A verdade tem sempre três lados…


… o meu, o seu e o que de fato aconteceu.

Tenho essa frase gravada na minha cabeça há tanto tempo que nem sei em que contexto ela surgiu, mas o fato de eu nunca ter esquecido deve ter alguma coisa a ver com o tanto que a levei a sério e julguei importante fixar.

Quando vi que a 12ª segunda edição da Pólen falaria sobre Perspectiva, confesso: logo pensei em fazer mais um texto daqueles poéticos viajados, tentando ensinar a galera a ter fé na vida e lembrar de encontrar uma perspectiva mesmo quando ela não parece clara. Acabou que dei uma guinada nessa ideia e resolvi pensar na palavra por esse outro viés, o dos pontos de vista.

Como jornalista formada, se teve uma coisa que posso dizer que ouvi incansáveis vezes na faculdade, da boca de trocentos professores diferentes, foi que jamais poderíamos deixar de ouvir todos os lados da história. E a gente sabe o que acontece quando se comete essa falha de sair por aí publicando sem dar voz a todos: corre-se o risco de ter que fazer uma retratação depois, a chamada “reportagem-resposta”, dando ao possível outro lado a oportunidade de falar também.

Pensando nesse assunto, lembrei que gosto tanto de escarafunchar todos os lados possíveis de uma história que fico radiante quando pego um livro novo na mão e descubro que ele foi escrito em poli-narrativa. Sabe aquele estilo literário em que vários personagens tem a oportunidade de contar o que está acontecendo e mostrar tudo através do seu ângulo? Então.

Meu primeiro encontro marcante com uma obra nessas condições foi com A guardiã da minha irmã, da Jodi Picoult. Para quem não sabe, esse livro deu origem ao filme Uma Prova de Amor, protagonizado por Cameron Diaz e Abigail Breslin, que conta a história da irmã que foi concebida em laboratório para ser totalmente compatível com a filha mais velha do casal, diagnosticada com leucemia ainda criança.

Depois desse fabuloso primeiro encontro anotei quase todos os livros da Jodi na minha lista de “vou ler” e nem sei se todos eles são em poli-narrativa, mas os outros dois que já li são sim: Um mundo a parte e A menina de Vidro. Todos os três trazem assuntos extremamente polêmicos na manga e dissecam a história de forma muito abrangente: tendo contato com tudo o que acontece pela perspectiva de quase todos os personagens envolvidos faz com que a gente tenha uma percepção muito diferenciada dos fatos e, invariavelmente, fique extremamente em dúvida sobre qual lado da situação nós escolheríamos para apoiar.

É fácil perceber quando a gente entra em contato com a versão dos demais participantes fica muito mais complicado acreditar numa verdade única e absoluta – e isso me lembra muito aquela questão que eu abordei lááá na primeira edição da Pólen, onde falamos sobre Mentira e eu cutuquei a possibilidade da gente geralmente confiar no narrador de uma história só porque ele é tudo o que temos. Se paro pra pensar nisso fica sempre aquela pontinha de: E SE a história tivesse sido contata pelo personagem X, qual seria a minha conclusão sobre o assunto? Imaginem a série Harry Potter inteirinha narrada pelo Voldemort e teríamos um grande outro rol de possibilidades à nossa disposição. (Inclusive que ideia ótima, JK por favor pense nesse assunto).

Pensar em perspectiva é lembrar, sempre, que cada um tem a sua – e que é muito bacana quando a gente consegue misturá-las para entender um pouco melhor as questões. Seja na literatura ou na vida.

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.