A Voz das Musas


Texto: Lara Matos

Na mitologia grega, as musas são nove: Calíope, Clio, Euterpe, Erato, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia. Nove mulheres agindo na cabeça dos artistas para lhes levar o gênio, porém nunca falando por si mesmas, carregando instrumentos pesados, mas sempre mantendo graciosidade em vestidos leves.

Esta imagem feminina da mulher como objeto de criação ou portadora de um cenário para que um homem possa criar perpetuou-se ao longo dos séculos, e a arte feita por mulheres, qualquer que seja ela, é relegada a um plano inferior, porque os homens ditam o que é artístico e deve aderir ao cânone; vez ou outra alguma mulher por acaso ascende a este estrato superior. Por este motivo, tantas artistas de obras célebres escolhem ser apócrifas, usando pseudônimos ou, na maior parte das vezes na história sendo “Anônimo”, como apontou Virginia Woolf.

Em “Destinos e Fúrias”, uma das melhores leituras que fiz este ano, Mathilde, uma das partes de um casamento que parece perfeito, apara os textos de seu marido Lancelott (inclusive de sua primeira peça de teatro), e constrói sua carreira fazendo com que eles sejam adequados à representação; contudo, seu trabalho de gestão do marido e de editora incansável é posto a escanteio para que ele, Lotto, possa brilhar como o dramaturgo genial. Mathilde engole sua fúria diante desta injustiça (dentre outras tantas) com seus modos fleumáticos e sua brandura extrema, marca de uma mulher que aprendeu que o externo sereno é a melhor forma de exercer poder sobre os outros.

“A HISTÓRIA DAS MULHERES É A HISTÓRIA DO AMOR, DE SE FUNDIR AO OUTRO […] COMO O MILHO É ENFIADO GOELA ABAIXO NOS GANSOS, AS MULHERES ENGOLIAM ESTA MERDA DESDE QUE MAL TINHAM IDADE PARA USAR TULE […] COMO CONTA A VELHA HISTÓRIA, A MULHER PRECISA DO OUTRO PARA COMPLETAR SEUS CIRCUITOS, PARA ACENDER SEU ARDOR AO MÁXIMO”

Desde muito cedo, somos socializadas para evitar sermos o centro das atenções por motivos que não sejam intrinsecamente relacionados a nossa beleza e graça, bem como as musas da antiguidade clássica. Meninas devem ser bonitas, e só pontualmente dizerem coisas interessantes, e viver para completar seus respectivos pares. Nada de saberes enciclopédicos ou talentos extremados. O gênio é para os homens, e o sucesso mítico também. Somos musas, entes menores e pajeamos.

Assim, nosso trabalho e o sucesso dele advindo é jogado a escanteio, e se acaso ousemos celebrar, somos arrogantes, cheias de vaidade e empáfia que em um homem são considerados apenas como autoconfiança e autoestima elevadas. E todos sabemos que mulheres devem ser humildes para que um homem possa brilhar no lugar dela. Quando muito, ser equiparada. Um exemplo fora das artes é o casal Curie que deveu suas maiores glórias na ciência à figura de Marie, mas quantas vezes vimos menção ao “casal Curie” no lugar de Marie, cientista brilhante, única ganhadora de Nobel em duas categorias?

Textos excelentes como “A Esposa do Artista” tocam neste ponto. O que elas, as mulheres coadjuvantes, cuidadoras mudas, têm a dizer? Muito. Eu nunca fui “mulher de artista”, talvez porque meu ego e meu próprio fazer poético já não permitam isto. Sou muito rígida com técnicas, escritas e significados. Mas é incrível descobrir como muitas vezes a namorada, esposa ou companheira de fulano escreve muito melhor que ele próprio, mas guarda suas palavras do mundo, porque o homem, seu homem, é quem deve estar sobre os holofotes.

Muito do que escrevo advém desta fúria, do que uma mulher fala (escreve, pinta, fotografa, canta, etc.) valer muito menos que um homem por ser uma mulher que o diz. O caso mais recente e bem ilustrado são as comparações feitas entre Elena Ferrante e Karl Ove Knausgaard: ambos escrevem uma prosa dos dias comuns, memorialista, mas ela teve que adotar um pseudônimo para que se reconhecesse seu valor literário; recentemente revelada sua identidade real, a unanimidade anterior começou a ser criticada por ser inverossímil e ter defeitos textuais que nunca foram notados enquanto incógnita; é apenas o fato de Ferrante ser concretamente uma mulher incomodando e jogando luz no machismo tão presente no meio literário.

E não apenas na literatura que isso acontece: no filme Hedwig and The Angry Inch* (2001), a personagem-título termina agradecendo a todas as mulheres que fizeram história no rock: Patti Smith, Nico, Janis Joplin, dentre outras. É um filme para mulheres, porque Hansel, transsexual, descobre sua identidade feminina e o peso que isto tem nas artes ao longo de todo o filme.

O mais legal de tudo é o desenvolvimento de uma rede de acontecimentos: a figura da companheira da personagem principal, Yitzhak**, é oprimida por Hediwg por ter muito mais talento que ela mesma, o que leva esta a impor a cruel condição de que para viverem lado a lado: Yitzhak deve nunca mais se apresentar como a incrivelmente talentosa drag queen que costumava ser.

O exaurimento desta constatação vem quando suas composições fazem sucesso ao serem usurpadas e interpretadas por um artista, Tommy Gnosis, que ELA, Hedwig, criou e deu a marca da cruz na testa, mas que a trai e fica com todos os louros, sem crédito ou direitos, o que também gera, ao longo de um amadurecimento da personalidade de Hedwig, à redenção perante a figura de seu atual companheiro, Yitzhak. A elevada rejeição ao feminino e como a mesma coisa dita por um homem e uma mulher-no caso, a mesma letra de música-pode ser a diferença entre sucesso estrondoso ou fracasso total. “The Origin Of Love” (mais conhecida pelo cover de Rufus Wainwright), se cantada por uma mulher é vista como piegas; já por um homem, como sensível e acurada.

Assim, a macroestrutura de como ser mulher é quase sempre ser ignorada e silenciada fica ilustrada neste filme em pontos claros e que termina de modo belíssimo com o agradecimento a mulheres que fizeram boa música mas tantas vezes foram ofuscadas pelos “mitos” masculinos.

Mas damos o troco, em palavras e acordes e traços: seguimos fazendo boa arte, compartilhando e aparecendo pelas brechas; “pela escuridão se sabe da luz”. Não esqueçamos que de menor em menor se faz enorme.

*originalmente um musical off-Broadway, que adivinhem: tinha Hedwig como coadjuvante na história de Tommy Gnosis. Ótima decisão contarem a história, no filme, do ponto de vista de Hedwig.

**interpretada no musical geralmente por uma mulher, talvez como reforço à vulnerabilidade do personagem

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.