Abrir os olhos e destorcer o nariz


Texto: Taissa Reis

Eu sempre torci o nariz pra poesia. O que a gente aprende sobre poesia na escola (ou o que eu aprendi, pelo menos) é contar sílabas e que tudo tem uma estrutura fixa, e é quase tudo sobre amor ou morte – às vezes sobre as duas coisas juntas. O único cara que me foi apresentado por quem eu me interessei foi Augusto dos Anjos, mas provavelmente porque eu estava passando por uma fase bem emogótica e dava pra ver um reflexo das minhas emogoticices no trabalho dele. Mas também não passei de pegar um livro na biblioteca e ler umas 10 páginas, só, porque eu não tinha chegado nesse nível dele de questionamentos sobre a vida.

Arte não comercial sempre foi um campo que eu deixei muito de lado, então nunca fui além do que era ensinado ali nas aulas de literatura e artes. Mas a gente vai crescendo e ficando mais aberto às coisas, e às vezes o mundo nos entrega de bandeja o ponto de entrada para uma porta em que nunca imaginamos querer entrar.

Em abril do ano passado, eu estava vivendo um relacionamento complexo e não via muito como sair daquela posição. Eis que a Rainha do Mundo, Beyoncé Knowles (nunca vai ser Carter pra mim. Ela superou e eu respeito, mas eu não superei, desculpa), nos presenteia com uma das coisas mais lindas do mundo, que é o álbum visual Lemonade. Depois de ver a primeira vez chorando em praticamente todas as músicas (olá, don’t hurt yourself), fui ver de novo prestando atenção naqueles interlúdios, pesquisei sobre eles e descobri que eram poemas de uma artista chamada Warsan Shire. Eu já tinha ouvido falar em spoken word  (forma de arte que mistura literatura e performance, geralmente sendo declamados poemas ou letras de música de forma artística) e poemas de formas mais livres, mas nunca tinha tido um contato tão visceral com uma poesia quanto com aquelas palavras. A vida tinha outros planos pro meu 2016 que não envolveram me jogar na poesia, mas a abertura tava ali, só esperando um pouquinho de espaço para crescer.

 

 

In love and in war

To my daughter I will say

‘when the men come, set yourself on fire’

– warsan shire, teaching my mother how to give birth

 

Também no ano passado, ouvi falar muito de uma mulher chamada Rupi Kaur e seu livro milk and honey, que se tornou uma sensação com sua poesia crua e forte, como a da Warsan Shire. Minhas anteninhas se ligaram e fiquei com essa informação guardada. Esse ano, a editora Planeta de Livros lançou a versão nacional de milk and honey, com o título outros jeitos de usar a boca (que é parte de outro poema do livro, assim como o título em inglês), e eu não sosseguei até conseguir comprar meu exemplar, determinada a devorá-lo assim que chegasse. E foi exatamente a catarse que eu tinha ouvido tanto minhas amigas que amam poesia descreverem quando falavam daquelas autoras favoritas com quem nunca consegui estabelecer uma conexão.

 

as pessoas vão

mas como

elas foram

sempre fica

– rupi kaur, outros jeitos de usar a boca

(trad. ana guadalupe)

 

Eu não sabia que a poesia podia tocar em tantos pontos certos ao mesmo tempo com tão poucas palavras, e fazer uma revolução tão grande dentro de mim (“você estava tão distante / que esqueci que você estava lá”, da rupi kaur). Daí fui direto comprar Teaching my mother how to give birth, da Warsan Shire, que é uma aula de como contar histórias da sua família e exaltar mulheres, assinei uma newsletter indicada por Vic, que ainda me manda alguns poemas lindos de vez em quando. Percebi que o que fala comigo, o que me faz sentir, é a poesia escrita por mulheres, então já fiz uma mini-lista de autoras nacionais e estrangeiras, mas tô sempre aceitando novos nomes, novas ideias e novos olhares (e super estou usando o #LerAlém para descobrir mais coisas).

 

foto: christian richter

When We Last Saw Your Father

He was sitting in the hospital parking lot

in a borrowed car, counting the windows

of the building, guessing which one

was glowing with his mistake.

– warsan shire, teaching my mother how to give birth

 

Através de uma experiência pessoal e uma obra comercial (o que é mais comercial que Beyoncé?), o que eu via como um espaço estranho acabou me aceitando de braços abertos, e eu finalmente estou conseguindo transitar por ele sem tanto medo.

Talvez seja amadurecimento, talvez sejam as porradas que a vida dá na gente. Mas o ponto é que agora consegui encontrar uma estrada pra me conduzir por esse mundo maravilhoso da poesia e vou aproveitar cada passo dado devagar, tanto para conhecer bem o caminho, quanto para me conhecer melhor.

 

 

Taissa Reis é agente literária na Agência Página 7, tradutora, copidesque e mestre dos GIFs.

 

 

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