Acabou


Palmas das mãos suadas, muito suadas. Não importa o quanto eu seque no tecido da saia, elas continuam molhadas e frias e pegajosas. As marcas úmidas dos meus dedos já estão impressas na roupa, então minha nova toalha começou a ser o tecido verde escuro e áspero da poltrona. Queria ir até o banheiro e pegar um papel, assim eu podia secar as mãos e me concentrar em outra coisa, mas em poucos minutos ele viraria um nada e eu estaria nadando em um mar de papel picado. Na verdade, eu não conseguiria nem ir até o banheiro, porque eu não consigo me mexer. Exceto pela minha respiração de quem acaba de correr uma maratona. Estou hiperventilando. Meus músculos esqueceram como se funciona e eu estou me sentindo uma planta colada aqui, tão imóvel que algumas pessoas que passam se assustam ao notar a minha presença.

Já perdi a conta de quantas pessoas passaram me cumprimentando e eu ignorei, porque eu não consigo. Não consigo lidar agora. Se eu tentar responder, eu vou cair no choro. Se eu mexer um músculo, vou sair correndo e me esconder embaixo de uma mesa. Eu tenho que ficar aqui, o mais imóvel possível, e tentar acalmar o barulho dos meus batimentos cardíacos que está abafando todos os outros sons do ambiente.

Eu sabia, quando acordei, que o dia de hoje seria horrível. Meus chinelos não estavam no lugar que deveriam e os filtros de café tinham acabado. O mundo estava obviamente todo errado, porque eu nunca esqueço de comprar os filtros de café.

Então eu cheguei no escritório e recebi de cara a notícia de que o chefe precisava falar comigo. Eu estava obviamente ferrada. Fodida. Divorciada, cheia de dívidas, com um aluguel e contas para pagar. Sozinha. Eu vou parar na rua, eu vou morar com aquele mendigo que dorme na marquise do prédio do lado do meu, eu vou ser uma daquelas pessoas que você vê na rua e se pergunta “como ela veio parar aqui?”. Minha conta está no negativo, eu não tenho amigos de verdade desde a escola, minha família mora em outro estado e vive do meu dinheiro, meu marido me largou porque tinha outra família e eu vou perder meu emprego. Vou perder meu emprego e não vou ter onde morar, porque sem emprego eu não consigo pagar o aluguel e se eu não pagar o aluguel eles vão me despejar e então eu vou ter que morar na rua.

– Você tem certeza que não está passando mal? Não quer que eu pegue uma água? – a secretária do chefe vem perguntar pela quinta vez e parece realmente preocupada.

Ela é uma boa pessoa. Sempre foi simpática. Talvez se eu não fosse tão horrivelmente desagradável, nós pudéssemos ser amigas e ela me deixaria dormir no sofá dela depois que eu for despejada, até eu arrumar um outro emprego. Mas quem vai querer contratar uma mulher de quarenta e três anos sem nada de especial no currículo e quase sem experiência. Eu estou fodida, eu vou ser uma daquelas histórias tristes que passam na sessão da tarde, ou um número na estatística do suicídio, porque no minuto em que ele disser que eu estou despedida, minha vida acabou.

Todo mundo está me olhando. Eles estão com pena de mim porque sabem que eu vou ser despedida. Quem é essa pessoa que está respirando tão alto? Ela está obviamente sufocando, porque ninguém faz nada? Eu preciso fazer alguma coisa, mas não consigo me mexer. E meu coração parece que vai explodir a qualquer momento. O som está tão alto que eu quero gritar. Que eu quero chorar, mas se eu começar a chorar agora e não vou parar nunca mais e não vou nem esperar sair na rua pra terminar o serviço, vou levantar e correr até aquela janela que sempre fica aberta mesmo com o ar condicionado ligado. Porque eu vou perder meu emprego e vou passar fome e morar na rua e minha vida vai acabar. Agora. A qualquer minuto. Cada segundo que se passa é um segundo a menos de vida. Meu peito está doendo de verdade, eu não consigo respirar. Meus pés estão com muito, muito frio e eu vou perder meu emprego e não vou conseguir pagar as minhas dívidas e vou ser despejada e

– Tânia, pode entrar que o chefe vai falar com você agora.

 

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada por profissão, leitora e escritora porque sim. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos. Já varou muito essa internet até parar, por ora, no Vizinha da Capitu.

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  • Letícia Bandeira N.

    Quase que sufoquei junto, hahaha.