro do espaço escolar. Quando uma pessoa aprende Libras podem surgir dificuldades ou não, como em qualquer outra língua. Um aspecto que chama a minha atenção quando ministro a disciplina de Libras é que muitos alunos não atentam para a necessidade de estudar a língua, rever os sinais e conteúdos sistematizados. O aprendizado de Libras exige dedicação e uso constante, assim como qualquer outro idioma quando estudado. Pelo fato de ser uma língua espaço-visual às vezes pode parecer de mais fácil aquisição, sem necessitar de um empenho mais preciso, e isso é um equívoco.

P: Assim como as demais línguas, a LIBRAS também possui fenômenos de variação? Se sim, eles são estudados? Como um falante dessa língua poderia se adaptar a esses fenômenos, se for inserido em um contexto onde eles acontecem?

CS: A língua brasileira de sinais possui os mesmos níveis linguísticos presentes nas línguas orais. Nesse sentido, também apresenta características especificas. Cada país possui a sua própria língua de sinais, mas existe uma língua de sinais internacional, denominada Gestuno. No caso do Brasil, a nossa língua de sinais apresenta algumas variações regionais. Essas variações ocorrem, geralmente, em nível lexical; são criados sinais diferentes para um mesmo referente, para exemplificar. Entretanto, quando estudamos a língua é natural que aprendamos essas variações no contato com os usuários ou por meio de dicionários de Libras que são muito utilizados atualmente, que podem ser impressos ou em forma de aplicativos. É muito comum nos depararmos com essa situação e penso que temos que estar sempre abertos para a aquisição de novos sinais, expressões idiomáticas, independentemente da sua região de origem.

P: Nós sabemos que LIBRAS é uma língua completamente única, e que em outros países a comunicação através dos sinais se estrutura de maneira completamente diferente. Como isso acontece? Digo, como essas diferentes línguas se desenvolvem e são usadas diariamente?

CS: Cada país tem a sua própria língua de sinais que se desenvolve de acordo com cada cultura e sua dinamicidade dentro da comunidade surda. Empréstimos lexicais entre as línguas de sinais são comuns, principalmente das línguas de sinais mais antigas, consolidadas. Porém, é importante salientar que no Brasil existe a constante incorporação de novos sinais a partir de sua elaboração e legitimação pela comunidade surda. Este aspecto tem se tornado cada mais efetivo, a partir de diferentes demandas que surgem da educação de surdos em todos os níveis de ensino. Atualmente cada vez mais os surdos brasileiros e também ouvintes se interessam pelo aprendizado de outras línguas de sinais. Esse interesse é potente, pois oportuniza conhecermos mais línguas e suas formas de manifestação e, consequentemente, outras vertentes culturais marcadas pela experiência visual, comum a todos os surdos.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.