Abrindo espaço com guitarras


Texto: Rúvila Magalhães Avelino

Há uns seis meses eu faço aula de violão. Todo sábado coloco meu instrumento na bolsa apropriada, coloco a bolsa nas costas e ando alguns quarteirões para chegar na escola de música. Nesse trajeto de cinco minutos andando sempre encontro um conhecido ou vizinho que pergunta “mas você toca violão mesmo?”.

A minha presença nesse espaço é sempre questionada.

Respondo, entre sorrisos mal-humorados, “sim, estou aprendendo” porque não sou confiante o bastante para falar “sim, eu toco”. Também já fui questionada sobre qual tipo de música eu gosto de tocar. A reação é sempre de susto quando falo de rock.

A escola de música estava passando por uma reforma na fachada. O pedreiro e o ajudante estavam conversando no portão enquanto eu esperava meu professor descer para abrir para mim. Um deles falou para o outro “eu sempre levei meu filho para trabalhar comigo, para ele não ficar em casa escutando música, tenho pavor desses raps e rocks aí”. A resposta foi algo elogiando a preocupação do homem com o filho e comentando como essa geração de agora “tá perdida”.

Nesse momento eu fiquei um pouco desconsertada, pensando que eu era o exemplo vivo de “geração perdida”: a mulher que faz aula de música. Eles começaram o assunto porque eu cheguei ali naquele momento e tenho quase certeza que eles esperavam que eu ouvisse esse diálogo porque não diminuíram o tom de voz ou tentaram esconder a conversa. Era a opinião deles e a errada sou eu.

Também já perguntei para o meu professor se ele dava aulas para muitas mulheres e ele me contou que, além de mim, só mais uma moça, que estava aprendendo violão para tocar na Igreja, mas ele tem pelo menos mais 20 alunos, todos homens. No grupo do Whatsapp da escola, com mais de 200 membros, perguntei se alguma mulher que fazia aula de violão gostaria de ensaiar comigo. Fiquei sem resposta.

Não penso nem de longe em ser uma grande artista, nem nada disso, só quero aprender a tocar algumas músicas que eu gosto em casa mesmo e já fui vítima de muito questionamento, olhares tortos e chamada de geração perdida. Não estou reivindicando meu Espaço na Música, estou apenas exercendo uma liberdade individual de pagar para aprender a tocar um instrumento.  

Quando eu penso em tudo isso, é impossível não pensar nas mulheres que vieram antes de mim e fizeram carreira na música. Em especial, gosto de pensar no movimento Riot Grrrl. Essa cena foi levantada principalmente por universitárias da cidade de Olympia (EUA)  no início dos anos 90. Eram mulheres que queriam ir em shows de punk rock sem sofrer nenhum tipo de violência física ou moral. Qual foi a solução delas? Construir seu próprio espaço seguro.

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“Girls to the front” (garotas para a frente) era um dos lemas dessa cena. Era feita por mulheres e para mulheres. O ambiente precisava ser seguro e elas precisavam necessariamente sentir acolhimento nos espaços em que os shows eram realizados. Além da música, o movimento Riot Grrrl foi um momento de reflexão e produção cultural feminista. A troca de conhecimentos, conscientização das mulheres sobre seus direitos, produção de zines e, claro, a música buscava unir as mulheres para lutarem pelo seu espaço e voz.

E o terreno foi fértil. Desta cena surgiram bandas de punk rock incríveis que vocês pode conhecer pesquisando por Bikini Kill, Bratmobile, Heavens to Betsy, Excuse 17, Sleater-Kinney e muitas outras.

 

 Rúvila Magalhães Avelino escreve sobre música no Killian’s Blog e quer ser seu Joey Ramone.

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